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Na Rádio Observador destacamos os conflitos na Ucrânia e também em Gaza, gabinete de guerra. Eu sou o Miguel Cordeiro e vou estar à conversa com o historiador Bruno Cardoso Reis. Começamos, Bruno, com as eleições europeias e com o impacto que podem ter para a Ucrânia e para Gaza. O que nos dizem os resultados sobre o que pode acontecer a nível europeu na relação com estes dois conflitos?
Boa tarde a todos. Eu acho que é difícil de ter aqui uma resposta clara, no sentido de dizer, por exemplo, houve uma viragem completa na opinião pública contra o apoio à Ucrânia, ou houve uma viragem completa na opinião pública no sentido de impor sanções ou acabar com qualquer tipo de relacionamento com Israel. Acho que as eleições tiveram dinâmicas diferentes nos diferentes países, apesar de tudo, havia aqui um grupo que estava particularmente em foco, que era esta direita mais radical e mais identificada com teses, por exemplo, de defesa de uma paz a qualquer preço com a Rússia, teses até putinistas, partidos com histórico até de relações próximas com Putin, de financiamento pela Rússia, como o partido da Marine Le Pen, o Rassemblement National na França ou a AFD na Alemanha. Realmente esses partidos tiveram bons resultados, mas isso não se pode generalizar ao conjunto da Europa, mesmo no caso da Áustria também aconteceu assim, mas não foi uma tendência geral no conjunto da Europa. Mesmo aí, foram resultados bons, mas em eleitorados muito fragmentados. A AFD, por exemplo, ficou em segundo na Alemanha, mas com 16%. E a verdade é que se olharmos para o conjunto do Parlamento Europeu, os partidos de centro-esquerda, de centro-direita, que tradicionalmente têm dominado a política europeia, basicamente desde a Segunda Guerra Mundial, continuam a ter uma maioria confortável se somarmos todos. Os liberais, os socialistas e o Partido Popular Europeu.
Sim.
Desse ponto de vista, pode-se dizer, não é expectável uma mudança significativa, pelo menos não a curto prazo. Há aqui um impacto mais direto no caso da França, onde aí eventualmente poderá haver algum efeito, que é eleições antecipadas até o final deste mês. E realmente, se ao contrário daquilo que é a expectativa do presidente Macron, isto levar a uma vitória histórica e a um futuro governo do Rassemblement National, do partido da senhora Le Pen, isso realmente pode e certamente levará a uma redução do apoio à Ucrânia, dos compromissos já assumidos, pelo menos dentro daquilo que têm sido as declarações da senhora Le Pen, que embora se tenha distanciado de Putin, na verdade não ao ponto de se comprometer com qualquer tipo de apoio à Ucrânia.
Sim, vamos ver o que acontece em França nessas eleições já convocadas por Macron. Entretanto, vamos olhar um pouco para Israel, porque há essa demissão de Benny Gantz do governo israelita. O governo não cai para já, mas isto acaba por ser um duro golpe para Benjamin Netanyahu.
Sim, no fundo, Benny Gantz era um pouquinho o seguro de vida do atual governo.
Exato.
Dava-lhe, a partir de 7 de outubro, realmente uma parte da oposição moderada, ainda por cima liderada por um antigo general, que foi chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Israelitas, o general Gantz, dava-lhe aqui uma credibilidade, quer política, quer até em termos militares. Ele fazia parte também daquele núcleo duro do chamado gabinete de guerra. Isso realmente acabou, o governo fica limitado à sua base de apoio anterior, ou seja, basicamente a direita e a extrema-direita. E ainda por cima, Benny Gantz sai com o argumento que discorda da própria estratégia militar ou se quisermos, político-militar de Netanyahu, ao que temos chamado aqui a atenção, que é até em termos dos interesses de Israel, independentemente de questões humanitárias, independentemente de questões de direito internacional, em muitos casos as opções que têm sido tomadas parecem erradas. No fundo, temos alguém com peso na política israelita a dizer isso. Agora, como referias, em termos de Parlamento, isto não implica a queda do governo, a não ser que haja dissidências no Likud ou que o próprio Netanyahu decida que está demasiado enfraquecido, está a ser demasiado contestado, isso não obrigará eleições para já.
Ainda neste conflito, hoje a notícia é que os Estados Unidos da América estão a ponderar fazer um acordo com o Hamas para libertar cinco reféns norte-americanos, mas aqui o destaque é que será um acordo sem a participação de Israel. Que mensagem deixam aqui os Estados Unidos da América ao fazer este acordo com o Hamas?
Eu diria que seria mais um exemplo deste distanciamento crescente entre os Estados Unidos e Israel, de uma tensão que não tem precedentes nas últimas décadas, depois de um período grande de aproximação entre Israel e os Estados Unidos. Não sei se daria completo crédito a isso. Apesar de tudo, estranharia que houvesse um acordo desse tipo, até porque também implicava, de alguma forma, os Estados Unidos aceitarem negociar com terroristas, embora nós saibamos que, na prática, isso aconteceu no passado, por exemplo, no Líbano nos anos 80, que depois deu origem àquele famoso caso dos Irã-Contras na altura do presidente Reagan, nem sequer era um presidente democrático, digamos assim, que pode ser visto como menos falcão. Mas em todo caso, penso que aquilo que seria ideal para os Estados Unidos era realmente conseguir aqui o acordo de cessar-fogo. O próprio Antony Blinken voltou a insistir nisso hoje, que é cada vez mais urgente chegar a esse acordo, que terá falado com o seu homólogo egípcio, que lhe disse que continuava em conversações com o Hamas Portanto, eu diria que isso seria o cenário ideal para os Estados Unidos a vários níveis, em termos de pressão internacional, em termos das próprias dinâmicas políticas internas, mas enfim, não excluo completamente se enfim, se há notícias credíveis nesse sentido, é possível que sim, que estejam a explorar isso e mais uma vez seria um sinal desse distanciamento, dessas tensões, dessa desconfiança crescente entre Biden e Netanyahu.
Falemos do conflito na Ucrânia, entre Ucrânia e Rússia. Está a ser noticiado que a Ucrânia pode estacionar F-16, caças F-16 noutros países. E perante isso, a Rússia desde já avisa que se isso acontecer, F-16 utilizados pela Ucrânia durante o conflito estacionados noutros países, então essas bases noutros países serão alvos legítimos. Está aqui a Rússia a aplicar a mesma moeda que a NATO aplicou na Ucrânia ao autorizar a utilização de armamento da NATO em território russo?
Não se pode dizer que seja a mesma moeda, nem falar aqui em alvos legítimos faz muito sentido, porque nada disto é legítimo. Ou seja, nós temos não só uma violação grosseira da lei internacional, e foi assim declarado por três resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas, com votações esmagadoras, como o próprio Tribunal da Haia veio dizer, com muito mais rapidez, aliás, do que em relação a Israel, não veio dizer, como em relação a Israel não pode continuar o ataque nesta zona específica, disse: "Toda esta invasão é ilegal. Toda a vossa justificação não tem qualquer base". A ideia de que havia uma espécie de um genocídio no Donbass, isso não tem nenhuma base. Aliás, a Rússia não foi capaz de entregar qualquer prova nesse sentido, porque elas simplesmente não existem. Portanto, toda esta guerra é uma guerra ilegal e a Ucrânia tem o direito de se defender e os outros países têm o direito e até o dever de ajudar a Ucrânia a defender-se. Agora, em termos de uma lógica militar, é verdade. Ou seja, se há F-16 que estão a atacar alvos russos e têm como base alvos noutros países, isso significará, a partir daqui, que essas bases poderão ser alvo de um ataque russo. Eu diria que isso será um teste realmente a esta tese de que a Rússia tem algum interesse em alargar o conflito ou correr o risco desse alargamento. Eu continuo a achar que não é assim, mesmo com F-16 em bases de países europeus. Aquilo que eventualmente pode acontecer é algo que já está a acontecer. Ainda agora foram presos dezenas de suspeitos na Polónia, que é ações de sabotagem, ações, podemos dizer, de terrorismo, ou seja, de assassinatos. Isso até já estava a acontecer antes da invasão russa da Ucrânia e intensificou-se muito desde a invasão russa da Ucrânia e é uma ameaça em relação à qual os países europeus têm de preparar, no fundo, têm de tentar contrariar, mas apesar de tudo é uma ameaça tipo diferente de um ataque direto por parte da Rússia a esse tipo de alvos, porque aí a resposta também é: bem, isso também significa que esses países ficam autorizados a usar todos os meios ao seu dispor para retaliar, para responder. E, portanto, que é algo que é muito diferente daquilo que está a acontecer para já, ao contrário daquilo que também diz a narrativa russa, que é que já estão na guerra aberta com a NATO.
Entretanto, é noticiado também que Vladimir Putin pode estar a preparar uma visita à Coreia do Norte. Mais do que uma visita, na verdade, há aqui uma passagem pela Coreia do Norte, mas também outra pelo Vietname e a acontecer nas próximas semanas. A imprensa russa indica que a visita ao Vietname pode acontecer a 19 e 20 deste mês, portanto, já depois dessa cimeira de paz que está agendada pro próximo fim de semana. Ainda não há uma confirmação oficial, isto está na imprensa russa, mas avança-se que depois dessa visita ao Vietname, há uma passagem pela Coreia do Norte. Que importância pode ter um encontro de Putin com a liderança norte-coreana a acontecer em breve?
Realmente, pelas notícias que eu vi, estaria prevista pra 19 e 20 de junho, portanto, realmente a seguir a Genebra. Eu diria que é um sinal, seria uma forma de mostrar que a Rússia não está completamente isolada. Também seria uma forma de mostrar que não tem apenas a Coreia do Norte, porque isso seria aí o argumento evidente, que é, não está isolada por conta com um país que é um completo pária.
Em relação a um país isolado.
Em relação ao qual há sanções decretadas pelo Conselho de Segurança, ou seja, com a própria votação da Rússia, continuam em vigor e que a Rússia está manifestamente a violar. Portanto, aqui o Vietname é conveniente. Do ponto de vista do Vietname, também é conveniente neste sentido, que é um país que se tem aproximado imenso dos Estados Unidos, na prática tem uma espécie quase de aliança militar com os Estados Unidos. Os navios de guerra americanos frequentemente visitam bases no Vietname, apesar de ser um regime comunista, mas que tem um conflito histórico muito antigo com a China, um difendo territorial também com a China, e, portanto, por causa disso, pra contrabalançar isso, aproximou-se dos Estados Unidos, mas gosta muito de manter a sua autonomia estratégica, de ter aqui um certo jogo de equilíbrio e, portanto, desse ponto de vista também procurou melhorar as suas relações com a Rússia e essa visita seria uma forma de mostrar isso mesmo. Não é pelo fato de ter boas relações com os Estados Unidos, que no fundo está completamente alinhado com os Estados Unidos, seria conveniente realmente pra Rússia. Do ponto de vista dos interesses do Vietname, teria aqui esta vantagem, mas em todo caso, o Vietname não está a apoiar a Rússia em termos militares, como é o caso da Coreia do Norte e do Irão, abertamente. Sabemos que pelo menos no caso da China, há um apoio significativo em termos econômicos, em termos tecnológicos, tipo tecnologias duplo uso, um apoio importante e indireto pra indústria militar russa, mas não um apoio do mesmo tipo que ele está a conseguir na Coreia do Norte e desse ponto de vista, realmente este também é o preço a pagar, ou seja, a condição pra dinastia Kim, de fato, dar este apoio é também a Rússia, no fundo, aceitar quebrar um pouco este isolamento internacional, este estatuto de pária que a Coreia do Norte tem tido.
E aponta-se como temas para debater na visita ao Vietname, energia, cooperação militar, liquidação de pagamentos e também um acordo no campo da educação nessa visita de Putin ao Vietname, a ser preparada para os dias 19 e 20 deste mês. Está feito o Gabinete de Guerra com ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, até a próxima.