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Está no ar o "Gabinete de Guerra", está com a Rádio Observador. Neste programa, todos os dias falamos de conflitos em curso, destaque para a situação na Ucrânia e também para a situação no Médio Oriente. Recebemos o major-general João Vieira Borges, a quem agradeço também a disponibilidade para mais uma participação no nosso "Gabinete de Guerra". Muito boa tarde, major-general. Vamos falar da questão do Médio Oriente para começar. Estamos uma semana depois desse clima de alta tensão entre Israel e o Irão. Chegou-se a um entendimento de cessar-fogo, podemos dizer assim, depois de algumas violações nas horas iniciais, mas temos uma semana depois dessa situação quente que envolveu também os Estados Unidos da América. Em que ponto estamos nesta altura deste conflito que colocou frente a frente Israel e o Irão, com os Estados Unidos da América também à mistura?

Muito boa tarde. Nós estamos, sobretudo, a discutir as questões do nuclear, ou seja, do enriquecimento do urânio e outros danos que foram feitos por parte dos Estados Unidos, e depois as questões relacionadas com a Agência Internacional de Energia Atômica, porque quer se queira quer não, isso condiciona qualquer acordo que venha a ter lugar, e espero que neste momento estejam a trabalhar exactamente um acordo. Um acordo que independentemente de não haver confiança entre as partes, já se passou isso em 2015 com Obama, pelo menos que haja depois o controle destas questões nucleares. E vamos vendo declarações, e as declarações acendem aqui algumas questões, que é o caso do presidente Rafael Grossi, que referiu que o programa nuclear do Irão, ao contrário do que disse Trump, obviamente sofreu danos consideráveis, mas que rapidamente pode enriquecer o urânio em alguns meses. Portanto, ele vai dizendo as verdades, ele é cientista, independentemente daquilo que podem ser as análises de parte a parte, quer dos americanos, quer dos israelitas, quer do Irão, ele diz aquilo que tem que dizer como cientista. Da mesma maneira que antes disse que o programa nuclear não estava a respeitar aquilo que tinha sido acordado e deu origem ao ataque da parte de Israel, terá sido eventualmente uma janela de oportunidade. Isso, ou o acordo que estava para ser feito no domingo seguinte, seja como for, foi acusado por parte do Irão, neste momento agora é acusado por parte do Ocidente ou por parte dos Estados Unidos, sobretudo da administração norte-americana, que não gosta de ver desmentidas as palavras de Donald Trump, em que disse que o programa nuclear do Irão tinha sido adiado, se não me engano, por várias décadas. Se não me engano, foi esta a expressão que ele utilizou. Portanto, nós andamos aqui, sobretudo, a discutir esta questão da cooperação do Irão com a Agência Internacional de Energia Atômica, até porque a notícia do Parlamento iraniano que votou a favor da suspensão e depois do próprio Conselho de Guardiães, vamos ver o que é a decisão final.

Mas olhando para esse aspecto, de facto, o Irão rompe a cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica por causa de uma alegada parcialidade do diretor-geral. Anunciou também que não pode garantir a segurança dos inspetores da agência. Mas que implicações práticas é que isto tem? Até porque sabemos que a relação do Irão com esta agência nunca foi fácil.

Sim, nunca foi fácil, mas agora terá implicações sustentadas da parte do Irão naquilo que aconteceu. E, portanto, na guerra dos 12 dias, que é assim que podemos classificar. Para o Irão, obviamente, a questão do programa nuclear é uma questão de princípio, portanto, nunca irá parar. O embaixador iraniano, se não me engano, nas Nações Unidas, referiu exatamente isso. O próprio enriquecimento nuclear não irá parar. Eles dizem isso deliberadamente. E portanto, a dificuldade, em resposta à sua questão, está nas consequências da suspensão da cooperação, ficaremos com uma situação semelhante àquela que se passou com a Coreia do Norte, um afastamento completo. Neste momento ainda tínhamos alguma monitorização, como sabemos, aliás, em função dessa monitorização, foram dadas algumas informações para o exterior. Agora, não havendo absolutamente nada, a situação é mais grave. Depois, a evolução da situação é feita não pela Agência Internacional, mas passará a ser feita pelos serviços de informações de Israel, que atacará o Irão quando entender que está na altura de atacar novamente. E portanto, vamos tendo ciclos sucessivos de ataques. É isso que eu vejo. O mais importante para a comunidade internacional e para a paz na região, era chegarmos a um acordo em que voltamos novamente a um acordo semelhante a 2015, mesmo que não haja confiança, e que os Estados Unidos estejam, porque como sabe, os Estados Unidos afastaram-se em 2018, na minha perspetiva, e não só na minha, muitos observadores, terá sido isso que depois levou a uma agudizada situação. Ao afastar-se os Estados Unidos, não se afastaram os outros membros do Conselho de Segurança, a Alemanha e a União Europeia, que estavam no processo, mas de qualquer maneira, levou a que da parte do Irão houvesse depois maior afastamento relativamente à Agência Internacional. É preciso que todas as partes, a começar nos Estados Unidos, estejam num próximo acordo.

Falar aqui também do conflito na Ucrânia, até porque Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, disse hoje que o aumento da despesa dos países da NATO com defesa vai levar ao colapso dessa aliança, da Aliança Atlântica. É uma posição da Rússia perante esse entendimento para o aumento de despesa em defesa. Não seria de esperar uma opinião diferente por parte da Rússia?

Não, não seria. Isso também faz parte da ação psicológica. Ele, por vezes, esquece-se de citar o que disse Callas na semana passada. Disse que a Rússia gastou mais em defesa o ano passado que toda a União Europeia junta. Isso ele não diz. E são os dados oficiais, fará os outros dados que nós não sabemos. Portanto, essas coisas fazem parte da ação psicológica, sobretudo sobre países que obviamente vivem alguns momentos complicados em termos de política interna, e isto é uma maneira de tentar desestabilizar esses países. Mais importante do que ele falar nisso, é ele falar efetivamente nas verdadeiras conversações que devem ter lugar e que Putin na sexta-feira disse que iam ter lugar em Istambul, e que no dia seguinte, para estar em sintonia com a sua grande vontade de paz, desencadeou o maior ataque até hoje na Ucrânia com 537 drones e mísseis. Portanto, a incoerência no Kremlin verifica-se todos os dias. E portanto, esta é mais uma que faz parte da ação psicológica, a desinformação, contrainformação da guerra híbrida. Nós já sabemos e portanto lá prova, então, quem conhece bem o lado de cá, sabe melhor do que ninguém como poder alterar, digamos, em termos psicológicos, a mentalidade dos europeus em geral.

A Rússia também não tem sido muito clara sobre o número de vítimas militares, ou seja, tem tido desde o início da guerra, apesar de algumas entidades apontarem já para a meta de 1 milhão de soldados russos mortos desde o início da guerra. A Ucrânia diz hoje que desde o início da guerra, em fevereiro de 2022, há mais de três anos, morreram neste conflito mais de 1.020.000 soldados russos, dados partilhados pelo Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia hoje. Números que vão também ao encontro de dados de um relatório do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais Norte-Americano, um estudo partilhado no início deste mês de junho, que apontava para quase 1 milhão de soldados russos mortos. Antevia já esse estudo a probabilidade da Rússia ultrapassar esta marca durante este verão. Diz a Ucrânia que a marca de 1 milhão já foi ultrapassada. São já duas entidades a apontar para este número, outras entidades também com números que se aproximam desta marca de 1 milhão de soldados. Sabemos que a Rússia é um país muito vasto, com enorme população, mas este esforço de guerra é possível manter com números tão elevados também a nível de soldados mortos?

Se me permite, os dados indicam baixas. Baixas incluem mortos, incluem feridos e desaparecidos. Portanto, o número de mortes andará à volta dos 200 mil, segundo as várias fontes. E depois o restante, não estará muito longe da verdade, os 600, 700 mil feridos. Ora bem, dizem-nos as lições da história que efetivamente números deste tipo terão repercussões, já estão a ter, e terão repercussões na sociedade russa durante pelo menos uma, duas gerações. Nós temos isso da experiência da Primeira, da Segunda Guerra Mundial. Mesmo Portugal, tendo participado na Primeira Guerra Mundial com um número digamos, muito reduzido, as consequências disso foram muito complicadas em termos não só da instituição militar, mas depois da própria sociedade. Estes números para o Kremlin não têm o significado que têm para nós, ou para a Ucrânia, ou para o mundo ocidental em geral. De qualquer maneira, não têm em termos teóricos, porque na prática têm, porque senão anunciavam os números. Deram indicação objetiva, inclusivamente aos cemitérios para não pôr as referências a combatentes, o que dificultou o levantamento de alguns jornalistas independentes ou de jornais da oposição, que fizeram depois um levantamento mais próximo dos 200 mil mortos. Por quê? Porque obviamente esses números, se são números dados oficialmente, iriam ter repercussão na própria sociedade. Portanto, a Rússia tem essa opção, ao contrário da Ucrânia, que está a ser invadida e destruída, em que os números são importantes para coesão nacional na luta contra o invasor. Quando o invasor não tem enquadramento legal internacional, que é o caso, obviamente esconde os números. Esconde os números para continuar um combate e uma destruição, neste caso da Ucrânia, que é injusta e é ilegal. Tem consciência disso, o povo tem consciência disso, obviamente, até porque em discursos que nós vamos vendo, ainda Putin na semana passada, no fórum, se não me engano, em São Petersburgo, dizia que os russos e ucranianos são uma nação. Ora bem, eu fui ver os discursos na altura, antes da invasão de 24 de fevereiro de 2022, era exatamente o discurso. Se há irmãos que nós prezamos, são os ucranianos e, portanto, a matança indiscriminada de irmãos tem sido enorme e isto marca toda uma sociedade. Fala a mesma língua, que tem uma cultura muito semelhante, apesar das diferenças de há mais de 30 anos, mas seja como for, isto marca a sociedade. E eles sabem isso melhor do que nós e por isso não passam cá para fora os números, quer de mortos, quer de feridos, faz parte da estratégia.

Sendo que, para terminar, falar aqui ainda da questão das sanções. A União Europeia decidiu prolongar as sanções contra a Rússia até janeiro de 2026. É um pró-forma. Estranho seria se não fossem prolongadas, mas muito se falou também desta questão no início do conflito, a capacidade da União Europeia para aplicar sanções. Aquilo que a União Europeia está a fazer é suficiente? É possível ir mais longe? É possível alargar ainda mais estas sanções para dificultar ainda mais esse esforço de guerra da Rússia?

É possível. Vamos em 18 pacotes, quando podíamos ter um pacote que incluía as ações que estão nos 18 logo no início Infelizmente tem sido assim. A União Europeia, com várias limitações, designadamente nas questões energéticas, foi adiando determinado tipo de imposições, criando condições para impor essas sanções. Nós compreendemos isso, basta olhar para os números. E de qualquer maneira, ainda conseguimos estar numa fase de três anos e meio de guerra e ainda ter uma dependência em termos de petróleo e de gás da própria Rússia. Agora não tenho presente os números, mas eram números chocantes relativamente ao ano passado, que certamente apoiam a guerra da Rússia contra a Ucrânia. Não tenho agora presente o número certo, mas seja como for, eu acho que é mais importante que estas sanções da União Europeia, que se vão fazendo, como eu disse, à medida das capacidades, era importante haver sanções da parte dos Estados Unidos. E portanto, os Estados Unidos nem taxas, nem sanções que pressionem a Rússia, mesmo depois de seis meses de uma administração ter a consciência daquilo que tem sido o papel da Rússia e das mentiras sucessivas que Putin tem transmitido e tem colocado uma situação muito delicada a Putin. Mas a ligação de Putin ao Kremlin e de Trump ao Kremlin e a Putin é demasiado grande. Saberemos mais tarde, independentemente daquilo que já sabemos, através de José Rodrigo dos Santos e de outras ações, designadamente a prisão de vários dirigentes por ligação à Rússia, a começar na diretora do Serviço de Informações dos Estados Unidos, que tem sido tão criticada, a Gabbard, pelo próprio Trump. Havemos de saber muitas histórias que explicam exatamente esta postura de Trump relativamente à Rússia. Mas isso é que era importante, era haver sanções dos Estados Unidos relativamente à Rússia, e isso é que pressionaria, certamente, Putin a negociar e não a destruir, como vem fazendo diariamente.

Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por mais esta participação no nosso Gabinete de Guerra aqui na Rádio Observador.

Boa tarde, obrigado.