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Abrimos aqui mais um Gabinete de Guerra, na Rádio Observador. Eu sou a Diana Rosa. Durante os próximos minutos vou falar sobre os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente com a investigadora Diana Soller, especialista em relações internacionais. Diana Soller, boa tarde. Obrigada por se juntar a este Gabinete de Guerra.
Olá, boa tarde.
Boa tarde. Começamos pela guerra na Ucrânia, que vive, como sabemos, uma nova dinâmica. A Ucrânia e a Rússia confirmam a destruição da terceira ponte pelas forças ucranianas na região de Kursk, ao mesmo tempo que em Pokrovsk, no Donetsk, as autoridades ordenam que as famílias com crianças abandonem a região na sequência dos avanços russos. Há mesmo especialistas militares ucranianos a avisar que a queda da cidade de Pokrovsk pode levar ao colapso de toda a linha da frente. Esta incursão, Diana Soller, em território russo, pode deixar a Ucrânia mais vulnerável aos ataques dentro do próprio país?
Olá, boa tarde. Antes de mais, não sabemos exatamente. Para já porque eu não sou especialista militar, mas acima de tudo, porque me parece, por aquilo que eu tenho lido sobre essa matéria, que as forças que estão em Kursk não seriam as mesmas que estão a defender a Ucrânia. Isso quer dizer, de alguma maneira, que provavelmente os ucranianos perceberam que não seria possível defender a linha da frente da forma que estavam a defender e, portanto, acharam que a opção militar mais interessante para a Ucrânia neste momento era precisamente a entrada em território russo. Essa ideia de que a linha da frente pode colapsar, não será nunca toda a linha da frente de uma só vez, porque a linha da frente é enorme, mas que pelo menos Donetsk pode colapsar para o lado dos russos, pode ter sido avaliada pelas forças militares ucranianas, pelos comandos militares ucranianos, como uma inevitabilidade. E precisamente para defenderem Sumy e para defenderem a parte sul da linha da frente, acharam que uma incursão em Kursk, e agora aparentemente que está também a avançar para Belgorod, seria uma solução que, por um lado, dispersaria as tropas russas, por outro lado, de alguma maneira, minaria a confiança da população russa na sua liderança, que é uma coisa que vários especialistas militares e especialistas da Rússia estão a dizer que pode estar a acontecer, nomeadamente o grande jornalista russófono, digamos assim, Mark Galeotti, especialista nas questões da Rússia, já com uma vasta obra publicada. Na verdade, nós chegamos aqui a um ponto em que quer a Ucrânia, quer a Rússia estão em momentos de grande fragilidade e, portanto, ainda não é verdadeiramente claro como é que este avanço russo no Donetsk e o avanço ucraniano em Kursk e Belgorod, no fim do dia pode resultar.
Diana Soller, a Rússia denuncia diariamente ataques ucranianos a infraestruturas civis em Kursk, como aqui também a Diana Soller falava, mas também em Belgorod. Isto pode vir a comprometer, de alguma forma, o apoio do Ocidente à Ucrânia ou pelo menos a esta estratégia de atacarem solo russo?
Não sabemos. Eu penso que é difícil, no sentido em que não tem havido propriamente da parte do Ocidente queixas profundas relativamente àquilo que acontece. Vai havendo uns rumores de que o Ocidente foi apanhado de surpresa, mas eu sinceramente tenho alguma dificuldade em acreditar nessa versão, porque a Ucrânia não tem suficiente armamento próprio, digamos assim, para poder fazer uma incursão destas sem...
Sem o apoio dos parceiros internacionais.
Sem o apoio, exatamente. Agora, eu gostava de chamar a atenção para uma notícia que o próprio Observador deu, que foram as declarações do governador Mark Kelly, que é um governador muito próximo de Kamala Harris e da campanha de Kamala Harris. Aliás, foi um dos homens de quem se falou para ser o vice-presidente em concurso ao lado de Kamala Harris. E ele fez umas declarações muito interessantes. No fundo, ele disse que neste momento, e eu sublinho neste momento, não está confortável com a incursão ucraniana. Agora, este momento e a ideia de que este apoio pode ser apenas temporário, de alguma maneira deve preocupar-nos, no sentido de que não faz sentido o Ocidente retirar todo o seu apoio à Ucrânia, nem uma parte dele, pelo menos de repente, porque o Ocidente tem muito a perder se a Rússia de facto ganhar esta guerra Mas mostra que, mesmo que ele diga que não está desconfortável e que os ucranianos foram atacados ilegalmente e que, portanto, têm o direito de se defender e que esta retaliação ou incursão põe Putin em desvantagem, ao mesmo tempo não é uma afirmação com a firmeza que se esperaria de um aliado ou de um futuro aliado da Ucrânia. Portanto, eu acho que os aliados, apesar de, por razões de não quererem criar um problema maior com a Rússia e não se quererem responsabilizar pelas escolhas ucranianas, estarem a dizer, de alguma maneira, que não foram avisados, que não sabiam, também não o censuram. E a sensação que verdadeiramente dá é que estão expectantes. Ou seja, esta incursão pode vir a ter bons resultados para a Ucrânia e, de alguma maneira, aos poucos, virar apoio, ou pode ter maus resultados e eu diria que os aliados abriram a porta para se descolar um bocadinho de um eventual insucesso ucraniano devido a este acto ofensivo.
Falamos ainda do primeiro-ministro indiano, que vai visitar Kiev, uma notícia de hoje. Os meios de comunicação da Índia dizem que essa visita pode acontecer até ao final desta semana. É a primeira visita de Narendra Modi à Ucrânia desde o início da guerra, mas vem depois de ter visitado Moscovo há umas semanas. Diana Soller, será que esta é uma tentativa de apaziguar as relações com a Ucrânia depois de várias críticas achadas a pretexto das reuniões com Vladimir Putin? Ou será que podemos mesmo esperar alguma novidade nesta ida de Narendra Modi a Kiev?
A visita vai acontecer na sexta-feira, acabei de ver. O gabinete ucraniano acabou de dar essa informação, portanto, na próxima sexta-feira, 23 de agosto. Não me parece que esta visita tenha propriamente a ver com um apaziguamento. O que eu acho é que esta visita cabe, de uma forma muito concreta, na política externa indiana. Ou seja, a política externa indiana é uma política que é normalmente chamada uma política de autonomia, uma política multivetorial. Querendo isto dizer que a Índia não se sujeita a aliado nenhum e à vontade de aliado nenhum. E não deixa, ao mesmo tempo, de se dar bem com todos os aliados. E aqui aliados, estamos a falar, evidentemente, da Rússia, com quem Indira Gandhi e, na altura, Breznev, assinaram um acordo de amizade em 1971, que se mantém em vigor e que a Índia preza muito. É a única aliança formal que a Índia tem. Portanto, a Índia nunca vai ter uma relação de grande distância em relação à Rússia, mas ao mesmo tempo, depois dos anos 90, depois da fraqueza relativa da Rússia relativamente aos Estados Unidos e principalmente com a ascendência da China, que é um inimigo declarado da Índia, com uma guerra em 64 e com problemas na definição das fronteiras nos Himalaias. A Índia, principalmente do BJP, que é o partido de Narendra Modi, começou paulatinamente uma aproximação aos Estados Unidos, que se mantém, nomeadamente em alianças como o Código de Algo Quadrilateral de Segurança, na qual participam os Estados Unidos, o Japão, a Austrália e a Índia, que é claramente uma organização internacional anti-chinesa. E, portanto, o que é que a Índia tem que fazer para conseguir manter este equilíbrio? No fundo, tem que agradar a todos os aliados. E portanto, se por um lado fez uma visita a Moscovo no fim de julho, porque há efetivamente um laço diplomático muito forte entre a Índia e a Rússia, também vai visitar a Ucrânia para mostrar, por um lado, aos Estados Unidos que a Índia não rejeita liminarmente a causa ocidental e, por outro lado, para mostrar aos Estados Unidos que a Índia se mantém, de alguma maneira, ligada ao projeto ocidental. E, portanto, esta visita não é completamente inesperada, é um sinal de que a Índia de Modi é, acima de tudo, um parceiro de ambos os lados que quer ser visto como um agente de paz, mas não necessariamente um mediador, ao contrário de países como a Turquia, até como a própria China ou Brasil, que estão sempre ansiosos por mostrar sua importância numa eventual mediação no futuro. A Índia não tem mostrado qualquer interesse nesse papel. Quer é manter boas relações e relações que contemplem o seu interesse nacional com todos os atores importantes do sistema, sabendo sempre Que a sua inimizade profunda e a inimizade que pode vir a trazer-lhe problemas é aquela que tem com a China e tem uma certa dependência de outros aliados que possam vir a conter a China, que neste momento não são, evidentemente, a Rússia.
Viramos agora atenções para o Médio Oriente. Antony Blinken está hoje em Tel Aviv e reafirma ao presidente israelita a necessidade urgente de ser alcançado um acordo entre Israel e o Hamas. Diz mesmo que esta pode ser a última oportunidade. Os avisos dos Estados Unidos têm sido, em parte, ignorados não pelo presidente, mas pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O que é que os Estados Unidos podem fazer mais, Diana Soller, para acalmar a situação no Médio Oriente, numa altura em que há cada vez mais actores envolvidos neste conflito?
Acho que podem fazer pouco mais do que aquilo que têm feito. Agora, eu acho que esta declaração de Blinken, na sua visita ao presidente Erdogan, não deixa de ser significativa, porque esta ideia de que pode ser a última oportunidade para conseguir alcançar um acordo, pode ser lida de duas maneiras. Por um lado, que já se tentou tantas vezes, que seria praticamente inútil tentar mais alguma e os Estados Unidos, de alguma maneira, percebem ou aceitam publicamente que não podem fazer muito mais do que aquilo que têm feito. Por outro lado, também pode ser lido como uma ameaça a Israel, ou seja, Blinken estar a dizer a Israel: "ou aproveitam esta oportunidade ou os Estados Unidos podem lavar daí as suas mãos". Até porque os Estados Unidos compreendem que estarem permanentemente a pressionar Israel e Israel fazer sempre aquilo contrário daquilo que os Estados Unidos tentam pressionar Israel para fazer, às tantas coloca os Estados Unidos numa situação muito complicada, até do ponto de vista de líderes do mundo ocidental, que é o papel que os Estados Unidos querem e têm tentado se empenhar. Eu diria só mais uma coisa em relação a isto. Esta é a parte da diplomacia norte-americana visível, mas eu estou convicta que tenha havido outros dois actores sobre os quais os Estados Unidos têm feito grande pressão e provavelmente com mais sucesso. O primeiro desses actores é o Irão, que os Estados Unidos ameaçam publicamente muitas vezes, mas com quem provavelmente estão em conversações para questões como o levantamento de parte das sanções impostas pelos Estados Unidos no pós acordo nuclear. Pode estar a haver, pequenos sinais indicam que está a haver, do ponto de vista público, ameaças, do ponto de vista não público, conversas com o Irão, que têm resultado, pelo menos até agora, porque já passaram mais de duas semanas desde o assassinato de Ismail Haniyeh e ainda não houve retaliação da parte do Irão. E parece-me que o único actor que teria a capacidade de conter essa retaliação seriam os Estados Unidos com esta dupla diplomacia. E, por outro lado, junto da Arábia Saudita, a quem os Estados Unidos levantaram o embargo parcial de venda de armas que existia desde o início da presidência Biden. Em troca, aparentemente, da criação das condições para o reconhecimento da Arábia Saudita, do Estado de Israel, da existência do Estado de Israel. Ainda que com muitas reticências, porque a Arábia Saudita diz que só o fará no momento em que se iniciar um processo de criação de dois Estados. No entanto, sobre esses dois Estados, e dado tão grandes diferenças nas suas políticas externas, relativamente àquilo que os actores costumam fazer e que costumamos ver nos últimos dias, parece-me que, apesar de tudo, a diplomacia norte-americana não tem sido completamente inútil no Médio Oriente.
Diana Soller, temos 30 segundos para fechar este gabinete de guerra, mas não queria fechá-lo sem lhe colocar uma questão. Hoje arranca a Convenção Nacional dos Democratas, nos Estados Unidos. Na rua esperam-se manifestações pró-Palestina. Kamala Harris já disse que é preciso um cessar-fogo imediato em Gaza. No entanto, tem-se abstido de grandes comentários sobre a situação no Médio Oriente. Pergunto-lhe se este pode ser um dos factores de divisão entre os apoiantes do Partido Democrata nesta corrida à presidência dos Estados Unidos e se Kamala Harris fica eventualmente a perder, se assumir uma posição mais fraturante face a Israel.
Eu diria que sim, é um dos factores que pode ser divisório do Partido Democrata, mesmo que isso não se reflita nas votações das eleições presidenciais, ainda que possa acontecer. E o que o eleitorado de Kamala Harris espera é que ela tenha efetivamente uma postura mais dura para com Israel, porque Kamala Harris pertence à ala progressista do partido e é isso que a ala progressista do partido defende. Agora, a ala mais moderada provavelmente não ficará particularmente satisfeita se Kamala Harris fizer depender o apoio de Israel a um comportamento determinado de Israel na Palestina e portanto, pode ser um fator de grande divisão. Talvez não agora e talvez não nas eleições, porque Kamala Harris tem um momento relacionado com a sua candidatura, a sua substituição de Joe Biden, mas estes dias de convenção vão ser, por um lado, dias de aclamação da nova líder, mas por outro lado, dias que temos que acompanhar com muita atenção, porque esperamos que Kamala Harris faça pela primeira vez na próxima quinta-feira, o seu primeiro discurso político, o seu primeiro discurso em que efetivamente vai dizer que parte da herança de Biden vai reter, que parte das políticas que se seguirão se ela for eleita presidente, são da sua lavra, porque nós, na realidade, ainda não sabemos o que é que Kamala Harris pensa a respeito de praticamente nada do ponto de vista político.
Muito obrigada, Diana Soller, pela sua análise aqui na Rádio Observador.
Eu é que agradeço.
Obrigada. Fica por aqui o Gabinete de Guerra desta segunda-feira. Temos encontro marcado amanhã.