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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e conosco temos hoje o major-general Isidro Morais Pereira. Bem-vindo mais uma vez ao Gabinete de Guerra. Começamos hoje pela decisão dos Estados Unidos de congelar a ajuda militar à Ucrânia. A Casa Branca faz saber que isto não é o fim, mas é apenas uma suspensão dessa ajuda. Senhor major-general, que impacto isto terá no conflito entre a Rússia e a Ucrânia?
Algum impacto poderá ter, eventualmente. Nós sabemos que a Ucrânia, no momento, tem reservas, pelo menos aquilo que são as declarações vindas do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, que tem reservas de praticamente todo tipo de munições que necessita para pelo menos seis meses. Portanto, no imediato, naquilo que são os combates de hoje, de amanhã e nas próximas semanas, eu acho que não terá grande impacto, até porque os países europeus já estão a tomar medidas preventivas, já estão a aumentar a disponibilidade de fornecer armamento à Ucrânia para colmatar, de alguma forma, a falta de determinados tipos de munições e de equipamento. Agora, há uma área que é crítica, que se esta suspensão se mantiver por muito tempo, vamos ver como é que vai decorrer, que é o problema da defesa antiaérea e das munições para os sistemas Patriot, que são os sistemas de defesa antiaérea de maior alcance que a Ucrânia tem neste momento e cujas munições são fabricadas basicamente nos Estados Unidos, não são fabricadas em mais parte nenhuma do mundo. Quando se fala das munições, nós sabemos que os equipamentos militares não têm uma duração ou não têm um funcionamento eficaz ad eternum. Estes sistemas, como os obuses, como os sistemas de lançamento das munições antiaéreas, todos estes sistemas precisam de ser mantidos no campo de batalha e precisam de sobressalentes. Portanto, o não fornecimento por muito tempo de sobressalentes para determinados sistemas de armas que vieram dos americanos ou que foram fornecidos pelos Estados Unidos, poderá naturalmente ter impacto na operacionalidade desses sistemas. Isto significa que, a manter-se este tipo de suspensão de fornecimento de armamento e equipamento militar norte-americano, naturalmente as palavras do Ursula von der Leyen nesta manhã vão ter que ser levadas à prática e este rearmamento que está a ser iniciado pelos países europeus, aliás, que já se iniciou em muitos países, vai ter que sofrer um passo muito acelerado para poder colmatar naturalmente a falta de operacionalidade de determinado tipo de equipamentos que foram fabricados nos Estados Unidos da América e que são fornecidos pelos Estados Unidos. Por trás disto, há aqui claramente uma retaliação relativamente à posição do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Como nós sabemos, assistimos àquele espetáculo, sob todos os títulos, lamentável na última sexta-feira, em que a mim hoje não me restam dúvidas de que foi algo preparado, foi algo devidamente coordenado para apoucar o presidente, desde o primeiro momento que ele chega e enfrenta à entrada do edifício da Casa Branca, quando lhe colocam a questão do fato, se não tinha um fato, em vez de se apresentar daquela maneira. Portanto, tudo aquilo correu por forma a menorizar esta figura, a deslegitimizar o presidente Zelensky e poder dizer hoje, como dizia o Kremlin, julgo que neste momento a Casa Branca mais não é do que uma caixa de ressonância do Kremlin. É um repetidor das narrativas de Moscovo. Portanto, esta questão, me parece que há aqui por trás uma vontade, uma vinga, uma vendetta por parte do Donald Trump e da sua equipa, de procurar vergar a vontade deste líder. E o que é lamentável, no fundo, é que todas as medidas que estão a ser tomadas pela administração Trump são medidas que vão no sentido de premiar aquele que é o infrator, aquele que foi o violador do direito internacional, aquele que se lançou sobre a Ucrânia numa guerra de expansão e tentar fazer a paz e tentar cumprir o compromisso eleitoral de Donald Trump, terminar com esta guerra em 24 horas, depois já não são 24 horas, são 90 dias, depois passam a ser meses. Donald Trump, neste momento, a única forma que está a ver de conseguir dar cumprimento à promessa que fez é vergar o mais fraco, é vergar aquele que deve ser defendido, é vergar aquele que está do lado da razão e não pôr-se do lado do infrator, daquele que tem sido o prevaricador e que se lançou nesta guerra sem quartel e que continua a existir. Agora, consequências práticas de momento não vão ser muitas, até porque a Federação Russa, como sabemos, ao longo deste mês de fevereiro tem perdido o fulgor no campo de batalha. Aquilo a que temos assistido, que assistíamos ou que assistimos, melhor dizendo, praticamente durante o ano de 2024 e ainda janeiro de 2025, que era a execução diária de ações ofensivas ao longo da frente de 1300 km de mais de 200 ações ofensivas, neste momento A média diária não chega a 100. Não tem havido avanços significativos por parte da Federação Russa. Nós sabemos que a Federação Russa se encontra a entrar numa situação de debilidade econômica clara e que também não terá capacidade para continuar este esforço bélico que está a fazer na Ucrânia.
O que é certo é que os Estados Unidos dizem também que já estarão a preparar um plano para aliviar algumas sanções impostas à Rússia.
É isso mesmo. Isso é a prova cabal de que há aqui uma concertação clara entre a atual administração norte-americana e Moscovo, e o Kremlin. Portanto, o alívio de sanções econômicas concorre para as afirmações que eu tenho vindo a fazer. É que há um alinhamento claro, sabe-se lá por quê, há razões de certeza que já têm sido aventadas, inclusivamente na imprensa internacional. A capa de uma das últimas revistas conhecidas, do Le Point francês, apresenta a fotografia de Donald Trump e chama-lhe o homem de Moscovo. Começam aqui a levantar-se questões sobre as sucessivas falências que Donald Trump teve e por quem foi ajudado. Portanto, de alguma forma, há aqui algo que é desconhecido do público em geral, mas que aponta para uma concordância e para uma inclinação de Trump para as teses de Moscovo. Portanto, claramente, os Estados Unidos estão do lado do Kremlin, estão do lado da Rússia. Tanto se deviam colocar como nação defensora da liberdade e da democracia, como tem sido. É assim que a gente tem a imagem dos Estados Unidos. Parece que essa imagem está a esfumar, está-se a desvanecer e os Estados Unidos sob a administração Trump estão a seguir uma orientação, uma linha diferente e naturalmente que vamos assistir nos próximos dias a reações por parte das principais entidades da Europa.
Era isso que eu queria perguntar, senhor Major-General, porque até agora, curiosamente ou não, e queria ouvir a sua opinião sobre isso, há muito poucas reações ainda a essa decisão da Casa Branca. Há a reação, nomeadamente, do governo da Hungria, que apoia a decisão dos Estados Unidos. Já o Reino Unido reafirma o apoio a Kiev. Podemos encontrar aqui alguma explicação para o facto de ainda haver tão poucas reações a esta decisão?
Vamos lá ver. A União Europeia, como nós sabemos, é composta por uma série de Estados-nação, Estados que são soberanos e independentes. Eles ainda não reagiram de per si, porque hoje em dia há um desejo pela grande maioria dos países de coordenarem ações entre si. E esta coordenação da ação diplomática dos países entre si, no sentido de procurar uma mediana e para todos terem uma voz similar ou semelhante, que substitua uma posição comum, leva tempo. E essa é uma das razões pela qual ainda não houve uma reação clara por parte da França. A Inglaterra não faz parte da União Europeia.
Mas já reagiu.
Até já reagiu. Outro país que já reagiu foi a Turquia, que se pôs claramente do lado da Ucrânia, como nós sabemos. E vamos assistir, tirando a exceção da Hungria e talvez da Eslováquia, julgo que a reação do resto dos países europeus, mesmo da Itália, porque nós sabemos que há aqui uma grande aproximação neste momento entre o governo italiano e a administração norte-americana, por razões políticas, como nós sabemos, são ambos partidos muito encostados à direita, mas a primeira-ministra, a senhora Meloni, até agora tem sido, pese embora esteja mais alinhada com os Estados Unidos, tem sempre dito que continuará a apoiar a causa ucraniana, porque é o lado certo da história. Eu penso que a Europa vai ter que acelerar o ritmo da produção de armas.
É com relação a isso, senhor Major-General. Deixe-me colocar-lhe aqui uma questão concreta, porque como o senhor Major-General já disse há pouco também, e temos estado a dar isso nas notícias, a Ursula von der Leyen já apresentou o plano de rearmamento para a Europa, fala em mobilizar 800 mil milhões de euros para a defesa europeia. Este é um valor que para si é suficiente ou é o possível agora?
Neste momento, é o possível, parece-me que é aquele que é praticável. Portanto, nas várias cambiantes que nós ouvimos, porque nós ouvimos o discurso da senhora von der Leyen, eu julgo que ela amanhã na reunião do Conselho Europeu, naturalmente que ela concretizará melhor e ponderizará melhor estas questões. Mas esta verba, a verba de que se falava até agora eram cerca de 700 mil milhões. É bom sabermos que afinal não são 700, são 800 mil milhões e de facto é uma verba avultada, é uma verba de facto substantiva, uma verba importante, mas é uma verba necessária porque a maior parte dos países europeus não têm algo que é extraordinariamente importante, que são reservas de guerra. Não há reservas de guerra. Os paióis ou os depósitos de munições, os relantes de ponta de lança operacional com equipamento militar para substituir aquele que se vai desgastando no campo de batalha, são praticamente inexistentes. Não é apenas Portugal que tem uma grande fraqueza de reservas de guerra. Quando eu falo reservas de guerra, falo, por exemplo, de dias de combate. Vou lhe dar um exemplo. Para as nossas esquadras F-16, temos munições para quantos dias de combate? Aqui há tempos, houve uma notícia vinda do Reino Unido que dizia que a Royal Air Force, a Força Aérea britânica que em termos de reservas de guerra, tinha reservas de guerra para dois dias de combate. Portanto, isto não é admissível, naturalmente. É preciso o complexo militar industrial europeu, que é um complexo militar industrial tecnologicamente muito evoluído, e eu sempre o disse e continuo a dizer, e aqui perfilho completamente das palavras de Armin Papperger, que é o Chief Executive Officer, o CEO da Rheinmetall, que aquando da Conferência de Munique disse aos líderes europeus que estavam presentes, aos líderes mundiais: "Não há qualquer problema em preparar a Europa para um conflito alargado. Nós precisamos de algum tempo e não é muito". Ele disse claramente, e agora vou parafraseá-lo: "Até 2028, nós somos capazes de tornar a Europa numa potência militar, desde que existam encomendas, desde que o complexo militar industrial receba encomendas por parte dos Estados". Porque os donos das fábricas de armamento, aqueles que investiram o seu capital nesse tipo e estão dispostos a investir ainda mais, precisam de algumas garantias. Precisam das garantias que os Estados Unidos, por exemplo, dão ao seu complexo militar industrial. Por que os Estados Unidos não deixaram de ter um complexo militar industrial com uma capacidade razoável? Porque as Forças Armadas americanas todos os anos garantem encomendas a esse complexo militar industrial, seja por via da modernização dos equipamentos, seja por via da constituição de reservas de guerra. Portanto, é preciso colocar a máquina a funcionar a todo vapor. E já temos assistido a algumas medidas que têm vindo a ser tomadas pelos próprios Estados. Eu dei o exemplo da Rheinmetall. A Rheinmetall é um dos maiores consórcios de defesa da Europa, senão o maior. Assistimos o Reino Unido a reativar a fábrica da pólvora e explosivos de Gales, assistimos agora ao Reino Unido a fazer uma encomenda de 5000 mísseis a uma fábrica em Belfast. Quer dizer, estamos um pouco a assistir ao incrementar desta capacidade, da capacidade de produzir armas e munições na Europa. Porque outro aspecto que eu julgo que vai ser explicitado nesta reunião de dia 6, é que todas estas verbas, e já se fala de 800 mil milhões, devem ser empregues não a comprar armamento aos Estados Unidos, mas a produzir armamento na Europa, porque senão o investimento esfuma-se. É dinheiro que não fica, é dinheiro que não faz crescer a economia europeia, porque nós sabemos e o que vai acontecer é que se esta avultada verba for de facto investida na produção de armamentos e de munições no espaço europeu, a economia europeia vai crescer, como nós sabemos, como cresceu a economia russa nos primeiros anos de guerra e continua a crescer. Está a crescer de forma desproporcionada e todos nós sabemos, e a História diz-nos claramente que não se aguenta um investimento apenas no complexo militar industrial durante muitos anos, e isso não é saudável para a economia como um todo, isso nós já sabemos. Mas também não é o que se vai passar na Europa, certamente, porque vai haver aqui um equilíbrio de investimento nos diversos setores. Isto vai ser benéfico para a economia europeia. A Europa vai ser mais ouvida nos negócios do mundo e naturalmente que tem a obrigação de ser solidária com a Ucrânia e não abandonar a Ucrânia, como é óbvio. E é isso que nós esperamos, que a Europa seja capaz de substituir esta falta de vontade dos Estados Unidos de continuarem a estar do lado certo da História e não querer impor a paz. O que os Estados Unidos estão a fazer ultimamente, isto é claro, é tentar fazer capitular a Ucrânia. Ora bem, fazendo capitular a Ucrânia, é evidente que conseguem a paz, como é óbvio. Mas quer dizer, isso era uma forma muito pouco ortodoxa de chegar ao objetivo a que se propunha, forçando o invadido a aceitar as condições do invasor. Isto ficaria, certamente, nos anais da História como um erro catastrófico.
Senhor Major-General Isidro Morais Pereira, muito obrigado por ter estado em mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Obrigado pela sua análise. O Gabinete de Guerra está de regresso logo à tarde para mais uma edição