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Gabinete de guerra da Rádio Observador, eu sou o André Maia. Temos conosco Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais, a quem dou as boas-vindas. Bem-vindo, Miguel Baumgartner. Obrigado por ter aceitado mais uma vez o nosso convite. Ontem realizou-se mais uma ronda de negociações diretas entre delegações da Ucrânia e da Rússia. A Rússia que propõe uma trégua temporária até 48 horas, anunciou também a troca de 1200 prisioneiros. Moscovo diz que as posições estão muito distantes, mas não nega um encontro entre os presidentes. A minha pergunta é: o que é que sai desta reunião e se é de acreditar que venha a acontecer essa reunião entre Zelensky e Putin?

Acima de tudo, nós temos que entender que essas conversações limitaram-se àquelas trocas de exigências que já eram conhecidas e algumas sinalizações simbólicas. Como foi, por exemplo, a presença dos mediadores turcos, que é super importante, porque a Turquia quer fazer mesmo parte da solução e quer ser vista já não mais como uma potência regional, mas como uma potência também internacional e, portanto, vai tomando e vai fazendo esses passos no sentido de ter peso à mesa internacional. E depois, há toda uma certa mise-en-scène criada também para responder a Putin. Isto é quase como se tivessem ido lá tirar uma fotografia para depois enviar para Washington, para dizerem duas coisas. Putin para dizer a Trump que efetivamente está disponível para negociar e está disponível para abrir conversações que possam criar a possibilidade de um cessar-fogo, e foi isso que foi feito, naquele espaço dos tais 50 dias. Ou seja, antecipando-se ao final dos 50 dias, já diz e deixa acontecer esta reunião de 40 minutos. Mas é uma reunião que não vai avançar e veja que não avança. E é por isso que nós não vamos ter uma reunião entre Zelensky e Putin tão cedo quanto poderíamos querer para que se pudesse realmente chegar a um denominador comum que pudesse trazer alguma possibilidade de cessar-fogo, porque de um lado temos uma posição que é uma posição maximalista, em que Putin deixa bem patente três coisas. Para ele não vai mudar, Zelensky tem que sair e, portanto, tem que haver em Kiev um regime que seja mais próximo de Moscovo e depois é a NATO e os países que são membros da NATO têm que garantir que a Ucrânia não vai entrar e a União Europeia também tem que garantir que a Ucrânia não vai entrar. Portanto, essas são as posições mais maximalistas. Depois também tem a questão dos oblasts já ocupados. Do outro lado, Zelensky tem um grande problema, é que Zelensky não quer abordar de maneira nenhuma, apesar de haver algumas sondagens que já indicam isso, portanto, que já há ucranianos que consideram que a abertura de uma negociação a discutir a possibilidade de alguns territórios ocupados poderem ficar sob a administração russa, Zelensky não quer abrir. Então Zelensky também vai esticando esta guerra, porque agora tem, de um lado, a União Europeia que a financia e que a garante política e diplomaticamente, e depois tem os Estados Unidos que entregam à Ucrânia aquilo que a Europa paga. Portanto, ele também se sente empoderado por essa situação.

Claro.

Mas vemos que nós não conseguimos avançar um milímetro nas negociações. Falou-se efetivamente, e isto foi importante, a troca de prisioneiros e a troca também de mortos. Não se discutiu, que era super importante, aquela questão das crianças, que é profundamente inaceitável o que está a acontecer. E não saiu ali nada que nos possa dizer que aquilo não tenha sido só um teatro estratégico, útil para ambas as partes, é importante dizê-lo, para manter o próprio jogo diplomático vivo enquanto a guerra continua. Portanto, foi isso que saiu. Infelizmente, de Istambul não saiu nada mais do que isso.

Claro. Miguel Baumgartner, ao mesmo tempo, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, apelou à China para que, e estou a citar: "Use a sua influência na Rússia para que respeite a Carta das Nações Unidas e traga um fim à sua guerra de agressão à Ucrânia". Entretanto, a presidente da Comissão Europeia alertou hoje também o presidente chinês que as relações entre a União Europeia e a China atingiram um ponto de inflexão, exigindo soluções para o desequilíbrio comercial e o apoio a Moscovo. Pergunto: e apesar desta cimeira, as relações estão mais frias entre a China e a União Europeia?

Elas ficam um pouco mais frias por duas razões. Primeiro, porque a União Europeia terminou um acordo que andou a discutir durante muitos anos com a Indonésia, que são cerca de 750 milhões de habitantes que têm ali o espaço da Indonésia. Portanto, é um acordo importante. E a União Europeia não consegue efetivamente terminar o acordo ou princípios de acordo que tem com a China. E precisa, efetivamente, que a China, agora que veio dizer duas coisas que também são muito importantes, porque a China nunca tinha afirmado isso. A China, neste momento, apareceu no palco internacional e disse "estou aqui". Foi a dizer que não vai deixar cair a Rússia de maneira absolutamente nenhuma e que aquilo que a Rússia precisar estará sempre ao lado. A Europa precisa de encontrar outros mercados. A Europa já entendeu que não vão ser fáceis as negociações com os Estados Unidos e precisa, efetivamente, do mercado chinês, até porque o mercado chinês é importante, nomeadamente para a indústria automobilística europeia. Não só da quantidade de chips e outra pequena tecnologia que recebe, mas também dos carros que vende para lá. Apesar de estar a perder mercado, apesar de também os chineses estarem a entrar com os seus carros, que hoje já não são os carros que eram no princípio, portanto, hoje também já têm uma tecnologia muito mais avançada. E, portanto, a União Europeia vê essa situação. Este pedido de António Costa faz todo sentido, porque António Costa também reparou que precisa de aparecer mais no palco internacional e que sabe que Como a China quer, de alguma forma, encetar essa capacidade de comunicação e de acordo com a Europa, aproveita-se aqui um pouco e também faz um pouco de teatro diplomático a apelar a que a China possa ser um intermediador. Porque é importante o seguinte, e vamos voltar àquilo que falávamos há pouco. Com a subida da Turquia e com o aumento da Turquia na mesa das negociações, e com o fato de que Putin está sempre disposto a que a Turquia seja o mediador que os Estados Unidos tentaram ser, nós não nos podemos esquecer de que durante muito tempo a Turquia quis fazer parte da União Europeia. Inclusive, durante muito tempo os Estados Unidos pediram à Europa que a Europa, de alguma forma, puxasse para si a Turquia. Hoje vemos uma Turquia um pouco mais radicalizada, também mais radical até mesmo em termos religiosos, o que antigamente nós não tínhamos e, portanto, a Europa precisa encontrar outros parceiros internacionais que possam ter alguma influência na Rússia. Não esquecendo, e este é um dado que é sempre importante não esquecer, o inverno está aí ao virar da esquina e temos um grande problema em toda a Europa, é que a Europa não tem capacidade de se aquecer durante o próximo inverno, a não ser continuando a comprar os hidrocarbonetos, seja de forma direta ou seja de forma indireta à própria Rússia e, portanto, tenta-se encontrar aqui alguém. O que a Europa precisa é que a Ucrânia desse um gesto de paz, de realmente querer paz, para que pudesse justificar a continuação da compra dos hidrocarbonetos.

Miguel Baumgartner, vamos virar a página para o Medio Oriente e temos sete minutos até o final. O Hamas anunciou hoje que respondeu à proposta israelita de cessar-fogo de 60 dias em Gaza, pediu alterações no que diz respeito à entrada de ajuda humanitária e Israel está, por enquanto, a estudar a proposta. Pergunto-lhe, Miguel Baumgartner, a crise humanitária que se vive na Faixa de Gaza pode levar a um entendimento para esse cessar-fogo temporário? Parece que é uma pergunta que já fizemos muitas vezes.

Pois já. E parece-me que teria que ser. Hoje já não se consegue mais justificar absolutamente nada que se passa na Faixa de Gaza com a guerra. Não se justifica o ataque de 07 de outubro com esta situação. E, portanto, esse cessar-fogo já não é mais um cessar-fogo para permitir a pausa de hostilidades entre o Hamas e Israel. Neste momento, é um cessar-fogo para salvar vidas, para parar aquilo que é e tem sido a catástrofe humanitária que vivemos em Gaza. E aí a comunidade internacional, nomeadamente a União Europeia, já que falávamos há pouco atrás, tem falhado constantemente. Deixe-me só fazer aqui esse parêntese. E ao falhar também, ao não ter tido capacidade de dizer a Israel que há limites para tudo e que aqui, pelo menos na Europa, é este nosso princípio da autodeterminação dos povos, da liberdade e efetivamente do direito internacional, parece-me que faltou pressão a Israel e parece-me que não há mais possibilidade para Israel continuar isto. Nós sabemos que existe uma divisão muito grande no governo de Israel, nomeadamente quer o ministro da Defesa, quer o ministro das Finanças, que são ultraconservadores e que têm vindo a dizer a Netanyahu que ele não deveria aceitar nenhum acordo com o Hamas e o que deveria acontecer era mesmo uma entrada total do IDF na Faixa de Gaza. Mas parece-me que se isso acontecer, será uma catástrofe ainda maior. Portanto, eu quero acreditar que existe aqui um princípio de acordo que nos permita efetivamente abrir os corredores humanitários, que as pessoas possam receber a assistência, mas também outra coisa que não pode acontecer, que tem acontecido ultimamente, que é as pessoas serem, de alguma forma, chamadas a virem a buscar água, alimentos e tudo, e depois o que nós temos assistido, e isso efetivamente são crimes de guerra e é importante dizê-lo, tem sido um ataque massificado, ou seja, aquilo é quase um fuzilamento que tem acontecido. E, portanto, é muito importante que se possa encontrar este denominador comum e que efetivamente se consiga encontrar uma solução de cessar-fogo e que durante esse cessar-fogo se permita a entrada efetivamente da assistência em Gaza.

Claro que sim. Miguel Baumgartner, pra fechar a nossa conversa e temos apenas três minutos até o final, ainda sobre Gaza. A Casa Branca diz que Steve Witkoff está a caminho da Europa para discutir uma proposta de cessar-fogo em Gaza. É de esperar algum desenvolvimento também com esta presença?

Eu espero que sim, até porque o ataque feito pelos Estados Unidos ao Irão foi mesmo para parar o que estava ali a passar. Portanto, foi quase como os Estados Unidos aparecerem e dizerem: "Não, nós vamos acabar com este conflito". Fez-se o ataque, terminou. Agora, Donald Trump precisa de pacificar o Médio Oriente. Isso é impreterível que ele o faça, porque foi isso que ficou acordado com as monarquias do Golfo, nomeadamente com a Arábia Saudita, que foi que o papel que os Estados Unidos iriam ter no Golfo e no Médio Oriente era efetivamente de apaziguar Israel, de baixar um pouco a temperatura de Israel. Isto pra quê? Para que os Estados Unidos consigam então continuar aqueles contratos milionários que conseguiram. E, portanto, esta condição, e é por isso é que o Witkoff vai lá, porque é também um homem de negócios, vai lá para tentar efetivamente convencer Netanyahu de que tem que efetivamente sair um processo, seja um cessar-fogo e a seguir um processo de paz. Curioso é que nós ainda não sabemos é o seguinte: como é que será o processo de paz? O Hamas tem que entregar as armas, o que o Hamas da Faixa de Gaza não quer, mas o Hamas político, que está em Doha, quer que isso aconteça, porque o Hamas que está em Doha, que é o Hamas político, o braço político do Hamas, tem uma ideia diferente. Gostaria até de dar o passo para deixar as armas e se tornar um partido político, na acepção da palavra. O Hamas que está em Gaza, que é o Hamas militar, não quer deixar as armas, não quer entregar as armas e não quer abandonar o território. Temos este problema aqui. E depois é saber: temos a intervenção de um país terceiro que entra com uma força multinacional ou internacional para a manutenção da paz, aquilo que antigamente nós chamávamos os capacetes azuis? Será o IDF a entrar e a, digamos assim, entre aspas, manter a paz e a pacificação? Há aqui imensas perguntas ainda no ar e que espero que depois da visita do Witkoff se consiga, de alguma forma, termos uma resposta. Agora, Netanyahu, como eu dizia há pouco, está um bocado entre a espada e a parede, que é: de um lado, tem Donald Trump que o força a aceitar as condições. O Hamas, por outro lado, não quer entregar as armas porque o Hamas sem armas e sem esta luta não tem razão de existir. E, por outro lado, do lado do seu próprio governo, tem quem não queira que haja cessar-fogo nem processo de paz e quem queira que haja uma entrada brutal na Faixa de Gaza, um controle total, portanto, quase uma guerra total. Ele está nessa situação quase entre a espada e a parede. Eu quero crer que os americanos tenham, através do seu interesse comercial, que é isso que hoje em dia é a diplomacia internacional americana, uma diplomacia econômica, é isso, não é mais diplomacia de paz nem de intervenção para proteger o estado liberal ou os princípios liberais da nossa democracia, é uma diplomacia econômica. Eu espero que nesse interesse da diplomacia econômica, que efetivamente possa permitir uma capacidade de encontrarmos um denominador comum e um cessar-fogo e uma paz.

Miguel Ângelo Gartner, obrigado por ter estado conosco, especialista em Relações Internacionais em mais uma edição de Gabinete de Guerra. Obrigado mais uma vez. Até à próxima.

Obrigado, é um gosto. Obrigado, com licença.