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310 dias de guerra na Ucrânia. O Gabinete de Guerra está agora reunido com a ajuda do professor da Academia Militar, António José Telo. O Bruno Vieira Amaral, a Judite de França e a Vanessa Cruz também estão neste gabinete. E Vanessa, vamos precisamente começar por avisos sobre a região de Donetsk.

É o primeiro ponto na nossa ordem de trabalhos. Professor António José Telo, bem-vindo mais uma vez esta semana ao Gabinete de Guerra. Volodymyr Zelensky alerta que a Rússia pode tentar conquistar a totalidade do território de Donetsk até ao Ano Novo. Hoje é dia 30, portanto, isto quer dizer que vamos assistir a um último dia do ano bastante difícil na Ucrânia, sendo que os últimos dias já têm sido também de ataques aéreos em 10 regiões.

Tudo indica que sim. Aliás, os ataques aéreos têm-se intensificado e também os combates, diria quase estáticos, no Donetsk. Prevê-se que haja um avanço significativo russo, embora nisto nunca podemos ter certezas, mas é um facto que a Rússia neste momento tenta mostrar algumas das suas capacidades, tenta mostrar que não está totalmente paralisada e depois das grandes perdas que teve nessa região. Portanto, é possível que sim, até por uma razão muito simples, é que as temperaturas estão, de facto, anormalmente altas. Já chegaram a temperaturas negativas, mas nesta altura do ano já deviam estar muito negativas e neste momento ainda não estão. Andam à volta dos 0 a -10 graus, que é muito alto para esta altura do ano nessa região.

Temos também hoje a Bielorrússia a acusar a Ucrânia de tentar provocar um conflito regional. Isto é uma cópia da narrativa russa para justificar o cenário que está a ganhar força de uma intervenção mais direta da Bielorrússia na guerra?

Uma intervenção mais direta da Bielorrússia não precisa de justificação. A Bielorrússia é um Estado beligerante desde o começo da guerra. A Bielorrússia permite que a Ucrânia seja atacada do seu território, serve de base às forças russas que invadem a Ucrânia, serve de base para treino para as forças russas, serve de base para os foguetes e mísseis que são lançados. Tudo isto são atos de beligerância, sem qualquer dúvida, perfeitamente classificados enquanto tal pelo direito internacional. Como tal, a Bielorrússia é já um Estado beligerante. Se envolver diretamente as suas forças, é mais um passo na beligerância, mas ela já é um Estado beligerante. E para além disso, um Estado perfeitamente controlado pela Rússia, inclusive que pediu a anexação. Portanto, não há dúvidas a esse respeito. É das poucas coisas que não levanta dúvidas nesta guerra, é o estatuto da Bielorrússia.

E quanto ao papel da China, Vladimir Putin e Xi Jinping estiveram reunidos por videoconferência e dizem que querem reforçar a cooperação militar. Em que é que este reforço da cooperação militar se poderá traduzir?

Teoricamente, pode-se traduzir em muita coisa. Duvido que se traduza em muita coisa para além do que já existe. E o que já existe, pelo menos tanto quanto nós sabemos, é essencialmente exercícios e manobras conjuntas. Em pequeno grau poderá haver alguma troca de equipamento e material, mas de facto em pequeno grau. Uma das coisas que têm caracterizado este conflito é que não há uma ajuda militar da China significativa. Podia haver, a China tem essa capacidade, à Rússia, apesar de a Rússia gostar muito de a ter, possivelmente. Sem dúvida, por exemplo, iria preferir ter drones chineses em vez de ter drones iranianos, mas simplesmente isso não está a acontecer. Aliás, diga-se, a forma como a Rússia necessita de importar os drones, que são um elemento muito importante para esta guerra, é significativo também sobre as suas deficiências e as suas debilidades. Esta necessidade que de repente descobriu de importar equipamento e armamento. A China tem evitado uma ação significativa em larga escala nisto e não sei, mas é possível que isso faça parte do entendimento informal, não conhecido e não público, mas o entendimento informal da própria China com os Estados Unidos.

Professor António José Telo, entretanto, hoje o dia fica também marcado pela videoconferência, como estava aqui o Bruno Vieira Amaral, entre Vladimir Putin e Xi Jinping. O Bruno estava a falar disto. Nessa reunião, o presidente chinês foi convidado pelo presidente da Rússia a visitar Moscovo na primavera, previsivelmente já com um ano de guerra completo. Este timing escolhido para a visita é também de assinalar e de ter aqui uma interpretação? Será que Putin acha que depois de um ano vai vencer esta guerra?

Por um lado, é normal que Putin tente ao máximo dar a aparência de uma relação excelente e magnífica com a China e que a China é um lazo de amizade inquebrantável, como consta de dizer, em relação à Rússia. É por uma razão muito simples. Em termos internacionais, normalmente é apontado pela maior parte dos observadores como sendo um entendimento efetivo e real. A realidade é outra, quer em termos da ajuda militar, quer também em termos do próprio apoio diplomático. A China, por exemplo Não reconheceu a anexação das quatro regiões que a Rússia reclama na Ucrânia. Reclama ilegalmente, obviamente, mas que reclama na Ucrânia. Portanto, há aqui uma situação ambígua e penso que é evidente e claro que quer a Ucrânia, quer a Rússia preparam-se ativamente para ações nesta primavera. Apesar das temperaturas muito altas, vamos de fato entrar num período em que a manobra, o movimento militar de larga escala será muito difícil. Esse período ia se prolongar até meados de fevereiro. Atualmente, em que vivemos na Europa, pelo menos neste ano, um dos anos mais quentes de sempre, é muito difícil saber. A Rússia, sem dúvida, tem as suas previsões meteorológicas de longo prazo e sem dúvida essas previsões estão incorporadas no seu planeamento. E depois de ter feito a mobilização de 300 mil e mais uma chamada das reservas de 500 mil homens, segundo diz, se não apresentar qualquer coisa na primavera, seria um desaire total, um colapso total da sua credibilidade em termos militares. Portanto, é normal que prepare de facto alguma coisa para a primavera. Se isso coincide ou não com a visita do presidente chinês, está para ver. Agora, que a Rússia tinha planeado resolver a guerra neste inverno também parece evidente, não está a conseguir. A manobra militar está a falhar e está a falhar de uma maneira evidente e isto levou possivelmente a atrasar tudo para uma resolução da guerra na primavera. Isso obriga também para a preparação para um outro cenário, que é o cenário de aguentar uma guerra prolongada e eventualmente menos intensa. A Rússia, na minha opinião, não tem capacidade de aguentar uma guerra de grande intensidade durante um ano, um ano e meio, dois anos para ir fora. Agora uma guerra menos intensa, se ela conseguir impor isso no terreno, durante 2023, aí já é diferente, suas capacidades já são diferentes.

Só para terminarmos a reunião de hoje do gabinete de guerra, professor António José Telo, temos aqui um balanço de 310 dias desta guerra em Kiev, 120 mortos, 495 feridos, 693 horas de alarmes aéreos. É o balanço ucraniano. Será credível?

Sinceramente, parecem-me números modestos, porque nós vemos, sobretudo nos primeiros tempos da guerra, o que é que foi o castigo de Kiev. Isso também é revelador da organização e da maneira como os ucranianos organizam a proteção da sua população. Infelizmente, já nos habituámos a esta guerra claramente ilegal, esta guerra de ataque a alvos civis e de bombardeamento das cidades. Por exemplo, na Segunda Guerra Mundial, só foi a partir de 1942 que os aliados resolveram, de fato, o bombardeamento sistemático das cidades alemãs, ou seja, só foi depois de mais de dois anos e meio de guerra. Aqui começou logo, aqui foi logo de início que isso aconteceu. Ou seja, a tentativa de espalhar o terror através desses atos de ataque a alvos civis marca esta guerra desde o princípio. O que aliás faz com que a Ucrânia classifique a Rússia como um estado terrorista com alguma razão. Basta ir ver as cidades ucranianas, praticamente qualquer delas, para confirmar que é uma classificação com alguma razão. Destruição naquela escala não é um erro de alvos, não é um erro de mísseis, não é um erro de foguetes que são disparados. Não, é uma política sistemática e especialmente em relação àquelas cidades que estão na linha do avanço russo, que são arrasadas por completo.

Professor António José Telo, muito obrigada pela sua análise e por nos ter ajudado também a perspetivar um pouco já de 2023 para este conflito na Ucrânia, que está longe, pelo que percebemos, de acabar. E desejo-lhe um bom ano para si. Muito obrigada.

Muito obrigado e um bom ano para todos também.