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Está reunido mais um gabinete de guerra num dia de conclusões dessa reunião do G7 e também num dia em que arranca uma nova cimeira da NATO em Madrid. Como sempre, contamos a esta hora com o Bruno Cardoso Reis. Junta-se aqui ao painel da tarde em direto, Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.
A reunião do G7, que junta as sete maiores economias do mundo, chegou ao fim hoje com uma garantia de apoio à Ucrânia enquanto for necessário e com a intensidade necessária. São algumas das conclusões deste encontro e com estas palavras, precisamente. Bruno Cardoso Reis, pedia-te aqui uma análise e até onde é que pode ir essa intensidade e será materializada em quê, concretamente?
O problema é que realmente não se concretizou muito e também é normal que, sobretudo quando se está a falar da gestão de uma guerra, venha a público logo. Mas aqui eu acho que era realmente importante vir alguma coisa a público, nomeadamente em termos de ficar claro que as prioridades políticas, as prioridades em termos de gestão do calendário estão realmente bem coordenadas. Que, como é previsível, quando a Rússia atingir objetivos mínimos e se calhar começar a pressionar para um compromisso, exatamente qual é que é a posição destes países que são aliados absolutamente indispensáveis para a sobrevivência da Ucrânia, seja a nível militar, sobretudo os Estados Unidos, mas também os aliados europeus, uns mais do que outros, têm um papel importante também, e depois a nível económico, sobretudo a própria União Europeia e complementarmente os Estados Unidos. Em todo o caso, obviamente é melhor haver esta mensagem do que não haver, e a mensagem genérica que foi passada é de que, de facto, haverá um apoio à Ucrânia na medida das suas necessidades. Lá está, é demasiado genérico, porque sabemos que têm havido aqui muitas discussões sobre o que é que exatamente isso significa, necessário para quê, para se defender, para parar a ofensiva, para recuperar território, até onde é que se vai no nível de armamento que é fornecido sem arriscar uma escalada perigosa com a Rússia. Mas há esse compromisso. E depois também em termos de calendário, até quando for preciso, portanto, sem um prazo à vista. Mas aí nós sabemos que realmente, e já houve aqui alguns sinais de algum nervosismo, e esperamos também de alguma coordenação a esse nível, que o inverno provavelmente será bastante complicado de gerir, nomeadamente a questão energética, em particular por causa da dependência do gás natural russo em muitos países do Norte da Europa, não só para a questão da indústria e da produção de eletricidade, mas também para a questão do aquecimento, que obviamente no inverno é absolutamente vital nessas regiões. Portanto, eu acho que é alguma coisa, os sinais são genericamente positivos, mas não são compromissos muito firmes, não são prioridades muito claras, portanto, não dá para ficarmos completamente descansados. Mesmo aquela grande iniciativa que foi anunciada, que mais uma vez em termos estratégicos faz sentido, os 600 milhões de dólares para projetos de infraestruturas, faz sentido para evitar que se crie uma espécie de vazio estratégico noutras regiões do mundo, na América Latina, em África, na Ásia, e que isso possa ser preenchido ou pela Rússia, de forma oportunística, ou sobretudo pela China. Agora, a verdade é que quando se vai ver, muito do que está a ser prometido, no fundo, é uma espécie de um novo embrulho para um velho pacote, para programas que já estão em curso, seja do lado da União Europeia, seja do lado dos Estados Unidos, e uma parte desse dinheiro nem sequer é dinheiro público, ou seja, não é dinheiro efetivamente comprometido, é dinheiro que se irá buscar também em financiamento privado. Portanto, no fundo, é uma promessa, mais uma vez vaga e relativamente genérica. Lá está, acho que aponta no sentido certo, disse coisas acertadas, mas tendencialmente bastante genéricas, bastante vagas e que deixam margem para algum receio de que não se esteja aqui a conseguir acordos suficientemente fortes, suficientemente robustos e concretos para lidar com o impacto da guerra, seja nas economias destes países, seja na economia global e no sistema internacional e de segurança europeia.
Bruno, já a cimeira da NATO começou hoje e Jens Stoltenberg quer ter mais forças de prontidão e mais equipamentos pré-posicionados e tropas em alerta máximo, agora devem aumentar para 300 mil. Achas que é uma cimeira decisiva para o desenrolar desta guerra e pode sê-lo no sentido até do agravamento do conflito?
Eu acho que isto já está a ser preparado há bastante tempo. Eu estive numa reunião em Budapeste em 2017, coorganizado com o Comando de Transformação da NATO e com o think tank britânico, o Royal United Services Institute, em que já se falava que era crucial uma série de mudanças muito importantes, inclusive já por causa da questão da Crimeia, mas estava tudo muito bloqueado porque o grande consenso também era "mais vale não mexer nisto enquanto o presidente Trump estiver em funções, seria demasiado caótico". Portanto, muito desse trabalho já está feito. Foi nomeado um grupo também de aconselhamento de peritos, que fez consultas em todos os Estados membros e que publicou um relatório também no final do ano passado sobre a NATO até 2030. E portanto, tudo isto é relativamente previsível. Nós ainda não conhecemos a versão definitiva do novo conceito, que é um documento muito importante na Aliança Atlântica, uma aliança com 30 Estados membros. Genericamente, as Forças Armadas precisam de doutrina, dão muita importância, são organizações muito hierárquicas, muito vastas e muito complexas. E portanto, este tipo de documentos é muito importante para definir prioridades, uma linguagem comum para toda a gente apontar no mesmo sentido. Isso ainda é mais importante quando estamos a falar de 30 países e de Forças Armadas e de uma gestão também política e diplomática de 30 países. Portanto, não estou a desvalorizar aqui o documento. Agora, não espero aqui grandes novidades. Acho que vai haver um grande reforço desta dimensão de defesa territorial e insistir-se em relação ao Leste Que é preciso passar, e é aí que se pega nesta questão dos 300 mil, de um modelo que era muito modelo de dissuasão, ou seja, ter uma presença mínima de poucas forças, até com esta preocupação de não provocar a Rússia, de não dar demasiados argumentos à Rússia, portanto, escassos milhares de homens em todos os países do leste para, no caso de haver um ataque, uma ameaça mais credível de que esse ataque provavelmente provocaria baixas não só polacas ou lituanas ou romenas, mas de vários países da NATO e, portanto, quase que obrigaria a uma resposta, não só por causa do tratado, mas também por causa disso. Agora, a ideia é ter uma postura muito mais robusta e que dê uma capacidade acrescida de defesa efetiva, e não apenas dissuasão, no caso da Rússia se sentir tentada a fazer algum tipo de incursão militar. É importante sublinhar que não se trata de enviar 300 mil soldados para os países do leste. É um aumento importante do nível de ambição e vai ter implicações em termos do nível de esforço e do nível de investimento dos países-membros. Portanto, ter todas estas forças preparadas para até um mês serem projetadas, nomeadamente para o leste europeu, mas não significa que essas forças vão todas já para lá. Também é importante sublinhar isto para não se alimentar depois esta narrativa russa de que afinal também vai haver agora 300 mil soldados da NATO nas fronteiras da Rússia. Não é disso que se está a falar, é de preparar essas tropas para o caso de rapidamente serem precisas nesses países.
E é importante esse esclarecimento. Já agora, Bruno, a propósito ainda da Cimeira da NATO, que já começou em Madrid, o secretário-geral da Aliança Atlântica, Jens Stoltenberg, mostrou-se desapontado com o facto de a China não ter condenado a invasão russa da Ucrânia. Diz mesmo que está mais próxima de Moscovo do que alguma vez esteve. Achas que a China vai ouvir com atenção estas palavras?
Eu acho que a China dá alguma importância ao secretário-geral da NATO, provavelmente um pouquinho mais do que aos responsáveis da outra Bruxelas, da União Europeia, mas tem uma visão muito realista da política e, portanto, senta sobretudo nas principais potências. Aquilo que é importante é que no fundo isso é claramente partilhado por Estados assim bastante importantes, inclusive os Estados Unidos. Acho que isso corresponde muito à avaliação que se consensualizou, que é de facto a China, sem obviamente pôr em questão os seus interesses vitais, portanto, sem levar o nível de apoio à Rússia público a um ponto que ameace o seu acesso aos mercados ocidentais, etc, assumiu aqui uma postura que não é de simplesmente neutralidade ou de indiferença. É uma postura que é tendencialmente favorável à Rússia. No início ainda criticou ou deu a entender que de facto não era boa ideia violar a soberania de outros Estados, mas reservou, no essencial, as suas críticas à questão da NATO, à expansão da NATO, portanto, acabou por ecoar muito os argumentos russos. E parece também complicado que o presidente Xi, depois de se ter comprometido publicamente com uma parceria, entre aspas, sem limites com a Rússia, fizesse aqui um exercício de distanciamento e deixar cair a Rússia nestas circunstâncias. O que não quer dizer que esteja completamente alinhado ou completamente agradado com o que está aqui a acontecer. Isso também significa que a NATO está muito mais atenta à Rússia, é claramente uma ameaça muito próxima, mas não quer também deixar de sinalizar que também vai estar atenta ao desafio colocado pela China, em termos de segurança global.
Bruno, para uma resposta muito curta, um minutinho. A Agência para a Cooperação entre Reguladores de Energia na União Europeia disse hoje em Sintra que a Europa deve começar a pensar em racionamento de gás e determinar quem recebe gás, que gás e em que momento. Isto afetará Portugal?
Eu acho que é aqui um sinal concreto daquele ponto que eu estava a referir, que realmente vamos ter um inverno que vai ser um teste muito sério à determinação dos europeus em manter o seu apoio à Ucrânia, porque há o risco realmente de haver, por exemplo, a escassez de um bem tão essencial como o gás. Portugal, os países da Península Ibérica, são dos menos vulneráveis, porque à partida têm outras fontes de fornecimento essencial, já tinham e portanto já tinham fontes muito diversificadas. Também apostaram mais nas renováveis, portanto, o peso das renováveis é maior no seu cabaz energético. Não quer dizer que marginalmente não possa ter aqui algum impacto. Onde isto realmente se arrisca a ser muito complicado gerir vai ser realmente nos países da Europa do Norte e da Europa Central e de Leste, inclusive a Alemanha.
Estamos no verão já a pensar no inverno, vai ser, como dizias, um teste sério no apoio da Europa à Ucrânia. Bruno Cadouço Reis, amanhã voltamos a contar contigo. Até lá.
Bonita.