Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta quinta-feira com análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno. Bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia. Obrigado.
Olá, Bruno. Temos de começar pela escalada de tensão entre Washington e Teerão, Bruno. Tal como fizeram quando atacaram o Irão em junho, os Estados Unidos enviaram aviões reabastecedores para a Base das Lajes, assim como centenas de militares, cerca de 400 militares norte-americanos que estavam na Alemanha e nos Estados Unidos foram enviados para os Açores. Estas movimentações nas Lajes significam que Trump vai mesmo atacar o Irão?
Significa que há aqui um reforço muito significativo de meios com que atacar o Irão e, portanto, significa que as forças americanas estão, no fundo, a criar as condições para poderem levar a cabo esse ataque se o presidente norte-americano assim decidir. Portanto, eu diria que isto indica que é muito mais realista essa possibilidade, e que essa possibilidade existe realmente. Não é simplesmente uma ameaça retórica, é uma ameaça que se está a concretizar no terreno, mas também pelas informações que temos, o presidente Donald Trump ainda não terá tomado uma decisão definitiva a esse respeito.
A CBS fala em sábado.
Exatamente, fala-se nessa possibilidade, mas eu duvido muito que alguém saiba, mesmo aqueles mais próximos de Donald Trump, porque é realmente um presidente, como sabemos, muito dado também a mudanças muito radicais e imprevisíveis de posição. Agora, o que eu acho que isto realmente mostra, com toda a certeza, é a importância absolutamente crucial da Base das Lajes e de outras bases europeias dos Estados Unidos para a projeção de poder por parte dos Estados Unidos. Ou seja, mais uma vez mostram que isto de ter bases na Europa não é um favor que os Estados Unidos fazem aos europeus, é um enorme favor que os europeus fazem aos Estados Unidos. Obviamente, também traz vantagens em relação à segurança da Europa, nomeadamente porque torna menos provável que haja potências externas a atacar esses territórios, porque poderiam atingir também alvos americanos, mas obviamente são aqui uma enorme vantagem para a projeção de poder dos Estados Unidos a nível global. São uma enorme vantagem relativa, por exemplo, em relação a potências como a China ou mesmo a Rússia, que não consegue ter esta rede global de bases voluntária. Isso não é imposto pela força, mas é realmente o resultado de um acordo de muitas décadas com os países que acolhem essas bases.
Falaste na Rússia, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros reagiu a esta escalada de tensões e pede contenção aos Estados Unidos. Sergey Lavrov alerta para os riscos reais de um incidente nuclear. Bruno, devemos todos recear essa possibilidade?
Realmente é uma novidade que a Rússia esteja preocupada com incidentes nucleares. Sabemos que passa os dias, não há semana sem que ameace com ataques nucleares, nomeadamente contra os países europeus, desde o início da guerra da Ucrânia. E sabemos também que várias vezes foi acusado de forma credível de ameaçar, por exemplo, instalações nucleares também na Ucrânia. Mas enfim, já estamos habituados a esta falta de vergonha, a esta hipocrisia constante das posições russas. Realmente, aquilo que preocupa aqui a Rússia é que um dos poucos regimes que realmente ajudou militarmente, inclusive em termos de equipamento, os drones, por exemplo, ajudou a Rússia na sua guerra de agressão contra a Ucrânia e realmente possa ser atingido pelos Estados Unidos mais uma vez, ou eventualmente que o próprio regime fique em risco se o conflito se prolongar.
E Bruno, Netanyahu não é um dos governantes aquele que mais se deve preocupar com a resposta de Teerão a um eventual ataque dos Estados Unidos?
Realmente, Israel deve estar preocupado e deve estar a preparar-se, e tanto quanto sabemos, está realmente a preparar-se para essa possibilidade. Ou seja, o Irão não esconde que uma das possibilidades de retaliação em relação a um ataque norte-americano seria realmente atacar Israel. Como o Irão não tem capacidade para atacar diretamente os Estados Unidos, o território norte-americano, as possibilidades de retaliação que tem são contra bases norte-americanas no Médio Oriente. Há 11 significativas contra Israel, que é historicamente um aliado próximo dos Estados Unidos e também um inimigo do regime iraniano, e depois contra outros aliados, por exemplo, países árabes onde há bases norte-americanas, e a própria navegação internacional, esta questão do Estreito de Ormuz, que tem na sua zona mais estreita à volta de 40 km apenas e por onde passa à volta de 25% do petróleo e 20% do gás natural que é exportado a nível global.
Bruno, e uma eventual guerra com o Irão não pode ter impacto nas eleições intercalares nos Estados Unidos. Trump tem de se preocupar com isto, não? Ainda faltam muitos meses.
Há esta ideia de que uma guerra vitoriosa, à partida, costuma ter um impacto positivo nas sondagens. Mas aquilo também que nós sabemos é que, por regra, esse impacto é de curto prazo, por regra também as questões externas Não pesam assim tanto no voto, mesmo quando há essa grande popularidade. Nós vimos, por exemplo, George Herbert Bush, a seguir à Primeira Guerra do Golfo, em 1991, atingir realmente picos de popularidade, mas depois perder a reeleição. É verdade que no caso do filho, de George W. Bush, depois com a guerra do Iraque, mas também o efeito de uma certa coligação nacional depois do 11 de setembro, isso terá beneficiado a sua reeleição. Mas, por regra, no fundo, a ideia é que são outros fatores que pesam mais ou que pelo menos quando há uma grande insatisfação com outros fatores, por exemplo, a economia, isso tende a pesar mais. Agora, isso não quer dizer que não possa ser um elemento no cálculo de Donald Trump e dos seus conselheiros, que isso possa ser também uma tentativa de inverter números e sondagens que são extremamente negativos para Donald Trump. Nunca nenhum presidente foi tão impopular como Donald Trump nesta altura do seu mandato, a não ser o próprio Donald Trump no primeiro mandato. E com números destes nas sondagens, geralmente, o partido do presidente perde de forma pesada nas eleições intercalares.
Entretanto, e ainda sobre o Médio Oriente, o Conselho de Paz para Gaza vai reunir-se hoje pela primeira vez em Washington. É presidido por Donald Trump, de forma vitalícia. A Hungria é o único país da União Europeia membro oficial deste organismo. Bruno, não é estranho o Papa ter recusado o convite? E fez bem a Europa em mandar, na maioria dos casos, apenas observadores?
Bem, como diz, à partida, a reunião hoje, em princípio, será sobre Gaza, mas não apenas sobre Gaza. Aquilo que foi realmente autorizado pelas Nações Unidas foi um conselho sobre Gaza e também com uma duração limitada até 2027, mas aquilo que Donald Trump criou parece ser uma espécie de tentativa de concorrer com as Nações Unidas, com o Conselho de Segurança. E é por isso que a maior parte das potências significativas, por exemplo, a China, também recusaram participar. E é por isso que basicamente quem está no Conselho são ou países do Médio Oriente, ou países muito alinhados com Donald Trump, países como a Hungria de Orbán, como referias, ou, por exemplo, a Argentina, Milei. E, portanto, desse ponto de vista, parece-me bem que os países europeus tenham mostrado as suas reservas em relação, de facto, a um organismo que tem características bastante bizarras. Basta dizer que é presidido por Donald Trump, não como presidente dos Estados Unidos, ou seja, não é presidido pela pessoa que exerça as funções de presidente dos Estados Unidos, mas por Donald Trump a título pessoal e supostamente vitalício. Portanto, à partida, até poderia continuar a presidir a este conselho depois de deixar de ser presidente dos Estados Unidos. E, portanto, acho que isso também explica, obviamente, não é pelo fato de estar contra a paz que o Papa Leão XIV, que até é norte-americano, também recusou participar como membro de pleno direito. Foi, aliás, explicado pelo Vaticano que, de facto, o Vaticano está preocupado com esta ideia de que pode haver aqui uma tentativa de contornar ou pôr de lado as Nações Unidas no seu papel de gestão destas questões de paz e da guerra. Vamos ver se, em todo caso, em relação a Gaza, há alguma coisa de concreto e isso justifica que realmente, apesar de tudo, haja uma presença como observador das instituições europeias, ou seja, pelo menos tentar perceber o que é que se irá passar aqui e se eventualmente, segundo vários países europeus também deram essa indicação, se realmente o Conselho se focar em Gaza, pode ser que se venha a repensar isso ou que se venha, pelo menos, a adotar mais este estatuto de observador, mas realmente é uma criação bastante peculiar de Donald Trump.
Mais uma.
É uma espécie de clube, também com pagamento de uma cota, uma espécie de Mar-a-Lago, daquele clube que ele tem na Flórida, mas para a política internacional. E, portanto, isso realmente é bastante bizarro.
Temos também de olhar para as negociações entre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos, na Suíça, Bruno. Que balanço é possível fazermos do que se passou em Genebra?
Bem, confirmou-se o ceticismo, a necessidade de ter aqui grande prudência em relação a esse tipo de negociações. Aparentemente, a negociação russa voltou a ser liderada por uma espécie de historiador mor de Putin, que perdeu, mais uma vez, imenso tempo a dar lições de história a quem estava nas negociações. E, portanto, isto parece indicar que a Rússia, de facto, continua a não negociar de boa-fé, continua a tentar aqui ganhar tempo e aparentemente pode contar com Donald Trump para esse efeito, ou seja, Donald Trump continua, de facto, a fazer essencialmente pressão sobre os ucranianos, a exigir cedências aos ucranianos e não à Rússia.
Bruno, mesmo a terminar, a Marinha Portuguesa faz bem em acompanhar este navio russo, o Sparta IV, que anda às voltas em águas próximas de Portugal há já quatro dias?
Sim, acho que faz muito bem em fazer realmente esse trabalho de acompanhamento. Sabemos realmente que a Rússia tem multiplicado, tem intensificado a sua presença naval um pouco por toda a zona do Atlântico e, portanto, isto também nos recorda que embora seja verdade que ameaças mais convencionais, uma invasão russa não é propriamente muito provável em relação a todos os países da Europa do Sul, mas isso não quer dizer que a Rússia não tenha outros meios e não possa levar a cabo outras ações. E, portanto, aqui um dos receios é, por exemplo, a questão da segurança de infraestruturas críticas, como os cabos submarinos, que são usados para mais de 90%, por exemplo, do tráfego de dados que é utilizado na internet a nível global. Alguns dos mais importantes passam aqui por águas portuguesas ou por águas próximas de Portugal. E, portanto, essa é uma das ações de sabotagem possível da Rússia e, portanto, acho que realmente é importante que a Marinha Portuguesa acompanhe as ações um pouco suspeitas deste navio russo.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela análise. Bom final de semana, Bruno.
Obrigado, igualmente.