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Começa agora o novo Gabinete Guerra das manhãs 360, hoje com a análise e a opinião do major general Isidro Morais Pereira. General, bom dia, bem-vindo.

Muito bom dia.

Bom dia. Comecemos pela Cimeira da Paz na Arábia Saudita. Kiev, apesar das diferentes visões, faz um balanço positivo do encontro, diz que as conversas foram produtivas, sobretudo sobre os princípios em que se deve ancorar uma paz justa e duradoura, estou a citar. Major General Morais Pereira, razões para termos uma réstia de esperança ou o que se passou foi mais uma tentativa sem sucesso de resolver a guerra?

Eu diria que o balanço foi positivo, sobretudo pra Ucrânia, mas dizer que estamos mais perto de um acordo de paz não me parece que seja esse o caso, até porque a Federação Russa, através do seu porta-voz, já veio dizer que considera como Rússia todos aqueles territórios que constitucionalmente lhe pertencem ou que por decreto foram anexados. Portanto, o ponto fundamental que foi discutido na Arábia, e onde estiveram também os BRICS, com exceção da Rússia, e aí já lá iremos. Um dos pontos que ficou consagrado, e julgo que é o ponto mais importante de todos os pontos daqueles célebres 10 pontos da paz que foram formulados pela Ucrânia, é a questão do respeito da soberania e da integridade territorial. E a Ucrânia é muito clara nesse aspecto. Quando se refere à integridade territorial e ao respeito pela soberania, refere-se às fronteiras de 91, onde se inclui a Crimeia e onde se incluem todos os outros territórios que entretanto foram anexados por Rússia por decreto. Portanto, inclusivamente foram anexados por decreto alguns territórios que a Rússia nem sequer controla, como nós sabemos. Portanto, o que eu acho? Acho que a Rússia está mais isolada em termos diplomáticos e políticos. Porque muito embora algumas declarações tenham sido relativamente dúbias, como foi o caso do Brasil, mas o que é facto é que Brasil, China, Índia e África do Sul estiveram presentes na reunião, estiveram presentes cerca de 40 países, entre países do Médio Oriente, entre países dos BRIC, entre países ocidentais. E no final, aquilo que resulta é fundamentalmente o respeito, e que ficou consagrado, o respeito pela soberania e pela integridade territorial da Ucrânia. Isto é o mais importante.

Mas General, no toureiro da cimeira ouvimos Zelensky reforçar que não vai dar nada ao inimigo, mas no sentido oposto tivemos as declarações do antigo conselheiro de Putin, Markov, que insiste em falar em desnazificação, que a língua russa seja oficial na Ucrânia e que outras terras, pra além das já tomadas, passe para o controle russo. Ou seja, isso torna inviável qualquer acordo, ou melhor, nada se resolve se não haver um vencedor.

Vamos lá ver. Mais uma vez, na história da humanidade, a solução dos diferendos e quando as posições são inconciliáveis, chega-se à guerra. Aliás, a guerra normalmente não é a primeira forma de se tentar chegar a acordo entre os diferendos. Quando há diferendos entre Estados ou coligações de Estados. Primeiro tentam-se outras vias, tenta-se a via diplomática, tenta-se a via das sanções econômicas, tenta-se tudo. E por último, e como nós sabemos, a guerra mais não é que um instrumento da paz. E é o último instrumento da paz. Portanto, muitas vezes, e se formos à história da humanidade, é isso que acontece. Quer dizer, só houve uma paz duradoura e justa quando há um vencedor no campo de batalha e quando há um vencido. E de fato, por aquilo que estamos a assistir, pese embora tenha havido e seja de louvar, naturalmente é de louvar mais uma iniciativa, desta vez sob os auspícios da Arábia Saudita, promovendo esta reunião, eu temo que na prática e em termos pragmáticos, ouvidas as partes, ouvida a posição, naturalmente, expressa de forma clara pelo presidente Zelensky, e ouvidas essas posições que acabo de referir, aliás, aquela a que eu me referi por parte do porta-voz do Kremlin ainda ontem, e agora falando de Markov e falando nessas questões que eu considero secundárias, uma delas pelo menos, a questão de haver um país com duas línguas oficiais, não é nada de espantar. Se olharmos pra Suíça, temos pelo menos quatro línguas oficiais na Suíça. Temos aqui a vizinha Espanha, onde o galego é uma língua oficial na Galiza, temos também o basco e temos o catalão, quer dizer, são línguas que são ensinadas nas escolas às crianças, em paralelo com o castelhano. Portanto, a questão da língua não é uma questão fundamental e é uma questão que poderia ser perfeitamente negociada. Outras questões como o estabelecimento de áreas com autonomia administrativa alargada, tipo regiões autônomas, ou a criação ou a transformação da própria Ucrânia numa federação de Estados onde onde as províncias do Donbass podiam ter uma autonomia alargada ou a própria Crimeia. Tudo isso são soluções que podem ser encontradas, mas que dependem daquela questão essencial e que nós referimos logo em primeira instância, que é o respeito pela integridade territorial de um país, o recuo às fronteiras de 91. Esta que é a questão base. Depois desta questão ser negociada ou ser aceita, vamos supor, que esta questão é aceita pelo Kremlin, todas as outras são questões secundárias e que podem perfeitamente ser negociadas. Agora, eu penso que quando afirmou que não estamos mais perto da paz do que estávamos antes deste fim de semana, antes deste sábado e domingo, foram dia 5 e 6 que decorreu este encontro, esta conferência para a paz. Eu penso que, em termos muito pragmáticos e realistas, não estamos mais perto da paz por via negocial. Não estamos. Vamos continuar a assistir à utilização do instrumento da guerra para a feitura da paz, como instrumento privilegiado da paz e como último instrumento, para utilizar aquela célebre frase francesa, "ultima ratio regis", neste caso, a última ratio para se chegar à paz é, de fato, a guerra. Não me parece haver outra maneira de se conseguir alcançar uma paz que seja justa e duradoura.

Deixe-me só olhar agora também para uns números conhecidos este fim de semana pelos serviços de inteligência do Reino Unido. Cerca de 50% dos 30 mil militares que foram enviados para lutar na Ucrânia foram feridos ou mortos. Estes números têm de ser encarados de que forma?

Estes números, vamos lá ver. Tem havido muitos números que têm sido estimativas, não passam de meras estimativas, outros são números que são mais credíveis porque são obtidos por fontes de informação in loco. É o caso deste, quer dizer, os números a que teve acesso o Reino Unido e que o Júlio acabou de se referir, são números relativos às forças aerotransportadas. Portanto, pelo comandante, o general Teplinskiy, de que temos ouvido falar. E quando se diz que metade do contingente de forças aerotransportadas já se constituiu neste conflito como baixa, isto é uma informação que foi interceptada, foi exatamente uma conversa, ou melhor, até foi uma mensagem escrita que foi interceptada dentro da Rússia. Portanto, esta parece ser uma informação mais credível, parece ser muito mais do que uma estimativa, porque, de fato, foram 30 mil tropas aerotransportadas que foram empregadas até agora na guerra da Ucrânia, e metade delas, cerca de 50%, ou seja, 15 mil, se constituíram como baixas. E até há uma informação que ainda é mais precisa sobre a questão das baixas. Cerca de metade dessas baixas, aliás, fala-se de 8500, constituíram até como mortos. Neste caso, parece que esta informação é credível porque é baseada em informação colhida na própria Rússia, através de meios próprios de informação, da escuta de conversações, da interceptação de conversações telefônicas, da interceptação de e-mails. Quer dizer, há muitas maneiras de obter a informação. Mas muitas vezes, dasquelas do número de baixas que temos ouvido e que temos tido acesso, muitas delas são estimativas, apenas. Mas não é este o caso. Esta questão de metade das forças aerotransportadas terem sofrido uma erosão desta natureza é uma informação que parece ser confiável. E também é confirmada por uma outra fonte, há um organismo holandês que se tem dedicado a esta questão do número de baixas e também é possível ler nesta fonte exatamente a mesma coisa que conseguimos aceder através da informação vinda do Reino Unido, do Ministério da Defesa do Reino Unido.

General, a terminar ainda as palavras de Zelensky, que diz que as narrativas de Lula da Silva coincidem com as narrativas de Putin e que não ajudam a trazer nenhuma paz. Lula da Silva está manietado pelos interesses económicos que tem com a Rússia, ou analisando as palavras de Putin, também está comprometido politicamente com o presidente russo?

Bom, eu julgo que as coisas estão todas relacionadas. Aliás, não é por acaso que o ex-presidente do Brasil deu uma recepta. É presidente do Banco dos BRIC. Quer dizer, há aqui interesses que Lula da Silva está a tentar defender e que ele julga que são os interesses do Brasil. Porque os Estados defendem em primeira linha os seus interesses. E depois, quando esses interesses são concorrentes ou confluentes com os interesses de outros países, juntam-se. Há coligações de Estados para atingir determinados objetivos. Neste caso particular, Lula da Silva insiste num aspeto que me parece completamente irreal ou irrealista. Quer dizer, quando ele se refere à necessidade de dar garantias de segurança à Federação Russa, eu sinceramente não entendo, assim como o presidente Zelensky, parece não entender que garantias de segurança é que a Rússia precisa. Quer dizer, ou Lula da Silva está se a referir à velha retórica russa sobre a questão do alargamento da NATO a leste e o entendimento de que a NATO De países que a compõem, são uma ameaça à soberania russa. E confunde-se aqui alargamento com expansão. A NATO não se está a expandir. Quem se está a tentar expandir é a Rússia. A Rússia é que está a tentar expandir a Federação Russa para tentar fundar um novo império. Isso é que é expansão. A NATO está a alargar-se pela vontade expressa dos próprios países que estão por acaso mais a leste e tentam por todos os meios ser admitidos no seio da NATO. A NATO nunca teve pretensões, que nós saibamos, hegemônicas sobre a Federação Russa. A Rússia é que entende que a NATO está a ocupar um lugar ou está a ocupar uma esfera geográfica que a Rússia entende que é sua por direito. A Federação Russa olha para aquilo que era a antiga União Soviética e todas aquelas repúblicas que bordejavam por sul e por oeste a antiga União Soviética, como o seu near abroad, como o seu espaço de influência preferencial. Aliás, isso está muito bem escrito, muito bem explicitado na doutrina Primakov. Portanto, já no final da década de 90 do século passado, quando Vladimir Putin, a convite de Boris Yeltsin, assume o cargo de primeiro-ministro da Federação Russa e convida para seu chanceler Yevgeny Primakov. E é este homem que estabelece uma doutrina para a política externa da Comunidade de Estados Independentes, depois Federação Russa, assente em três pilares essenciais. Um deles é o recentrar a atenção da Rússia na Eurásia, a outra é o restabelecer das antigas esferas de influência, é a isso que estamos a assistir, ou pelo menos tentativa, e é a alteração do mundo unipolar para um mundo multipolar. E se repararmos e se olhar para todos os documentos de política externa que foram publicados já sob os auspícios de Putin, quer como primeiro-ministro, quer como presidente, e são quatro, e o último documento de política externa é de maio deste ano, em todos eles estão claramente expressos estes três princípios que foram formulados por Yevgeny Primakov em finais da década de 90 do século passado. Portanto, a Rússia persegue estes três objetivos. E um deles é estabelecer as antigas esferas de influência. E é natural que quando estes países, que eram da antiga esfera de influência, solicitam a adesão à NATO, como a Moldova, como a Geórgia, como a própria Ucrânia, como foi o caso dos Bálticos, como é a Polônia, como são todos os outros países, a Bulgária e por aí fora, que pertenciam à União Soviética. A Rússia olha para isto como uma ameaça. Mas é isto uma ameaça real? É a isto que Lula da Silva se refere? É com isto que Lula da Silva concorda? Se é isto, eu acho que Lula da Silva tem uma visão do mundo um pouco distorcida e eu, infelizmente, tenho que dar razão a Zelensky e achar que Lula da Silva está a olhar para o mundo de uma forma um bocado distorcida daquilo que é a realidade, porque a NATO não ameaça ninguém. A NATO é uma aliança defensiva e aqui uma coisa que temos que dizer com toda a clareza.

E para terminar.

E para terminar, a NATO, e quando eu digo a NATO, digo os países que a compõem, a grande maioria deles, e aqui há que destacar, inclusivamente, os Estados Unidos, que tudo têm feito para que o conflito não alastre para fora das fronteiras da Ucrânia e tudo têm feito para que a própria Ucrânia não adquira meios que possam fazer escalar a guerra. Nós todos temos assistido a isto em direto e às vezes até com consternação, porque de facto a Ucrânia precisava de ser armada com equipamento de mais longo alcance e mais letal para que a guerra possa acabar mais rápido. Esta é que é a grande realidade.

Major-General Isidro Morais Pereira, muito obrigada por ter estado conosco. Foi mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador.

Muito obrigado eu.

Bom dia, general. Muito obrigada, igualmente.

Bom dia.