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E para esta segunda edição do dia de Gabinete de Guerra convidámos a professora Maria Isabel Tavares, professora na Escola de Direito do Porto, da Universidade Católica Portuguesa. Boa tarde, bem-vinda e obrigado pela disponibilidade. Neste dia em que ocorreu uma nova vaga de ataques dos Estados Unidos ao Irão. Professora, a diplomacia deu definitivamente lugar às armas?

Boa tarde, Miguel. Eu creio que definitivamente, se entendermos por diplomacia as negociações que estavam a ocorrer, que conduziram ao dito memorando de entendimento para depois se negociar uma paz, na verdade, nós sempre considerámos que eram frágeis, ou seja, que os pontos que tinham sido acordados eram frágeis, que havia vários alçapões, e na verdade, havia ali, e houve desde o início, uma espécie de tentativa de reescrever aquilo que estava escrito no memorando de entendimento. E, portanto, este recrudescer e reacender dos ataques, que parece que por parte dos Estados Unidos de uma forma consecutiva e com bastante intensidade, eu creio que não coloca totalmente de parte a possibilidade de as partes, de uma forma talvez menos institucionalizada, continuarem a ter interesse em negociar. Compreende? Eu creio que não é de interesse para nenhuma das partes que a guerra adquira uma intensidade de guerra total, por assim dizer. No entanto, não há dúvida que, até considerando que estes ataques dos Estados Unidos são acompanhados por decisões que tenham a ver também, de parte a parte, com a questão do Estreito de Ormuz e o fecho do Estreito de Ormuz. Na verdade, por um lado, temos o Irão a dizer que fecha o Estreito de Ormuz e, por outro lado, os Estados Unidos a voltarem a afirmar o bloqueio ao Estreito de Ormuz. Já não é só uma questão de atacar e de haver trocas de tiros, por assim dizer, de ataques de parte a parte, mas trata-se mesmo de aquele que era o coração do acordo, ou seja, a ideia de que ambas as partes queriam, teriam interesse em abrir o Estreito de Ormuz, e isso sim, parece estar outra vez posto em causa, com consequências muito significativas para todo o globo. É de assinalar que, por exemplo, a China perspectiva que não vai conseguir alcançar os objetivos de crescimento que tinha estabelecido para este ano. E estamos a falar da China. Ou seja, se a própria China não consegue alcançar esses objetivos e já antecipa que não os vai conseguir alcançar, imagine todos os outros Estados que no fundo têm esses objetivos de crescimento económico.

O preço do barril de petróleo tem vindo a subir. Esse valor está nesta altura a ser negociado a cerca de US$ 84 o barril de Brent, que serve de referência para Portugal e para os demais países europeus. A senhora professora referia que têm interesse em encontrar uma solução negociada, tanto os Estados Unidos como o Irão, alguma das partes tem mais interesse do que a outra?

Quando eu digo que têm interesse, se calhar mais do que uma solução negociada que seja definitiva, têm interesse em não entrar numa situação de guerra total. É isso que me parece. Em relação aos Estados Unidos, parece evidente que a questão das midterms de novembro e o pouco apoio que estas guerras, estas never-ending wars, era mesmo uma das chaves, por assim dizer, um dos slogans da campanha deste segundo mandato de Donald Trump, esta ideia dos Estados Unidos não quererem entrar em guerras que não terminassem, mas parece que é essa a perceção da população, e portanto, nesse sentido, eu diria que os Estados Unidos têm este objetivo ou poderão eventualmente ter interesse em, pelo menos até novembro, que as coisas acalmem. Mas é verdade que isso não está a acontecer. E repare, também eu devo notar que esta ideia da disrupção total das relações internacionais e a forma como as relações internacionais parecem se desenvolver, e nomeadamente por parte dos Estados Unidos, com alguma irracionalidade, incerteza e imprevisibilidade, que aliás é o que aumentou o risco nas relações internacionais, pode-se ver, por exemplo, com esta decisão dos Estados Unidos, que depois da morte do Lindsey Graham, o senador que era o grande apoiante de um pacote mais musculado de sanções em relação ao Irão, que nunca conseguiu que fosse aprovado em relação ao Irão e ao Hezbollah, e de repente Donald Trump diz que então em honra vamos avançar para esse pacote e vamos voltar a negociar e a repensar esse pacote. Foi porque morreu o senador, mas parece que não há propriamente um fio condutor, uma estrutura, uma coerência na política, parece que ela vai variando consoante os eventos vão acontecendo e isso é um fator de enorme disrupção das relações internacionais, sendo que repare, a narrativa, a história que contamos, e que nos tentam contar, é a de que o Irão, até com esta ideia do reforço das sanções, é o grande responsável por aquilo que acontece Sendo que aquilo que acontece é o fecho do Estreito de Hormuz e que venhamos repetir. No dia 27 de fevereiro, o Estreito de Hormuz estava aberto e a funcionar e, portanto, neste momento, a questão da insegurança no Estreito de Hormuz, que é reconhecida até pela própria Agência Marítima Internacional, que considera que não está garantida a segurança de navegação no Estreito de Hormuz, era uma realidade que não existia antes dos ataques de fevereiro. Sendo que esses ataques são justificados por uma ideia de uma ameaça iminente permanente, por parte do Irã contra Israel e os Estados Unidos, quando os Estados Unidos e Israel tinham em junho de 2025 "obliterado", e estou a citar a palavra utilizada pelo próprio presidente Trump, obliterado as capacidades nucleares iranianas e, portanto, é de facto difícil de compreender o rumo que se quer nesta questão.

As tais incoerências a que a senhora professora há pouco fazia referência. Fez também referência ao funeral do senador Lindsey Graham. Hoje foi aventada a possibilidade de Benjamin Netanyahu deslocar-se no sábado aos Estados Unidos para participar nas cerimónias fúnebres. Não é certo que a deslocação possa vir a incluir um encontro com Donald Trump. As relações entre Trump e Benjamin Netanyahu atravessam, nesta altura, o momento mais difícil?

Eu creio que sim, creio que isso é bastante indiscutível, embora Israel agora esteja, por assim dizer, na retaguarda, à espera. A Israel convém e fica contente com este retomar das tensões no Irã. E, portanto, Israel sabe que se houver um agudizar da situação, será sempre chamado também a participar, e isso na prossecução de objetivos que são de Israel e que não são necessariamente dos Estados Unidos. Mas o que eu gostaria de assinalar nesta ideia de Benjamin Netanyahu poder deslocar-se ao funeral de Lindsey Graham, é precisamente essa ideia de que a relação de Israel com alguma parte da política organizada e de lobbies fortes israelitas no contexto americano, é algo que vai para além da administração Trump. Ou seja, o que eu quero dizer é que, como eu interpreto esta possibilidade, com ou sem visita, encontro com Donald Trump, embora não existindo, possa ter uma leitura, obviamente, mas para o primeiro-ministro de Israel, a presença no funeral daquele que era um dos grandes apoiantes, e sempre foi, de décadas, um dos grandes apoiantes de Israel no Senado e, portanto, com um papel muito fundamental nas posições israelitas e na forma como a política internacional norte-americana se interliga com os interesses israelitas e, repare, e depois se reflete na própria política interna, parece-me que essa é a razão que leva Benjamin Netanyahu a querer estar presente e a possivelmente estar presente, e portanto com uma visão de maior longo prazo, até tendo em conta as recentes sondagens e estudos de opinião que demonstram como para as populações norte-americanas mais jovens, os últimos anos, nomeadamente com Gaza, com a Cisjordânia, com a questão do Líbano e da Síria, têm levado a haver uma espécie de afastamento dos jovens em relação às posições de Israel. E, portanto, isto significa que, a longo prazo, esse posicionamento da política internacional norte-americana alinhada com Israel, para se manter, ou pelo menos não cair totalmente em desuso, por assim dizer, precisa de um investimento a longo prazo e é assim que eu perspetivo e que eu analiso esta possível presença de Netanyahu.

Uma relação que tem que ser alimentada. Professora Maria Isabel Tavares, muito obrigado pela sua presença neste Gabinete de Guerra. Chegamos ao fim. Maria Isabel Tavares é professora na Escola de Direito do Porto da Universidade Católica Portuguesa e foi nossa convidada nesta segunda edição do dia de Gabinete de Guerra.

Obrigada eu, boa tarde.