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Começa agora mais um Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do coronel José Ducar. Bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Olá, coronel. Começamos pelas forças ucranianas que estão a abandonar a cidade de Siversk, na região de Donetsk. Coronel, isto faz com que as tropas russas fiquem cada vez mais perto de Sloviansk. O que mais se sabe sobre o que se está a passar no terreno depois do dia de ontem ter ficado marcado por um ataque russo em larga escala sobre todo o território ucraniano?
Siversk era uma pequena cidade que estava já há três anos sob pressão. Havia ainda a presença de tropas ucranianas na cidade. No fundo, o que a Ucrânia fez, segundo as informações que existem-
Teve que fazer escolhas, não é? Provavelmente.
Sim, cumpriu a sua missão, que era retardar, que era ganhar tempo, e agora perante uma ameaça de perdas já não aceitáveis, retirar suas tropas para linhas mais atrás. No fundo, é a continuação de uma estratégia no momento em que a Rússia tem a iniciativa que é basicamente ir ganhando tempo, ir trocando espaço por tempo. E ao mesmo tempo, fazendo os russos empenhar ali forças e ter muitas perdas. Portanto, basicamente, neste momento, a estratégia é essa. A Rússia tem a iniciativa do ataque e a Ucrânia está a tentar trocar espaço por tempo. No fundo, ganhar tempo e ir entregando espaço e ao mesmo tempo infligindo grandes perdas aos russos. Basicamente, essa é a estratégia da Ucrânia, enquanto não tiver a capacidade de concentrar força para uma contraofensiva, que neste momento não se vislumbra.
Entretanto, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, apelou à Europa para que continue a apoiar a Ucrânia e alertou mais uma vez que a falta desse apoio poderá criar sérios riscos para a segurança do continente. Coronel, sabemos disso, mas são vários os países a acusar algum cansaço.
Pois, esse é o grande problema da Europa, porque neste momento a Rússia aposta nisto. Digamos que o tempo estratégico corre a favor da Rússia, porque a Rússia aposta numa guerra de atrição, em que o desgaste maior não é bem o da Ucrânia, embora seja um desgaste visível e material, mas é um desgaste psicológico da parte do Ocidente. Enfim, da parte da Europa. A Europa também são países, os países têm interesses diferentes e digamos que a estratégia russa joga nessa divisão, nessa dificuldade em o Ocidente manter coesão perante uma ameaça. Portanto, a coisa depois começa a esfalhar-se, começam individualmente e mesmo internamente, as políticas internas de cada país começam a acusar o já chega e já basta. Essa é a grande estratégia russa, no fundo, a prazo, e é também o grande perigo para a Ucrânia e, a prazo, para nós, porque geralmente a divisão nunca leva à contenção, leva justamente ao exacerbamento da ameaça por parte de quem está agredido.
Sobre o Médio Oriente, o Parlamento israelita votou hoje um projeto de lei que cria uma comissão de investigação sobre as falhas que levaram ao massacre do Hamas no 7 de outubro. Estamos a falar de uma comissão de inquérito independente, com plenos poderes, composta por acadêmicos, especialistas em segurança e com observadores pais que perderam os seus filhos. Coronel, o que é que poderá sair daqui e quais poderão ser as eventuais consequências?
Normalmente quando há guerras em Israel, e quem viu aquele filme sobre a Golda Meir, percebe que depois das guerras há sempre, e quando as coisas não correm bem, pelo menos no princípio, como também aconteceu com a Golda Meir. Quando as coisas não correm bem, aquilo que correu mal, se faz o briefing, o que levou à situação que, neste caso presente, o que levou a uma situação em que o Hamas conseguiu, durante dois, três dias entrar em Israel, tomar uma série de colonatos, inclusive invadir unidades militares, e tudo isso sem que a reação tivesse sido eficaz, pelo menos imediata e morreu muita gente. Eu estive lá, já estive num daqueles colonatos que foi invadido e falei lá com algumas pessoas e alguns militares, e percebi que houve um momento em que as forças militares que estavam na zona não tinham qualquer percepção do que estava a acontecer.
E por isso não tiveram reação?
A reação foi caótica. Houve inclusive um pelotão de infantaria que saiu para um colonato sem ordens nenhumas, porque não havia ordens vindas de cima. Houve ali falhas, falhas bastante graves. Enfim, o Hamas estudou bem aquilo, foi muito planeado e não foi só o Hamas, foi também o Irã que ajudou.
Claro!
E, portanto, uma comissão de inquérito visa ver essas falhas, ver se em termos de informações, houve informação que não foi considerada, ou que não foi levada a sério, ou que não foi devidamente integrada. E no fundo, a ideia é esta. Não é arranjar bodes expiatórios, é perceber o que é que correu mal para que não volte a acontecer uma situação semelhante. Isso é natural. É claro que vai ter consequências políticas.
Entretanto, Israel diz que matou três membros do Hezbollah no sul do Líbano, um deles é membro dos serviços secretos libaneses. O porta-voz do exército israelita diz que o objetivo do ataque foi travar as operações militares do Hezbollah na região. Coronel José Ducar, isto poderá ter algum tipo de impacto naquela zona? É expectável uma retaliação do Hezbollah?
Não, por já não. O Hezbollah não tem capacidade material de o fazer. Mas não tem condições políticas, nem internas, nem externas para o fazer.
Para iniciar esse conflito.
Sim, não tem. Está sob pressão dentro do Líbano para se desarmar. Enfim, enquanto não se desarmar, nada daquilo avança. A questão interna, o governo libanês, e como se vê pelo facto de haver Um elemento do Hezbollah identificado, que também fazia parte do exército e a estrutura interna do Líbano, que também tem elementos do Hezbollah. O exército do Líbano tem elementos xiitas. As forças de informação também têm, até o poder político. E por isso é muito difícil dentro do Líbano, é uma divisão em três partes, cristãos, muçulmanos xiitas e sunitas. E aquele equilíbrio instável torna muito difícil ao próprio governo do Líbano forçar o desarmamento do Hezbollah, porque uma parte do exército são simpatizantes do Hezbollah ou são elementos da mesma etnia ou da mesma religião. E por isso não é fácil. Israel, obviamente, resta-lhe manter a pressão até que se torne insustentável internamente a posição do Hezbollah. E irá continuar a fazer bombardeamentos, execuções seletivas, até que a pressão interna sobre o Hezbollah, que neste momento também não está a conseguir virar os fundos que pretendia para se rearmar, já há conhecimento público disso.
Dessas dificuldades. Sim.
E portanto o Hezbollah também está sob pressão. E a ideia é esta, de alguma maneira conseguir que o Hezbollah se desarme internamente e Israel vai, entretanto, fazendo a pressão para que isso aconteça mais depressa. Vai continuando a bombardear e a fazer ataques seletivos para que isso aconteça. Não é um processo imediato, nem instantâneo, mas também não há outra solução, que se não houver pressão, o Hezbollah não se irá desarmar.
Entretanto, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, tanto Rússia como China condenam a pressão militar e econômica exercida pelos Estados Unidos sobre a Venezuela. O embaixador russo diz que as ações da administração norte-americana violam todas as normas fundamentais do direito internacional e constituem um ato flagrante de agressão. Enfim, também o representante chinês diz que a China apoia todos os países na defesa da sua soberania e dignidade nacional, mas, coronel, não o faz, por exemplo, em relação à Ucrânia. Mas como é que olha para tudo isto?
Isto é uma espécie de regresso das esferas de influência. No fundo, a Rússia viola a ordem internacional naquilo que considera ser a sua esfera de influência, que é a Ucrânia, mas não se cuida de usar o mesmo direito como pretexto. A China faz o mesmo na sua área, no sul da China. Estamos a regressar a estas esferas de influência, ou seja, a ordem internacional baseada em regras. Como vemos, as regras são utilizadas apenas como pretexto para condenar o outro. De fato, os Estados Unidos estão a fazer ali o mesmo, ou parecido. A lógica é a mesma do que a China está a fazer no mar do Sul da China, com a pressão sobre Taiwan e sobre algumas ilhas disputadas, e que a Rússia está a fazer. Nada disso está de acordo com a lei internacional, e essa é a prova clara de que voltámos ao tempo das esferas de influência, das grandes potências, do poder absoluto, e ele é usado de uma forma que respeita apenas os interesses da potência que manda na zona. A China e a Rússia, no caso da Venezuela, não podem fazer muito. De fato, nota-se que os Estados Unidos querem pressionar a saída de Maduro, por um regime que tenha algumas razões, obviamente, o narcotráfico, a hostilidade, o petróleo. Aliás, a maior parte do petróleo da Venezuela é vendida à China, então a China tem ali interesse também, mas não vai fazer muito mais que isso. Vão fazer umas proclamações, usar estes fóruns internacionais para mostrar que estão do outro lado, mas não vão fazer nada. A Rússia não vai poder fazer nada na Venezuela, nem a China.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise neste Gabinete de Guerra. Um bom dia para si e feliz Natal.
Igualmente.
Muito obrigada e boas festas.