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Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Vamos atualizar a situação nos conflitos da Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje com a ajuda do professor António José Teal, professor catedrático de História na Academia Militar. Vamos começar pelo Médio Oriente, porque há hoje informações de ataques a Israel, há registro de mortos. O Hezbollah já reivindicou este ataque. O que é que podemos esperar agora? Certamente uma resposta israelita para esta situação de ataque, bombardeamentos a Israel.

Boa tarde. Certamente, é o normal, mas permita-me algumas observações à volta disso. A verdade é que Israel, em especial Netanyahu, está lentamente a conseguir levar adiante o seu plano, que é um plano de mudar a região e, sobretudo, tentar combater, reduzir as capacidades ou até anular os principais inimigos de Israel, quer o Hamas, na Faixa de Gaza, quer o Hezbollah, no Líbano, quer o Irão. O Hamas está bastante enfraquecido neste momento, está reduzido a menos de 1/3 da força combatente que tinha de início. O Hezbollah, não. O Hezbollah ainda está bastante forte. O Hezbollah, aliás, era uma força muito superior ao Hamas quando isto começou, mas as suas posições na zona do sul do Líbano, portanto, na zona mais próxima da fronteira de Israel, estão, de facto, enfraquecidas. As bases e os depósitos que tinha nessa zona estão, de facto, enfraquecidas. O que é mais, as iniciativas de Israel, que inclusive ataca a zona do Líbano bem ao norte, literalmente na fronteira com a Síria, essas iniciativas mostram que há uma determinação de ir até onde for preciso e, no essencial, para reduzir o Hezbollah. E, em terceiro lugar, Israel tem consciência que, de facto, para reduzir o Hezbollah e para reduzir o Hamas, ou seja, eliminá-los como uma ameaça efetiva à população israelita, é necessário resolver a questão com o Irão, porque o Irão é que é o grande apoiante desses e de muitos outros grupos anti-israelitas que seguem táticas e métodos mais ou menos terroristas. Israel também está a avançar nesse sentido, mas está a avançar com extrema cautela, porque sabe que não é capaz de sozinho conseguir resultados significativos num confronto direto e de envergadura com o Irão. E que significa também que, neste momento, Israel tem tudo em suspenso. Está tudo dependente das eleições dos Estados Unidos. Não falta muito, não é? São cinco dias. E dependendo do resultado dessas eleições, assim será ou não possível avançar em relação ao Irão e ver em que termos é que avançar.

Pois.

Uma coisa é certa: Israel está a conseguir paulatinamente obter resultados que há uns tempos pareciam difíceis de obter. A ameaça do Hamas está bastante reduzida em relação ao que era. O Hamas claramente dá sinais que deseja um cessar-fogo, embora ainda avance com condições que Israel considere inaceitáveis. E a possibilidade de anular o Irão como grande ameaça está em cima da mesa. Ou seja, há um conjunto de objetivos que estão a ser alcançados. Para um preço terrível para Israel. Esta é, de facto, a mais longa guerra que Israel tem por larga margem. Por larga margem, é 10 vezes maior que as guerras ativas anteriores e está a provocar efeitos, sem dúvida, em termos da economia e não só, em termos da sua posição internacional. Até porque um dos obstáculos que Israel teve que ultrapassar é justamente torcer o braço aos Estados Unidos, coisa que não é fácil de fazer e que poucos outros poderes, além de Israel, conseguiriam fazer como ele tem feito.

Mas com tudo isso que nos descreve e também pegando novamente nesse ataque do Hezbollah a Israel, a Haifa, mais concretamente, e aquilo que estava a descrever nesta altura, com tudo isto, como é possível apontar para uma discussão de cessar-fogo? Porque ambas as partes falam disso, falam dessa necessidade. É óbvio que cada uma das partes tem também as suas próprias condições para que isso possa avançar, mas estamos só a falar de retórica. Com tudo isso que descreve e com ataques a acontecerem todos os dias, é possível entrar numa discussão de cessar-fogo?

Nos 13 meses que já vão desta guerra, as discussões de cessar-fogo estiveram sempre presentes, na maior parte das vezes de uma maneira clara. Era dito que havia reuniões e inclusive a que horas e onde, etc. Noutras vezes, de uma maneira mais discreta. E o que é certo é que nesta guerra, também uma outra coisa muito curiosa é que os intermediários têm sido imensos. Desde os Estados Unidos, direta ou indiretamente, através, por exemplo, do Egito ou através da Arábia Saudita, passando pela China, pela Rússia, pelos praticamente todos os países árabes Têm surgido imensos centros mediários. Se há uma coisa que não falta nestas guerras é conversações e negociações. Agora, por enquanto, a agenda, nomeadamente a agenda do Hamas, embora já seja muito reduzida em relação ao que era anteriormente, inclui, sobretudo, um ponto que é ainda inaceitável para Israel, que é o total abandono da Faixa de Gaza, sem garantias de que haverá uma anulação das capacidades militares do Hamas. Este ponto Israel ainda não pode aceitar, aliás, porque em larga medida foi por causa deste ponto que se iniciou esta campanha, pela qual Israel pagou um preço demasiado caro. O grande argumento do governo de Israel, que o faz inclusive ter neste momento uma unidade à sua volta maior do que tinha antes, é: depois de termos pago este preço imenso, não podemos desistir quando os resultados que queríamos estão relativamente perto. E esse argumento é um argumento muito sentido pela população de Israel, apesar das muitas divisões que existem, porque a população de Israel, como qualquer outra população neste momento, sobretudo nos países democráticos, está amplamente dividida.

Vamos acompanhar essa situação e essa abertura ou não para discussões de cessar-fogo noutras edições deste Gabinete de Guerra. Vamos ao conflito da Ucrânia e ainda à questão dos soldados norte-coreanos. É tema a marcar a semana, certamente marcará também os próximos dias. O diretor de contradesinformação da Ucrânia, Andrii Kovalenko, disse hoje numa intervenção televisiva que já há soldados norte-coreanos na região ucraniana de Donetsk, ocupada pela Rússia. De acordo com Kovalenko, estes militares ainda não participaram ativamente na guerra, mas vão fazê-lo em breve. Diz também que os soldados vão usar uniformes russos, vão ter documentos russos, vão estar misturados com os soldados russos. Isto foi o que disse Kovalenko: "Pelo menos sabemos quais são os planos do inimigo e eles pretendem integrar os norte-coreanos em Donetsk". Todos os dias temos um passo em frente nesta situação a envolver militares norte-coreanos. Estamos no momento em que vamos efetivamente ter tropas norte-coreanas a lutar contra tropas ucranianas?

Diz muito bem, todos os dias vemos serem dados passos nesse sentido, mas o que é mais preocupante até não é os passos que são dados, mas é o que eles representam e o que eles deixam adivinhar em relação ao futuro. Repare, a Rússia não se daria ao imenso trabalho de trazer uma força norte-coreana para lutar no território ucraniano se fosse uma força pequena. Pura e simplesmente a reação internacional e os problemas que seria de integração seriam tão grandes que não compensam em relação a uma força pequena. Dez mil é muito pouco em relação ao que a Coreia do Norte pode fornecer. A Coreia do Norte tem 1,1 milhões de militares no exército, 1,3 milhões nas Forças Armadas. Se foi feito este esforço, e este esforço tem um preço internacional significativo, como aliás a Coreia do Sul já deixou bem claro, além dos Estados Unidos e dos países da NATO, é porque está-se a pensar num empenhamento numa escala bastante maior. Será muito difícil, se assim for, que não haja uma resposta à altura. Mais uma vez, está tudo paralisado até às eleições americanas. Só depois das eleições americanas é que será possível pensar numa resposta, mas elas são várias e são possíveis, como aliás a Coreia do Sul já foi a primeira a avançar. Ou seja, este empenhamento é também muito significativo em termos do aumento da tensão do outro lado do continente, ou seja, do Pacífico, da tensão entre as Coreias e da tensão no Extremo Oriente. E é um aumento de tensão que está a ser feito pela Rússia, claramente, a China mantém-se de parte, que está a ser feito pela Rússia dentro do que é o seu grande objetivo em termos internacionais, que é iniciar de imediato uma Guerra Fria, um confronto, pelo menos em termos de Guerra Fria, com o Ocidente como um todo, partindo do princípio que ele está dividido e enfraquecido e não será capaz de aguentar e que esse confronto irá pôr a Rússia como o poder dominante do outro lado, do lado antiocidental. Este movimento da Coreia do Norte compreende-se à essa luz. É um objetivo dos regimes como o da Rússia e como o da Coreia do Norte sobreviverem e fortalecerem-se através do imediato começo de uma Guerra Fria. Esse é um dos seus objetivos e ao ser pensada uma resposta, tem que se ir disso em conta. Por outro lado, um empenhamento significativo de forças norte-coreanas na Ucrânia neste momento será muito difícil de aguentar em termos dos problemas militares que a Ucrânia enfrenta. Ou seja, será necessário também compreender-se que isto é uma escalada de grande envergadura que implica rever as regras do jogo.

E nessa revisão de regras do jogo, muito se tem discutido se a NATO deve dar uma resposta também com boots on the ground ou outro país envolvido na NATO a fazer isso de forma individual, sabendo que a Ucrânia poderá fazer esse pedido Perceber que papel é que pode ter a Coreia do Sul neste aspecto. A Coreia do Sul não faz parte da NATO. A Coreia do Sul vê como uma solução ou como um país a colocar boots on the ground na Ucrânia para lutar ao lado de compatriotas ucranianos contra russos e norte-coreanos?

Será difícil. Agora a Coreia do Sul tem outras respostas possíveis, nomeadamente podem-se criar dificuldades à Coreia do Norte em vários sítios do mundo, e não só à Coreia do Norte e à Rússia. Portanto, normalmente as respostas indiretas são as melhores. Agora, deixe-me repetir, sem ter uma clarificação da situação política nos Estados Unidos, não é possível pensar sequer em termos concretos de uma resposta a dar. E depois tudo depende, de facto, do tipo de empenhamento e do número do empenhamento das forças norte-coreanas. Agora, uma coisa é certa: desenha-se, e há sintomas disso nalguns pontos, uma solução possível que seria o que eu chamo desde já, do começo desta guerra, praticamente o Munich do nosso tempo, ou seja, uma solução que era o sacrifício da Ucrânia para pôr um fim parcial a esta guerra. Ora isso seria, sem dúvida, a pior solução, porque seria favorecer os agressores, fortalecer os agressores, convencê-los que a agressão compensa e convencê-los que compensa avançar para uma guerra fria imediata. Ou seja, isso seria uma guerra muito maior a curto prazo. E há alguns sintomas, inclusive de países da NATO, lembrar da Hungria, por exemplo, ou da Eslováquia, que apontam nesse sentido, que gostariam de uma solução dentro do que é, ao fim e ao cabo, os objetivos da Rússia. E se for assim, caminhamos para uma guerra de grande envergadura a curto prazo, que terá como principal teatro a Europa. Agora, junta a isso ainda por cima uma perspetiva, que é uma perspetiva possível, que é uma Europa com os Estados Unidos dirigidos pelo presidente Trump.

Sim, exatamente.

A ver qual é o cenário que se desenha, não é?

Exatamente. Professor António José Taylor, muito obrigado por ter estado connosco nesta edição do "Gabinete de Guerra". Estamos de regresso para continuar esta análise destes conflitos na próxima semana.