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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador. Vamos começar esta edição por abordar uma notícia com algumas horas: o míssil interceptado no espaço aéreo da Turquia. As autoridades turcas e também um porta-voz da NATO atribuem responsabilidades ao Irão pelo lançamento deste míssil. Boa tarde, professor Rui Pilar. Obrigado pela sua disponibilidade para estar conosco. As autoridades iranianas já vieram desmentir que tenham tido qualquer responsabilidade no lançamento deste míssil. Os meios tecnológicos que existem permitem aferir com exatidão de onde foi disparado o míssil e assim atribuir responsabilidades a quem foi responsável por esse lançamento?

Boa tarde, Miguel, e boa tarde a todos aqueles que nos ouvem. Já é, salvo erro, o terceiro episódio que envolve um país próximo do Irão. No caso, o segundo que envolve a Turquia, onde o Irão tenta fugir às responsabilidades. E parece-me que certamente quer o regime turco, quer também a aliança entre Estados Unidos e Israel, que está a comandar a ofensiva naquele país, vai conseguir aferir qual a origem daquele míssil, sendo que à primeira vista não parece ser difícil definir de onde é que ele partiu. Aliás, já há dois ou três dias tivemos o episódio de um drone também interceptado na Turquia. Agora temos o caso do míssil. Tivemos também um episódio no Azerbaijão em que o regime iraniano vem desmentir, mas parece-me cada vez mais evidente que a origem é do Irão e vem, na minha opinião, na lógica de resistência que o regime está a tentar fazer à ofensiva americana e israelita.

O que é que ganha o regime com ataques a países vizinhos e à Turquia, sendo que o presidente turco Recep Erdoğan, por exemplo, foi dos poucos que veio publicamente condenar a intervenção militar dos Estados Unidos e de Israel? O que é que ganha o regime iraniano com isto?

Eu acho que faz parte da estratégia do Irão para combater esta ofensiva liderada pelos Estados Unidos e por Israel, que passa, tal como um dirigente do regime hoje já o disse, pela pressão económica que quer provocar ao mundo, nomeadamente à região da Ásia, mas também que já, como estamos a ver até no nosso próprio país, que já está a afetar também as economias ocidentais, nomeadamente através dos estreitos de Ormuz, de limitar grandemente a navegabilidade nesse estreito. E, portanto, isso é uma das respostas, é a pressão económica que quer provocar no mundo. Depois, a instabilidade regional que está a provocar ao disparar, de forma que me parece desordenada, para vários países próximos e vizinhos, que alia a uma capacidade de resistência que o regime quer mostrar, ou seja, quer tentar ir pra mesa de negociações, que a ofensiva americana pare, mostrando estas três grandes armas que o regime está a tentar mostrar. É um regime que já deu provas da sua resistência noutras alturas e parece-me que é essa a estratégia iraniana. Aliás, o alto responsável iraniano até disse que esta pressão económica devia servir para outros países intervirem para acabarem com a agressão americana ao Irão. Ora, o que me parece é que esta estratégia é errada e pode vir a servir exatamente no sentido oposto, que é outros países, que não os Estados Unidos e Israel, se juntem a estes dois para pararem com esta resposta por parte do Irão, que a meu ver me parece um pouco desesperada.

O senhor professor falava da capacidade militar do regime iraniano para resistir. É isso que tem revelado o Irão? Capacidade para resistir?

Sim, é um regime que nós temos que perceber que, e uma população maioritariamente também xiita, que tem essa capacidade de resistência no seu ADN. E já noutras alturas também, lembro-me da guerra com o Iraque, onde o Iraque tinha uma capacidade militar muito maior, ou aparentemente muito maior que a iraniana naquela altura, e o Irão conseguiu resistir. E, portanto, é esta a mensagem que o regime quer passar, não só ao mundo, mas também à sua população, porque não tenhamos dúvidas, hoje o que está em jogo para o Irão é a manutenção do regime que vigora há muitos anos. E é nisso que eles estão a apostar e uma das bases dessa aposta é a capacidade de resistência, que não devemos menosprezar, mas eu também estou em crer que quer os Estados Unidos, quer Israel, antes de avançarem para esta ofensiva, também têm bem presente essa capacidade. E eu continuo a achar que esta ofensiva está a correr muito mal ao Irão e a sua capacidade militar começa a ficar cada vez mais diminuída.

Há sinais de que essa capacidade esteja a diminuir?

Sim, reparemos, basta ver o número de mísseis e de drones lançados após a primeira ofensiva dos americanos e que vem reduzindo gradualmente dia após dia. Isso é um sinal claro de que a capacidade militar está a diminuir. Aliás, eu acho que a diminuição da capacidade foi um dos grandes objetivos desta ofensiva americana, foi diminuir precisamente essa capacidade. Portanto, parece-me que isso está a acontecer. Já sabemos também que Israel está a fazer ações Muito cirúrgicas para combater grupos terroristas que habitualmente são próximos do regime iraniano até noutros países, mais concretamente no Líbano. Sabemos também que já têm sido alvos sítios onde o Irão armazena uma grande quantidade de drones e de mísseis. E também percebemos que o regime está com dificuldade em fazer o lançamento, quer dos drones, quer dos mísseis do seu território, porque já percebeu que está a ser monitorizado pelos americanos e pelos israelitas e que terá que fazer esse lançamento de várias zonas, o que também acho que é demonstrativo desta certa desorientação que assistimos do envio de mísseis e de drones por parte do Irão para os países vizinhos.

Esta diminuição da capacidade militar do regime iraniano é condição essencial para uma eventual invasão terrestre por parte dos militares norte-americanos?

Trump já veio, de certa forma, ameaçar que isso poderia acontecer no futuro. Sinceramente, parece-me bastante difícil que isso aconteça e não parece previsível a esta altura que isso aconteça. As informações que temos tido é que nem os americanos nem os israelitas estão satisfeitos com a operação militar que têm levado a cabo nos últimos dias e que esta se reveste de sucesso naquilo que eram os objetivos. Parece-me que esse é o grande objetivo, fazer, numa primeira fase, diminuir grandemente a capacidade militar de resposta do Irão, e eu acho que isso está a ser conseguido. Agora, eu sei que nos custa um pouco compreender, mas isso não se consegue de um dia para o outro, mas acho que esse objetivo está a ser conseguido e eu classifico isso como uma primeira fase. E numa segunda fase acontecerá a mudança de regime, que não parece que esteja nos planos americanos uma mudança já para uma total democracia no Irão, mas um regime intermédio misto, aliás, como vimos o que aconteceu na Venezuela. E eu acho que essa será a segunda fase, mas a primeira fase ainda estamos a viver, que é a diminuição da capacidade militar do Irão.

O senhor percebeu, mas acredita que será possível uma mudança de regime sem uma invasão terrestre por parte dos Estados Unidos e Israel? Ou seja, que a tipologia destes ataques ao Irão será suficiente para provocar essa queda do regime?

Eu estou em crer, porque repare, isto começou há muito tempo, como é natural, mas vamos nos centrar aqui nos últimos acontecimentos. Em 2025 é lançada uma grande ofensiva que diminui a capacidade nuclear do Irão. A resposta do Irão foi muito fraca e isso gerou até bastante descontentamento por parte da população. Depois, as sanções americanas e de outros países ao Irão provocaram uma grave crise financeira no Irão que gerou as manifestações que nós assistimos no final do ano e que se prolongaram pelo início do ano, onde o regime, dizem alguns relatórios até mais sensatos, que matou cerca de 40 mil pessoas da sua própria população, crianças, jovens, que foram dizimados pelo regime. Portanto, a população está bastante insatisfeita, até porque também sofre com essa crise econômica. E já não são só os setores da sociedade que habitualmente se revoltavam no Irão, os mais jovens ligados às universidades, são todos os setores do Irão que estão bastante insatisfeitos com o regime. E agora esta ofensiva vem, de certa forma, decapitar o regime. Resta perceber quando é que a população pode conseguir fazer uma mudança. Mas eu quero crer que os americanos e os israelitas, quando avançaram para esta ofensiva, nesta última fase, já têm isso em mente. E parece-me que o regime está por dias. Já conseguiram executar o líder supremo. Agora temos notícias de que será o seu filho.

Sim, já está confirmado, Mojtaba Khamenei.

Donald Trump, como era de esperar, não ficou satisfeito com esse nome, portanto está a dar claro sinal. É mais uma pessoa com alvo na testa.

Tem a cabeça a prêmio.

Tem a cabeça a prêmio. E mesmo pelo que se sabe, que se sabe sempre muito pouco do Irão, este nome não é uma pessoa que tenha uma tradição já política e muito ligada à liderança, quer militar, quer dos serviços do governo iraniano. Portanto, parece-me uma tentativa também que demonstra um certo desespero ao nomearem o filho para tentarem mostrar à população que o regime se mantém, mas eu acho que fica cada vez mais difícil. Agora, tal como nas manifestações que começaram no final do ano, o regime faz os habituais cortes de comunicação, corta a internet às pessoas e a informação que nos chega também não é a melhor, porque nós não temos noção do que é que está a acontecer no país. Mas eu acho que vai haver um momento em que a população vai ter a oportunidade de conseguir uma mudança de regime. E Donald Trump já exortou a população a fazê-lo e já vai lançando aqui algumas pistas. Já falou em Reza Pahlavi, já falou também que poderá vir do contingente curdo. Eu quero acreditar que não, mas é a tática habitual de Donald Trump lançar vários cenários para cima da mesa, sendo que mais tarde ou mais cedo, vamos percebendo agora ao longo dos dias com a resposta iraniana como é que estará a capacidade de resposta do regime, mas mais tarde ou mais cedo, vamos mesmo começar a falar nisso

O senhor professor falava em Mojtaba Khamenei, que é o sucessor do pai Ali Khamenei, líder supremo iraniano. Esta escolha será também uma forma de desafiar os Estados Unidos e Israel? É dessa forma que interpreta ou uma solução de recurso, tendo em conta que vários dos possíveis sucessores do líder supremo do Irão foram mortos na sequência dos ataques dos Estados Unidos e Israel?

Miguel, eu acho que precisamente esses são dois fatores fundamentais para esta escolha. Primeiro, é sempre o desafio à América e a Israel, no fundo a todo o mundo ocidental, por parte daquele regime. E depois a dificuldade em encontrar um sucessor, até porque, tal como dizíamos há pouco, qualquer sucessor tem imediatamente um alvo na testa, qualquer pessoa que seja designada pelo regime. O regime teve muita dificuldade, demorou muitos dias a designar o sucessor e isso já é um sinal da sua fragilidade. Até a realização do próprio funeral e os constantes adiamentos demonstram que há ali muita dificuldade por parte do regime, porque ninguém sabe o que pode acontecer durante este período. E depois também temos conhecimento de que mesmo as lideranças fracas que não foram executadas e que ainda estão a comandar as operações de resistência, já têm muita dificuldade em fazer essa coordenação, porque percebem e sentem que estão a ser completamente monitorizados pelos americanos e pelos israelitas e já têm dificuldade inclusive em reunirem-se e em concertarem as operações, porque os olhos estão postos em cima deles e mais, também têm noção que os serviços americanos e israelitas têm, no interior do regime, pessoas que passam informação. Sei que às vezes pode parecer que o Irão está a conseguir resistir e está a passar esses sinais, é esse o objetivo do regime. E pode parecer-nos que a resistência está boa, mas de facto, Donald Trump naquela conferência de imprensa ao estilo stand up, que nos deixa sempre um pouco atônitos, mas esquecendo o estilo, o que ele diz é verdade. A guerra está a correr mal para o Irão, está a correr tudo mal para o Irão. E não podemos estar a ver isto de outra forma e está a correr bem para quem lidera a ofensiva. Sendo que é óbvio que ninguém esperava que o regime se entregasse facilmente. Isso é histórico, nunca seria assim, nunca foi assim, já mostrou noutras alturas capacidade de resistência. Mas agora, parece-me que até mesmo esta quase convocatória de outros países para ajudar o Irão a acabar com esta ofensiva é um ato totalmente desesperado, quando o que nós percebemos é que os países da região, além de não serem já parceiros do regime antes desta ofensiva, agora com esta resposta iraniana a bombardear tudo e todos, como é óbvio, aproximaram-se da América. E esses países, se entrarem, vão entrar certamente do lado da América e de Israel para terminarem com todo o regime.

A ver vamos o que ditam os próximos capítulos, até quando consegue resistir o regime iraniano. Professor Rui Vilar, obrigado pela sua presença neste gabinete de guerra, onde procurámos analisar e interpretar alguns dos factos mais recentes relacionados com esta intervenção militar conjunta de Estados Unidos e Israel no Médio Oriente.