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Mais uma edição de Gabinete de Guerra com o historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno.

Olá, bom dia.

Para já, deixa-me dizer que estou feliz de poder estar de novo contigo no ar. Já não nos encontramos há algum tempo.

É verdade, e eu também.

É verdade. Vamos lá então. Olhamos aqui para estes avanços e recuos, alguma imprevisibilidade de Donald Trump e da administração norte-americana no que toca várias questões, incluindo também a guerra na Ucrânia. Os Estados Unidos dizem agora, pela voz de Marco Rubio, que estão prontos para seguir em frente se não for possível chegar a um acordo de paz. Seja lá o que isso for, seguir em frente, Bruno.

Sim, as incertezas são muitas e aliás, estava a ver agora antes de falarmos, entretanto, há minutos, o vice-presidente Vance, que está em Roma, veio dizer que estava otimista que se chegaria a um acordo, o que também não invalida as declarações de Marco Rubio. Portanto, ele está com fé que vai haver um acordo, e que se vai chegar a um acordo de safogo, mas realmente Rubio dá este sinal. À partida, isto podia fazer até parte da estratégia negocial. A mim parece-me, sobretudo, que reflete o fato do presidente Trump ter aqui expectativas irrealistas sobre o que seria possível fazer e de que forma e com que rapidez. Ou seja, a ideia de que era possível um acordo de um dia para o outro, que foi aquilo que ele insistiu muito. Portanto, aqui já estamos em vários meses de negociações sem grandes resultados. Isso é realmente verdade. Depois a ideia de que era possível fazer isso sem ameaçar de forma credível aumentar a pressão sobre a Rússia, nomeadamente através de mais ajuda militar e/ou também de mais sanções, restrições ao comércio com a Rússia. Eu recordo que Trump abriu uma exceção para a Rússia nesta guerra comercial global, portanto, não só não está a fazer pressão como até dá aqui sinais quase que amigáveis. Mas sobretudo também há essa questão, que é o que isto significa. Ou seja, deixar as negociações, seguir em frente, quer dizer o quê? Quer simplesmente dizer vamos deixar o processo negocial, quer dizer vamos deixar a Ucrânia entregue à sua sorte, ou quer dizer vamos retomar a ajuda militar, reconhecendo que no fundo há aqui um país a ser invadido e que este processo revelou que a Rússia não está de boa-fé disposta a negociar e que há interesses também de segurança dos nossos aliados europeus. Não sabemos, embora o que parece mais provável, tendo em conta a postura da administração Trump, seja realmente simplesmente no fundo entregar a Ucrânia à sua sorte. E mais uma vez, isto parece ser, sobretudo, fazer pressão sobre a Ucrânia e sobre os seus aliados europeus, e não tanto sobre a Rússia, que já veio dizer que no fundo, cabe aos Estados Unidos decidir, não é?

Mas entregar a Ucrânia à sua sorte, ainda com aquela ideia de explorar recursos minerais e até eventualmente de dividir o território com a Rússia e com os Estados Unidos, no caso?

Mais uma vez, é muito contraditório, porque hoje também surgiu essa notícia de que, no fundo, há uma espécie de pré-entendimento sobre o acordo das terras raras. Portanto, dia 21 de abril, virá cá o primeiro-ministro ucraniano aqui à capital americana para assinar o acordo técnico mais detalhado. O que está numa espécie de acordo preliminar mostra que a Ucrânia resistiu a algumas cedências que eram, de facto, tornavam isto num acordo verdadeiramente extorsionário, quer dizer que mesmo comparando com o século XIX, em que se faziam muitas vezes acordos desiguais, etc, era uma coisa extraordinária. Mas deixa claro que isto tem de ser compatível com o processo de adesão à União Europeia, que vai ser criado um fundo de investimento conjunto, mas não diz que vai ser para pagar os valores que inclusive Donald Trump tinha inventado, não tinham nada a ver com 300 milhões. O conjunto da ajuda americana não chega aos 200 milhões, são 160 milhões, por aí, mil milhões de dólares. É uma coisa muito genérica, mas sobretudo aquilo que é estranho, como dizias, é que se estás a fazer um acordo para explorar recursos na Ucrânia, aquilo que seria normal, eu volto a dizer, até no século XIX, dos imperialismos destes acordos desiguais, era apesar de tudo, haver aqui alguma contrapartida, por exemplo, em termos de garantias de segurança. Por exemplo, Portugal e Grã-Bretanha fizeram às vezes acordos que eram um pouco desiguais para Portugal, mas havia essa contrapartida da Grã-Bretanha garantir a proteção da independência portuguesa, etc. Até para poder extrair esses recursos sem segurança. Aqui isso parece estar ausente e de facto são sinais em sentido contraditório. O que faria sentido era, como contrapartida por isto, haver até uma garantia de apoio futuro militar, por exemplo, dos Estados Unidos à Ucrânia. Enfim, poderia ser questionável do ponto de vista moral, os Estados Unidos, um país tão rico, estarem aqui a arrancar concessões de um país em dificuldades, de um país em guerra, mas pelo menos percebia-se numa lógica, digamos, realista. Assim é mais difícil perceber onde é que quer chegar os Estados Unidos com tudo isto.

Também nesta altura ainda é difícil perceber onde é que os Estados Unidos querem chegar no que toca a essas ameaças das tarifas à União Europeia, sendo que agora estamos a atravessar aquele período de suspensão de 90 dias. Nos últimos dias, Giorgia Meloni, a primeira-ministra italiana, foi a Washington. Que balanço é que fazes deste encontro? Supostamente saiu de lá com Donald Trump a dizer que está 100% confiante num acordo. Não sei como é que havemos de interpretar isto também.

Sim, o problema é que o que o Donald Trump diz e a realidade nem sempre coincidem exatamente. E ele tende a ser muito otimista sobre a sua capacidade de chegar a acordos que depois nunca se concretizam. Mas enfim, eu acho que à partida foi positivo. Eu faço uma avaliação positiva da Giorgia Meloni, independentemente das maiores ou Menos simpatias políticas pelo movimento Meloni. A verdade é que ela é ideologicamente mais próxima de Donald Trump do que a generalidade dos líderes europeus, mas, por exemplo, ao contrário de Órban, é alguém que tem mostrado desejar fazer trabalho de equipa, ou seja, que percebe que não é possível gerir a União Europeia e tirar os benefícios que a Itália tira da União Europeia, como a generalidade dos seus Estados membros, e eu diria em particular, por exemplo, os países do sul, sem cooperar, sem falar, sem concertar posições com os colegas e, portanto, as notícias que temos é que isto foi concertado, foi conversado, inclusive com a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen. Ela deixou claro na conferência de imprensa que seguiu, que realmente trata-se de um acordo entre o conjunto da União Europeia e Donald Trump, e ofereceu até a possibilidade de uma cimeira em Roma brevemente para se poder negociar. Eu acho que realmente é indispensável haver aqui um contacto direto com Donald Trump, porque a mensagem que passa aqui na capital americana é que os mecanismos habituais diplomáticos não funcionam porque ninguém sabe muito bem o que é que Donald Trump quer fazer ou o que é que vai decidir, às vezes nas horas seguintes, quanto mais no dia seguinte ou daí a umas semanas. Portanto, é fundamental realmente este contacto direto. Agora, a questão está longe de estar resolvida e há esta suspeita de que no fundo Donald Trump quer coisas impossíveis da União Europeia. Muitas vezes tem ideias que são pouco rigorosas. Por exemplo, ele ignora completamente o fato de os Estados Unidos terem um grande superávit, uma grande vantagem no comércio em serviços, por exemplo, em tudo que tem a ver com a economia digital, apesar de os europeus terem bens. Isso, por exemplo, teria de ser algo que teria de ser discutido. Vamos ver se é possível ter este tipo de discussão com Donald Trump para se chegar a um acordo que seja realmente minimamente razoável. Os europeus têm em cima da mesa esta proposta, inclusive de imposto alfandegário zero, tarifa zero para o comércio de bens entre os dois lados do Atlântico. Mas lá está, Donald Trump tem um longo histórico de muitas décadas desta opção com os déficits e de valorizar as tarifas. Portanto, vamos ver se ele aprendeu a lição com o custo económico que já está a pagar por isso, ou não. Mas, em todo caso, eu diria que o balanço é positivo, ainda muito provisório, mas positivo desta visita.

Deixe-me só voltar aqui um bocadinho atrás, já agora, porque estávamos a falar há pouco também de Donald Trump, sempre aqui o nosso protagonista nestes últimos dias, mas essa questão das terras raras da Ucrânia, haver um acordo sobre esta matéria seria assim tão mau como se poderia pensar?

Vamos lá ver, as terras raras e de um modo geral, aliás, o acordo começou por ter esse enfoque e depois aparentemente alargou-se a investimento em tudo o que são recursos, extração de recursos da Ucrânia. A Ucrânia é um país bastante rico a esse nível, como também ao nível agrícola. Esta é uma área que claramente tem grande importância, aliás, aparece agora nesta guerra comercial global. A China depende dos minérios, mas tem em muitas dessas terras raras mais de 50% da produção, mas sobretudo tem muitas vezes 90 ou até 100% do processo de refinação, portanto, tratamento destes minérios para depois poderem ser usados. São cruciais para ligas metálicas especiais, que são muito importantes, por exemplo, para a indústria da defesa, para tudo que tem a ver com a transição energética também, estas novas tecnologias, baterias, etc. E portanto, realmente, desse ponto de vista, faria sentido, era uma forma também da Ucrânia no fundo, conseguir aqui uma aproximação, mostrar a mais-valia que traz para os seus aliados ocidentais e sobretudo para os Estados Unidos, que estão neste momento com uma administração muito pragmática, muito transacional, portanto, em que o que interessa sobretudo são os interesses americanos. Portanto, desse ponto de vista, sim, eu acho que aquilo que é mais questionável são os termos em que isto foi colocado, em que muitas vezes Donald Trump vinha falar em haver um pagamento e isto ser usado para pagar coisas que foram dadas. Ora, isso é uma coisa que nós aprendemos desde pequeninos, que há uma diferença entre uma prenda e um empréstimo ou algo que é vendido. Portanto, o que é dado é dado. E, portanto, a generalidade do apoio americano foi realmente grants, foram ofertas e não foram empréstimos, nunca foi posta a questão nesses termos. Depois é também questionável, no fundo, estar a usar a situação difícil da Ucrânia para exercer aqui uma pressão para assinar um acordo nesses termos realmente não seria aceitável. E sobretudo, o que é mais estranho, volto a esse ponto, é mesmo nestes termos um pouquinho mais aceitáveis, que é no fundo haver aqui uma espécie de processo de reconstrução com envolvimento americano e com a garantia de que também haveria um retorno econômico para os Estados Unidos por causa disso. O que é aqui mais estranho é que isso não está acompanhado das tais garantias de segurança, da ideia de que os Estados Unidos, como resultado disso e até para proteger os seus investimentos, se quisermos, iriam garantir a proteção da Ucrânia, nem que seja por esta via de ajuda militar ou da possibilidade de fornecimento de equipamento militar, digamos, com a garantia de que isso iria acontecer a prazo. Do meu ponto de vista, isso seria, aliás, bastante importante para fazer pressão sobre a Rússia para avançar com o cessar-fogo com a mínima boa fé.

Isto hoje é mesmo protagonista único, Bruno. Gostava de olhar aqui contigo também para o ataque dos Estados Unidos a um porto que é comandado pelo grupo extremista Houthis no oeste do Iémen, uma ofensiva que aconteceu ontem à noite. Há aqui um balanço de mais de 70 vítimas mortais, mais de 170 feridos. Será também um dos dias mais mortais desde que os Estados Unidos começaram estes ataques contra os militantes apoiados pelo Irão. Por que este ataque agora? Qual é que foi aqui o objetivo?

É um ataque, de acordo com os Estados Unidos, às instalações petrolíferas neste porto no Iémen, em Ras Isa, no Mar Vermelho. Realmente, temos de perceber, aqui temos informações a partir dos houthis, podemos questionar a sua credibilidade, mas à partida a indicação é que houve baixas significativas. Temos de perceber se houve proporcionalidade, ou seja, se tentou evitar essas baixas minimamente. Mas realmente, um aspecto a sublinhar, é quase caricatural, mas pelos vistos desta vez os Estados Unidos conseguiram organizar um ataque contra os houthis sem convidar jornalistas e sem pôr em questão a segurança operacional, o segredo de uma operação militar. Como sabemos, não aconteceu isso da última vez, houve todo aquele caso do Signal Gate, que aliás foi bastante revelador sobre o nível de hostilidade de altos responsáveis da administração Trump contra os países europeus. No fundo, esta ideia de que a Europa devia pagar por um ataque que a Europa não tinha pedido e sobre o qual não tinha sido consultada. Mas realmente eu tenho tido esta posição, sem saber os detalhes do ataque, mas genericamente parece-me que faz sentido realmente ter uma postura mais robusta em relação aos houthis. Ou seja, nós podemos dizer em Gaza não pode haver ataques indiscriminados contra alvos civis, não se podem visar, por exemplo, os trabalhadores humanitários e há aí casos crescentes e cada vez mais alarmantes a mostrar que isso tem acontecido com demasiada frequência no caso de Israel, mas depois, de alguma forma tolerar esta ideia dos houthis que estão a apoiar os palestinianos. No fundo, sabemos que fazem parte de um eixo a apoiar pelo Irão, que também tem ligações ao Hamas, mas a ideia é apoiar os palestinianos, atacando alvos civis, atacando navios civis, causando mortes entre marinheiros civis. Portanto, realmente isso não é aceitável, é um risco também muito grande para a economia mundial, para a segurança da navegação, que é extremamente perigoso. E portanto, realmente, desse ponto de vista, eu percebo que os Estados Unidos defendam que há que pôr fim a essa ameaça e portanto a ideia deste ataque era no fundo acabar com o abastecimento de petróleo que permite aos houthis organizar estes ataques, seja com mísseis, seja com meios navais, que obviamente precisam de combustível para isso. Agora temos sempre o problema depois do efeito disso para a população civil, que é o drama recorrente também no Médio Oriente, em que muitos destes grupos armados, de facto, optam pela via do combate, pela via da guerra, sem pensar nas consequências que isso tem para a sua própria população civil. E portanto, desse ponto de vista, obviamente, isso é sempre de lamentar.

Este ataque no Iémen, a guerra na Ucrânia e ainda a guerra comercial protagonizada por Donald Trump nesta edição de Gabinete de Guerra com o Bruno Cardoso Reis. Bruno, o contexto internacional é de facto difícil. Que seja a Páscoa possível. Boa Páscoa pra ti.

Uma boa Páscoa para todos.

Obrigada, boa Páscoa.

Obrigado.