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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Esta segunda-feira com a análise do coronel José Ducar. Bom dia, coronel, bem-vindo.
Bom dia, doutora.
Bom dia. Continuam os protestos no Irão, protestos que já fizeram centenas de mortes e que no fim de semana se espalharam por várias cidades. O país está sem comunicações há quatro dias. Na região, falam num apagão sem precedentes. Os Estados Unidos não descartam a hipótese de atacar o país, mesmo depois de se falar em negociações, e o Irão ameaça retaliar contra Israel em caso de ataque norte-americano. António Guterres pede contenção. Coronel, como é que vê tudo isto e os próximos dias?
António Guterres faz o que sempre faz. Pede contenção e não faz mais nada. Agora, o que se passa aqui é que estes são claramente os distúrbios e os movimentos de revolta mais volumosos e mais intensos dos últimos anos. Aliás, creio que desde que aquilo é uma república islâmica. Donald Trump ameaçou que fazia qualquer coisa se morressem pessoas.
Isso os presidentes sempre dizem.
Sim, mas é daquelas coisas que se dizem e ou se fazem ou então perde-se a credibilidade, uma ameaça que é feita e depois não é cumprida. Os Estados Unidos só podiam fazer um ataque ali, mas era a obras do regime, ou seja, para se atacar de tal maneira que a população sinta isto como uma agressão. Não ao regime, mas ao país. Exatamente, um efeito contrário, um efeito conhecido da psicologia de massas, quer dizer, unimos contra o inimigo exterior, a nossa identidade é mais importante nessas ocasiões. Agora, o Irão ameaça disparar para todo lado, mas isso percebe-se. É a atitude do gorila que bate no peito e dizer que faz e acontece se o atacarem. Portanto, era uma tentativa de dissuadir uma eventual intervenção americana ou israelita, que também não tem interesse nenhum nisto. Israel, neste momento, não tem interesse em interferir ali, porque se aquela revolução, aquele movimento triunfar e der uma alteração de regime, o problema iraniano está muito mais perto de ser resolvido, aquela corrida ao nuclear, aquela política revolucionária e os mísseis que alcançam todos os países à volta. Portanto, uma mudança de regime, de fato, seria a solução ótima para aquele problema. Israel não está interessado, neste momento, também em reforçar a narrativa do regime, que está sob cerco de que Israel e os Estados Unidos estão a atacar.
Entretanto, a Alemanha está a discutir com aliados europeus a presença de forças da NATO na Gronelândia. Isto num esforço para dissuadir o presidente americano de anexar o território. Coronel, parece-lhe que esta ideia vá para frente e, se sim, como é que se colocaria em prática, fazendo os Estados Unidos parte também da Aliança Atlântica?
Isto parece um diálogo absurdo. De fato, a Gronelândia está coberta pelo tratado da NATO, ou seja, a Dinamarca faz parte da NATO, as ilhas destes países da NATO que estão a norte do Trópico de Câncer fazem parte da NATO e, portanto, a Gronelândia faz parte da NATO, não o país em si, não o território em si, como entidade política. Mas faz parte porque pertence à Dinamarca e a Dinamarca é um país da NATO. Esta ideia de que a NATO pode estar na Gronelândia, ela já lá está. A NATO já faz parte. A Gronelândia já faz parte do território que a NATO cobre. E aliás, há até uma ilha mais a norte, que é a ilha de Svalbard, que fica mesmo em frente à península de Kola, da Rússia, que essa sim, até podia ser militarizada, embora haja um acordo entre a Noruega e a Rússia, mas já agora que estamos na maré de alterar acordos e alterar fronteiras, era a ilha ideal para ter lá uma presença militar, que não tem por acordo.
Mas o que a Europa pode fazer para, de alguma forma, travar Donald Trump e a intenção dele?
Não há nada racional que possa fazer. Há que tentar apenas relembrar que sim, se for preciso, faz-se uma rotação de forças, fazem-se exercícios, mas tudo isso já se tem feito, ou seja, já tem havido exercícios com forças da França, da Inglaterra, ali na Gronelândia. Portanto, tudo isso já se tem feito. Não há aqui nada que não se pudesse ter feito. Inclusive, os Estados Unidos, como fazem parte da NATO, aliás, são o membro mais forte da NATO, também podem claramente fazer um acordo com outro membro da NATO para ter lá mais forças, para ter a rotação de forças lá e terem lá pré-posicionamento. Inclusive, olha o que acontece, por exemplo, na Noruega, pré-posicionamento de armas e munições em certos sítios para serem utilizados em caso de um ataque terrestre, mas não sei como. Um ataque terrestre ali, não sei de onde é que viria. Viria do mar, obviamente. Portanto, tudo isto é uma ficção. Eu acho que o Donald Trump meteu na cabeça que quer aumentar o tamanho da América. Eu não vejo outra razão. As razões que ele alega não são reais. Os Estados Unidos têm presença na ilha, que serve essencialmente para detecção de mísseis e objetos que voem, que venham da Ásia, que ali realmente é o sítio de passagem, é por ali que passam os mísseis, por ali por cima. Quanto à rota do norte, a rota através do Ártico, estas novas rotas que estão a abrir. Elas passam em frente à Noruega também, é tudo controlado. Isto parece um absurdo.
Mas, coronel, o que é certo é que o Senado dos Estados Unidos aprovou, entretanto, uma resolução para limitar os poderes do presidente Trump. O objetivo é travar novas ações militares, como a que levou a cabo na Venezuela. Coronel, para que esta resolução avançasse, contou com votos de cinco senadores republicanos. O que isso nos diz sobre a forma como internamente os americanos estão a olhar para estas ações de Trump? E parece-lhe que esta resolução vai mesmo parar o presidente dos Estados Unidos?
Já há leis da guerra que proíbem uma anexação, proíbem uma invasão. Essa lei já existe. Agora, há ali um gap de 30 dias ou 60 dias, se não estou em erro. Há ali um gap em que o presidente pode desencadear ações sem autorização, ações que ele estabelece como sendo de segurança nacional. Todos os presidentes têm usado esses meios. O Obama usou, todos usaram Agora, o que está a passar é que esse presidente está a usar estas ações e está a ameaçar coisas que estão completamente fora dessas leis. Essa de uma anexação e uma invasão está claramente fora desse âmbito. E como há um abuso, ou parece estar a haver um abuso por parte do presidente desses poderes discricionários, de desencadear ações limitadas por alguns dias, em urgência, em emergência. Porque mesmo no Senado e na Câmara dos Representantes, muitos republicanos que se mantêm calados, mas todos eles percebem que isto vai ter para a América efeitos a longo prazo, ou seja, efeitos de falta de poder de influência, falta de credibilidade como parceiro. E embora apareça esta pressão e uma eventual possibilidade de um ganho imediato: "Eu aumentei o território aqui da América", no fundo é como o imperialismo tipo Rússia, já, é uma coisa estranha. Isso suscita na América, obviamente, muita rejeição. Aquilo não é um povo que no século XX e no século XXI esteja para aí virado. A maneira de controlar um território hoje em dia não é com conquista territorial, é acordos, que inclusive podem ser econômicos, é a questão dos minerais, acordos econômicos, exploração de territórios, em acordo com o seu legítimo proprietário, ou segundo o direito internacional. Portanto, o que vai acontecer é que nenhuma das ambições de Trump que passem pela Gronelândia passará, segundo a geometria habitual da Câmara dos Representantes e do Senado, porque de facto eles não vão apoiar. A grande maioria será contra e rejeitará isso. Ele não tem capacidade para invadir a Gronelândia. Jurídica, militar tem, obviamente, mas jurídica não tem. Internamente, é o direito internacional, é o direito interno americano que não o deixa fazer isso. E ele sabe disso. Se isso acontecer é porque a América já não será um Estado de direito. Basicamente, será isso.
Pois. Sobre a Ucrânia, Medvedev voltou a avisar os líderes europeus que se enviarem forças internacionais para a Ucrânia, serão atacados por Moscou. Foram estas as palavras de Medvedev: "Já foi dito mil vezes, a Rússia não aceitará tropas europeias ou da NATO na Ucrânia, mas não, Micron", e foi assim que se referiu a Emmanuel Macron, "continua a espalhar este disparate patético". Coronel, a intimidação fará com que alguns países europeus, como França e Reino Unido, recuem no envio de tropas num cenário de pós-guerra, porque antes disso é preciso haver paz, o que parece estar longe.
Pois, Medvedev é o habitual trompete de serviço. Quando o Kremlin quer dizer alguma coisa que passa das marcas, manda Medvedev dizer. Ele já se tornou um bocado imputável. Ele fala e as pessoas já pensam: "Está bem, é o Medvedev e é só isto. O Medvedev é isto". Agora, de facto, a Rússia não quer. A Rússia continua a manter os seus objectivos, que é a Ucrânia como país sob controle, país subordinado à Rússia. Mesmo que deixe de ser um país, será sempre, segundo os objectivos russos, obviamente, desta campanha, desta operação especial, será sempre manter a Ucrânia como país subordinado. E claro que não quer tropas da NATO ali na zona. Mas não terão de ser tropas da NATO. Os países da NATO têm que ter capacidade própria para a NATO.
Exatamente, sim.
Sim, a França pode fazer acordos com a Ucrânia. Aliás, digo-lhe já, se na altura em que a Rússia começou a concentrar forças junto à Ucrânia para aquele ataque, muita gente achava que não ia acontecer. Bastava, na verdade, os Estados Unidos meterem lá uma brigada em exercícios e já não tinha havido ataque. Isto tinha-se resolvido antes de começar. De facto, houve aí muita tibieza da parte da administração, porque a Rússia não iria avançar com tropas americanas dentro do território, que estariam lá legitimamente, porque exercícios qualquer país pode fazer com outros.
Exatamente, sim.
E portanto, esta intimidação russa, no fundo, é este gesticular também. Aliás, este lançamento deste míssil que houve agora, este míssil de alcance intermédio, o Oreshnik, é um míssil perigoso, porque como também pode levar ogivas nucleares, é um míssil passível de ser interpretado como uma ameaça nuclear. Um míssil destes lançado, ninguém sabe que ogivas é que leva. E portanto, lançar um míssil destes para território ali perto da Polónia, pode ser interpretado, quem estava de um lado de cá, como um míssil nuclear, como uma ogiva nuclear. Isso entra naquele âmbito da dúvida que pode levar a reações, porque imagino o que é um míssil nuclear cair numa cidade.
Ficamos sem ligação do Coronel José do Carmo. Fica por aqui, então, este Gabinete de Guerra.