Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com a especialista em Relações Internacionais, Liliana Reis. Bom dia, Liliana.
Bom dia.
Liliana, começamos com o impasse no conflito entre Estados Unidos e Irão. Amanhã termina o cessar-fogo de um mês, enquanto as negociações parecem estar paradas. O que podemos esperar para os próximos dias, Liliana?
Muito bom dia novamente. Neste momento, aquilo que nós temos em cima da mesa é possivelmente um prolongamento deste memorando de entendimento. Aliás, o artigo quinto do memorando já previa que o Irão inevitavelmente iria encetar todos os esforços para garantir a passagem segura de navios comerciais sem a cobrança durante os 60 dias. E entretanto, ontem o Irão, juntamente com o governo de Omã, chegaram a um acordo acerca do mapa das rotas marítimas no Estreito de Ormuz. E isto pode ser, efetivamente, o primeiro passo para uma reabertura parcial. Agora, aquilo que nós começamos a observar e também no decurso das últimas palavras de Donald Trump num comício desta semana, aliás, quase apontando para uma possibilidade, não de anexação, mas pelo menos de tornar o Estreito de Ormuz um protetorado dos Estados Unidos. Aquilo que observamos e aquilo que podemos dizer nesta fase é que provavelmente os 60 dias terminam amanhã, como referiu, e ainda há um longo caminho a percorrer até conseguirmos alcançar uma paz, pelo menos mais duradoura no Médio Oriente. E por isso, não me parece que neste momento haja efetivamente condições de que termine o prazo e seja celebrado um acordo definitivo amanhã. Aquilo que poderá é abrir espaço a que as negociações se prolonguem e continuem. Agora, naturalmente que começam a surgir muitas críticas, quer à administração norte-americana a nível interno, e também se começa a observar do ponto de vista internacional, que há outro tipo de movimentações. E por isso convém que estejamos atentos. Aliás, deixe-me que recupere um artigo publicado na Foreign Affairs do atual bimestre, da anterior responsável pela política do Médio Oriente no Pentágono, Dana Stroul, num artigo que refere "O paradoxo do poder no Médio Oriente". Ela argumenta que apesar da demonstração do poder e da superioridade militar norte-americana desde fevereiro, e também durante estes últimos 60 dias, é efetivamente cada vez mais evidente que foram expostos os limites de transformar ou transpor esta superioridade militar numa superioridade estratégica, ou seja, transformar este poder militar em influência política duradoura. Aliás, o artigo até aponta para uma capacidade militar americana extraordinária, por exemplo, mais de 10 mil saídas aéreas, mais de 130 mil alvos atingidos e cerca de 170 mísseis e drones iranianos interceptados. O que os Estados Unidos não estão efetivamente a conseguir é que face a esta superioridade militar, haja uma perda de influência iraniana, nomeadamente na negociação. E aquilo que ontem se observou relativamente ao acordo entre o Irão e Omã é a prova disso mesmo.
Precisamente, só para contextualizar, o acordo para um percurso seguro de navegação por Ormuz. Que efeitos, Liliana, é que pode ter este acordo na circulação nesta zona e tendo em conta também que aumenta a tensão num outro estreito, o de Bab-el-Mandeb, entre os Huthis e a Arábia Saudita?
Pois, aí temos outro problema. Respondendo à sua primeira questão, depois deste mapa que foi acordado entre o Irão e Omã, nós temos que perceber a operacionalidade deste corredor e por onde é que vão efetivamente passar. Será por uma parte mais controlada por Omã ou pelo Irão? Depois, ver se os primeiros navios darão origem a um aumento gradual do tráfico. Agora, este acordo não resolve a questão entre Teerão e Washington. O Irão continua a dizer que a reabertura completa depende das condições impostas aos Estados Unidos, como nós sabemos, e falo do fim do bloqueio naval, do levantamento das sanções, da libertação dos ativos iranianos congelados, e é por isso que mesmo este acordo entre o Irão e Omã é efetivamente também ele muito precário. Relativamente ao Estreito de Bab-el-Mandeb, ontem a situação também se agravou depois do Porto de Mocha ter sido atingido por mais de 25 mísseis, aliás, nos últimos tempos. Ontem voltou a ser atingido. O diretor do porto anunciou a suspensão das operações comerciais e marítimas. E ainda ontem, a Arábia Saudita anunciou uma coligação marítima com 14 países. Posso citar alguns, como o Qatar, a Turquia, o Egito ou o Paquistão, para proteger a liberdade de navegação, não apenas no Estreito de Bab-el-Mandeb, mas também no mar Vermelho e no Golfo de Áden. Nós estamos a passar aqui de um problema, não apenas no Estreito de Ormuz, mas também para o Estreito de Bab-el-Mandeb, e o problema já não é apenas Houthi ou de um proxy do Irão. Nós podemos estar a assistir a uma externalização da insegurança regional. E naturalmente que aquilo que nós agora começamos a perceber é que o Estreito de Bab-el-Mandeb pode ser o segundo choke point estratégico desta guerra regional e afetará inevitavelmente também o canal do Suez, uma vez que Bab-el-Mandeb, como nós sabemos, é a porta de entrada para o corredor no mar Vermelho e por isso o Egito também deve estar bastante preocupado O que a Arábia Saudita está a dizer é que, primeiro, está a assumir diretamente a liderança da segurança no Mar Vermelho, porque se calhar já não confia apenas nos Estados Unidos para o fazer. E depois, e isto também me parece muito importante, recuperando Spykman, o geopolítico, aquilo que nós começamos agora a entender é que a disputa pelo Rimland e os seus corredores, ou seja, as zonas periféricas e costeiras, e também marítimas, que circundam o Heartland, ou seja, a Eurásia, são hoje onde se discute, muito provavelmente, a nova ordem mundial. Ou seja, já não é quem controla o coração da Terra, como o Mackinder dizia, que era a grande massa da Eurásia, controla o mundo, mas hoje quem controla efetivamente estes choke points e estas vias marítimas e a sua circulação, pode efetivamente ter um papel muito importante na discussão da ordem mundial. E por isso, neste momento, os Houthis e o Irão, naturalmente, nós sabemos que os Houthis são um proxy do Irão, tal igual como o Hamas ou o Hezbollah, não precisam derrotar uma grande potência. Basta tornarem insegura uma rota que liga, por exemplo, a Ásia à Europa. Negar o acesso aos fluxos é hoje tão ou mais importante que o controle do próprio território, como nós sabemos, é efetivamente uma das linhas principais da argumentação da geopolítica do Mackinder. Só para concluir, temos aqui uma situação que pode efetivamente agravar-se no final de agosto. Temos que estar muito atentos.
Liliana, e falando em toda essa questão geopolítica e também na importância, nomeadamente, dos Estados Unidos em todo este xadrez. Esta semana a Ucrânia entregou aos Estados Unidos uma proposta para pôr fim à guerra, neste caso, ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia, numa altura em que Kiev também pede a Washington mais apoio e maior pressão sobre Moscovo. Conseguirá os Estados Unidos ter aqui um papel importante também neste conflito ou as atenções de Washington estão, sobretudo, viradas para a questão iraniana?
Parece-me que a segunda leitura é efetivamente mais relevante. Neste momento, os olhos de Washington e Donald Trump estão mais concentrados no Médio Oriente. Ainda assim, o que Zelensky está a tentar fazer é recuperar a iniciativa e por isso é que entregou esse plano esta semana. O que ele está a tentar dizer aos negociadores americanos é: "Estão aqui as propostas concretas por parte da Ucrânia para terminar a guerra", em vez de dizer: "Estamos dispostos a negociar". E agora Washington tem efetivamente que pressionar Moscovo. Se o fará ou não, com esta antecedência, não consigo efetivamente antecipar. E falo com esta antecedência por causa de duas situações, porque nós vamos ter eleições na Rússia no final de setembro para a Duma. Não que Putin possa perder o poder, como nós sabemos, ou com o United Russia, mas depois temos logo em novembro também as midterm elections. E em relação às primeiras eleições na Rússia, pode haver efetivamente uma grande mobilização. Já há vários autores de geopolítica a nível internacional que começam a apontar para que após as eleições, Putin recupere a narrativa de que a sociedade russa continua unida e apoia o rumo do país. Então, nós temos que efetivamente contribuir para os esforços de guerra, aliás, não chama, chama uma operação militar especial, mas pode efetivamente levar a uma nova mobilização para depois das eleições. Aliás, agora recordei-me. Ontem Moscovo também disse que conquistou 19 localidades no sudeste da Ucrânia. Não sei se esteve atento a essa questão. Agora estou a desafiá-lo. Mas o que revela Moscovo é que também não está assim com tanta vontade.
Sim, o facto é que os ataques de parte a parte têm continuado e com alguma intensidade, até.
Exatamente. Aliás, Moscovo ontem disse que conquistou 19 localidades na campanha de verão, sobretudo nas regiões de Dnipropetrovsk e Zaporizhia. Mas já vários órgãos de comunicação social vieram avançar que o avanço global russo tem sido muito reduzido. E Kiev também veio afirmar que recuperou cerca de 745 km² este ano. Por isso, aquilo que nós temos vindo a observar, aliás, que a Ucrânia está a levar a guerra para dentro da Rússia, com capacidade de ataques em profundidade, nomeadamente através dos mísseis Flamingo, que desenvolve no próprio país. Neste momento, e por isso é que o plano do Zelensky foi apresentado, eu acho que a leitura deve ser mais no sentido em que eu estava a dizer, em tomar o controle daquilo que é a possibilidade de uma pressão de Donald Trump, não para que Zelensky se sente à mesa das negociações. Se repararmos ao longo dos últimos tempos, foi isso que nós observamos por parte de Donald Trump. Mas não, aquilo que nós temos é efetivamente isto: se o senhor presidente dos Estados Unidos conseguir efetivamente que a Rússia tenha uma anuência a este plano, aí sim estaremos dispostos para negociar. Parece-me que é mais nesse sentido.
Liliana, queria ainda nestes últimos três minutinhos falar consigo um pouco sobre a crise migratória de Ceuta. Ontem cerca de 100 pessoas foram detidas a tentar passar a fronteira de Marrocos para Ceuta. As autoridades usaram mesmo gás lacrimogêneo para dispersar essas tentativas. Depois deste 15 de agosto, que estava bem marcado no calendário, digamos assim, podemos dizer que o pior já passou ou ainda existe risco de novas tentativas para passar a fronteira para Ceuta?
Naturalmente que existem novos riscos. Repare que a mobilização que nós assistimos no final de julho e ontem, ocorreu sobretudo do ponto de vista digital, através da desinformação, pelas redes de tráfico. Ou seja, nós podemos falar de uma mobilização migratória digital. Um estudo recente do Real Instituto Elcano considerou que a crise de Ceuta, não esta de ontem, a última de 30 de julho, expôs uma combinação entre as redes sociais, a mobilização migratória e a fragilidade da confiança entre os Estados europeus. Naturalmente que todos aqueles que querem efetivamente ameaçar a Europa sabem que têm aqui uma oportunidade, do ponto de vista da gestão dos fluxos migratórios, talvez muito mais eficaz do que a guerra convencional. Este tipo de ameaças híbridas não me parece que venham a ser afastadas. Aliás, esta crise aquilo que revelou é que uma crise que começou como espanhola rapidamente se europeizou. Ou seja, repare que Ceuta apesar de ser território espanhol e europeu, mas estar fora do espaço Schengen, mostrou que efetivamente Madrid transforma sistematicamente uma falha de gestão nacional numa obrigação de solidariedade europeia, os restantes Estados europeus podem começar a perguntar onde é que termina a responsabilidade espanhola e começa a responsabilidade da União Europeia. E isso, naturalmente, pode provocar uma fratura entre os Estados membros, como nós vimos no dia 30 de julho. E não foi só com a Meloni, que vai logo de imediato contestar a gestão das fronteiras, mas depois a Dinamarca também se juntou. E cumpre-me sublinhar outro aspecto que me parece muito importante: é que a carta conjunta que foi enviada à União Europeia foi subscrita por 22 dos 27 Estados. Apenas cinco Estados ficaram de fora, Espanha, naturalmente, Portugal, a Irlanda, Luxemburgo e a França. Isto vai afetar, naturalmente, a coesão da União Europeia e para além desta questão da fragmentação entre os Estados membros da União Europeia, também se começa a observar outra questão que me parece importante, que é o próprio pacto de asilo da União Europeia começa também a ser muito questionado pelos próprios Estados membros da União. Agora, o que os nossos inimigos veem é estas vulnerabilidades todas que eu estou a expor. Naturalmente que face a estas vulnerabilidades, podem continuar efetivamente a mobilizar população para as fronteiras da Europa. Aliás, como nós sabemos, isto não é também algo recente.
Claro. Liliana Reis, muito obrigado por ter vindo a mais um "Gamento de Guerra". Um bom domingo.
Muito obrigada.
Obrigado.
E bom domingo. Obrigada.