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Abrimos agora o novo Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões e esta manhã conto com a análise e opinião de António José Telo, professor catedrático de História na Academia Militar. Professor, bom dia, muito obrigada por estar conosco.
Bom dia, tenho todo o gosto.
O gosto é nosso. Professor, os Estados Unidos dizem que a Rússia vai violar as resoluções da ONU se chegar a um acordo de armas com a Coreia do Norte, isto depois dos líderes dos dois países falarem sobre uma maior cooperação. Professor António José Telo, o que podemos esperar das conversas entre Putin e Pyongyang?
Elas são reveladoras das dificuldades russas de conseguir manter o nível de produção da indústria de defesa necessário pra guerra. Por exemplo, é significativo que a Ucrânia tenha dito que nos mísseis que foram disparados ontem, ao examinar os componentes que sobreviveram, verificaram que os mísseis foram fabricados em abril, mas com chips que vêm da Europa. Ou seja, chips não deviam ter ido pra Rússia de acordo com as sanções. Fora isso, a Rússia está a utilizar e tem utilizado amplamente material do Irã, que o Irã diz que forneceu antes da guerra, mas a verdade é que em quantidade tal que tudo indica que é capaz de não ser exatamente assim. Além disso, chegou a um acordo com o Irã pra fabricar na Rússia os seus drones suicidas. Já tem mantido também contatos com a Coreia do Norte para tentar, sobretudo em termos de drones, que a Coreia do Norte tem uma indústria relativamente desenvolvida nesse campo. Já agora, sobretudo em termos de drones submarinos e semissubmersíveis, que é justamente os que a Ucrânia está a utilizar no Mar Negro. E a Rússia tem mantido contatos para conseguir obter material da Coreia do Norte. Para além dos drones, sobretudo munições. Aliás, a informação que vem dos Estados Unidos é que munições norte-coreanas já foram fornecidas à Rússia. Munições de artilharia de 152 milímetros já foram fornecidos. Portanto, é uma medida que não é surpresa e sim representa uma violação das resoluções da ONU, mas também não é muito para admirar que a Coreia do Norte faz sistematicamente esse tipo de violações.
Entretanto, o chefe de gabinete do secretário-geral da NATO disse que se a Ucrânia abdicar de parte do território, há uma possibilidade de facilitar a adesão à Aliança Atlântica. Entretanto, professor José Telo, Podoliak, conselheiro de Zelensky já reagiu, diz que é um absurdo e que seria a derrota da democracia, encorajar crimes globais, preservar o regime russo, destruir o direito internacional e passar a guerra para as gerações futuras.
O que me parece é que esta afirmação foi infeliz, de facto. Porque se alguém está a sofrer o peso da guerra e se alguém está a sofrer a todos os níveis, quer militares, quer civis, é a Ucrânia. Portanto, é a Ucrânia que sabe o que pode aguentar e a que sabe valorizar esse sacrifício que está a fazer, é um sacrifício muito importante em termos justamente de manter o seu território e de manter o seu território tão intacto quanto possível. Portanto, ela é que pode fazer essa avaliação e só ela é que eventualmente, coisa que não aconteceu até agora, poderá um dia dizer: "Bom, o preço é demasiado elevado, vamos negociar". Mas isso não foi feito até agora. Estar a fazer pressão sobre a Ucrânia pra que faça isso, eu só posso dar razão ao porta-voz ucraniano, porque repare, se a Rússia tem uma vitória clara nesta guerra e se consegue impunemente roubar um território muito importante à Ucrânia, porque a Rússia ocupa atualmente um território onde está a maior central nuclear da Europa e onde está a maior siderurgia ou a segunda maior siderurgia da Europa. É um dos grandes centros da indústria pesada ucraniana. Se a Rússia consegue engolir isso, além dela ficar substancialmente reforçada, na realidade, chega a uma conclusão: é que impunemente pode roubar o que quiser aos territórios vizinhos. Porque sendo um poder nuclear, terá sempre a chantagem do nuclear. E como tal continuará a fazê-lo. Talvez não de imediato, porque ela também está esgotada e está claramente esgotada com esta guerra, mas continuará a fazê-lo. Um ladrão que rouba e que permanece impune, que não é castigado pelo seu crime, que pratica o seu crime sem qualquer problema, obviamente vai continuar a praticá-lo, não vai ficar satisfeito com aquilo que roubou, achará sempre que é pouco. Enquanto a antiga URSS não tiver receita, achará sempre que é pouco. E já agora, por que não refazer também o Pacto de Varsóvia e avançar pela Polônia adentro e por outros países adentro? Portanto, não há dúvida que uma vitória russa, para além de não manter a paz e assegurar a instabilidade na Europa, para além disso, seria uma catástrofe pra economia europeia. E a Europa cairia radicalmente e pessoalmente, tenho dúvidas se a União Europeia resistiria a uma clara vitória da Rússia. É capaz de não resistir, é capaz de implodir. Até porque há claramente divisões sobre o que fazer nessas circunstâncias e essas divisões têm se acentuado nos últimos tempos.
Ainda a notícia de que a Rússia pode vir a reconsiderar o uso de bombas de fragmentação na Ucrânia, as tais bombas que dispersam até centenas de munições menores numa área do tamanho de um quarteirão. Professor, este é mais um aviso ao Ocidente depois dos Estados Unidos terem fornecido este tipo de armamento a Kiev?
O "pode vir a reconsiderar" é uma afirmação muito duvidosa, porque a Ucrânia tem dito que a Rússia tem usado, desde o começo da guerra, esse tipo de bombas. A Ucrânia que não as tinha, mas a Rússia tinha e, segundo a Ucrânia, tem usado.
Exatamente.
A Rússia nega, mas há tantas coisas que a Rússia nega que, de facto, se veio a verificar que não são verdade, não há nenhum motivo pra pensar que esta não é mais uma delas. Esse "pode vir a reconsiderar" é mais um elemento da guerra de propaganda, porque, de facto, segundo a Ucrânia, a Rússia tem usado sistematicamente esse tipo de bombas.
No fundo, é como se agora a validar. Uma vez que os Estados Unidos forneceu, agora também podemos usar. Mesmo já usando.
A questão aí está, em larga medida, no primeiro uso. Se a Rússia sistematicamente usa, de facto, a Ucrânia sente-se legitimada pra o fazer, tanto mais Kiev está a usar no seu território. Se futuramente houver problemas com essas bombas, certamente haverá, quem mais vai sofrer é a Ucrânia. Mas a Ucrânia já está a sofrer com as bombas de fragmentação russa, que ainda por cima há uma porcentagem maior dessas munições que ficam por explodir, 30%, segundo dizem. Enquanto nesse tipo de bombas de fabrico americano, serão à volta dos 3, 4%, até 10 vezes menos. A Ucrânia, disso, mais uma vez, ela é que pode fazer a avaliação.
Claro.
Se o custo que vai pagar compensa ou não essa utilização quando, segundo a Ucrânia, a Rússia já está a usar.
A Rússia, que diz ter destruído três drones ucranianos que sobrevoaram esta madrugada a região de Kaluga, isto a poucos quilômetros de Moscovo. Não há registro de vítimas ou de infraestruturas danificadas, mas professor Zetél, pelas contas de Moscovo, este já é o quinto ataque aéreo desde o início do mês a Moscovo, ou pelo menos perto de Moscovo.
Sim, a Ucrânia tem desenvolvido um esforço significativo de fabrico de drones. Segundo parece, no primeiro momento, aproveitando drones antigos, alguns inclusive de origem chinesa, que foram fornecidos muito antes da guerra e segundo parece, eram utilizados para observação de colheitas, para efeitos agrícolas, e que a Ucrânia reconverteu em drones que poderiam levar explosivos e ser lançados e atingir alvos na Rússia. E depois têm que ainda fabricar drones de concessão própria, que têm um alcance crescente. Começaram com alcance de 300, 400 km, agora já falam em 1000 km. 1000 km consegue claramente ultrapassar Moscovo, consegue inclusive atingir alvos a norte de Moscovo. Até agora, esse é um esforço que é fundamentalmente simbólico, comparado com o esmagador castigo que a Rússia está a infligir à Ucrânia em todo o seu território, porque ainda ontem ou anteontem, foram enviados mísseis a Lviv, que fica em cima da fronteira da Polônia. Todo o território ucraniano está a ser atingido e estão sendo atingidos alvos civis e militares. Comparado com isso, o esforço ucraniano será sempre reduzido e será mais simbólico que outra coisa. Mas de facto, tem um efeito psicológico que poderá levar uma parte da população russa a pensar: "Afinal de contas, não estamos imunes. Afinal de contas, também podemos sofrer o castigo que estamos a infligir aos outros em larga escala". Nesse aspecto, e tendo em conta que isto é uma guerra fundamentalmente política, nesse aspecto é significativo. Agora, em termos dos estragos que provoca, são mínimos. Pelo que nós vimos de imagens de Moscovo, são janelas partidas e, em alguns casos, é um venanceu que tem um andar que está a chapiscar a parede. Não há danos significativos, porque é normal que esses drones levem uma carga muito reduzida, muito pequena.
Entretanto, e para terminar, professor António Zetél, a contraofensiva ucraniana continua a avançar no terreno. Na última hora, Kiev diz ter recapturado a cidade de Urozhaine, localizada na região de Donetsk. Que importância que isto tem?
O que é incrível nisto é que um ano e meio depois da guerra, a Ucrânia mantenha a iniciativa. E embora tenha tido um avanço, sem dúvida menor do que ela estaria à espera, esse avanço continua a existir e continua a fazer pressão sobre a Rússia. Evidente que a Rússia também faz pressão e é evidente que ambos os lados estão neste momento preocupados em reservar o seu núcleo de manobra, em mantê-lo intacto tanto quanto possível, tendo em conta justamente o que poderá vir aí. Há uma preocupação de ambos os lados de planear as manobras daqui até às chuvas, ou seja, até o final do verão, até o começo do outono, que não é muito tempo, são até finais de setembro, outubro. Depois vai abrir um período em que a manobra, pelo menos de meios mecanizados, estará muito prejudicada, porque se cria o famoso mar de lama.
Claro, sim. As operações, de resto, ficam mais complicadas.
Ficam mais complicadas, inclusive andar a pé. Um soldado enchia-se na lama até os joelhos. Mesmo dar passo é muito complicado, então em trincheiras, dá a imaginar, as trincheiras ficam alagadas.
Exatamente.
Altera por completo as condições. Trata-se de planear as operações até essa altura E o que é significativo é que a Ucrânia continua a fazer pressão, a Rússia também, mas o avanço russo é tão lento como o ucraniano, possivelmente ainda mais lento que o ucraniano. E a Rússia nem sequer se atreve a fazer um avanço que seja em território ucraniano por completo. O avanço que está a fazer na direção de Kharkiv é encostado à fronteira russa. Portanto, é no território ucraniano, mas num território ucraniano que está ligado diretamente à Rússia. Do outro lado da fronteira está a Rússia, o que significa que está a tentar minimizar os riscos desses avanços e com o uso massivo de meios de artilharia. Há aqui uma situação em que nenhum dos lados conseguiu obter os resultados que ambos anunciaram para este verão. A Ucrânia estava à espera de um avanço, segundo tudo indica, até ao Mar Azov e não conseguiu. Provavelmente não irá conseguir até ao final do verão. A Rússia falava em destruir o exército ucraniano e apesar dos discursos triunfalistas continuam a fazer, a verdade é que também não conseguiu. Antes pelo contrário, possivelmente está numa situação relativa pior do que está a Ucrânia neste momento. Em termos militares, há uma situação de impasse, mas um impasse que surge no momento em que ambos os lados apresentam sintomas claros de dificuldades em matérias de esforço, sobretudo do lado russo. A economia russa começa a sentir fortemente. Já vimos a debilidade política da Rússia com os movimentos do grupo Wagner. Mas agora a economia que nos dá sinais de que começa a sentir. O rublo, há nove meses, com 50 rublos comprava-se US$ 1, agora são precisos 100 rublos para comprar US$ 1. Duplicou a desvalorização. Uma desvalorização de 100%. É evidente que haverá sempre os que dizem: "Ah, mas no começo da guerra, o rublo ainda desvalorizou mais". É verdade. Simplesmente agora aumentou muito essa desvalorização. E agora citando um artigo muito interessante do New York Times, que dá a indicação de que a classe média russa, uma das coisas que costuma fazer é assim que recebe um ordenado, confia tão pouco no rublo, que corre para o mercado negro comprar dólares. Agora vai comprar menos dólares do que comprava. Mas que isto é algo normal na Rússia, que aliás em Moscovo e nas principais cidades russas, há um amplíssimo e vastíssimo mercado negro de compra de dólares, na medida em que o russo não consegue chegar a um banco e comprar dólares à vontade. Tem que recorrer ao mercado negro. Agora vai comprar menos dólares, o que significa que não confia no rublo, que sabe que vem uma inflação muito forte, desvalorização do rublo vai trazer uma inflação. E esse artigo também citava casos de fábricas russas que estão a fechar, porque lhes faltam componentes que anteriormente vinham do Ocidente e que agora não chegam. Inclusive fábricas, por exemplo, de camiões, de automóveis, que há componentes que não chegam. Apesar de os mísseis russos, segundo a Ucrânia, fabricados em abril, terem componentes da Europa. É uma situação que se agrava.
Sem dúvida. Professor António José Telmo, muito obrigada por fazer parte de mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia, professor.
Obrigado e boa tarde.
Muito obrigada, continuação.
"A malta é assim, eu acho que isto está a andar muito rápido e estamos a ir longe demais. Nós cruzamo-nos nos nossos trabalhos e ponto final. Não acham um bocado estranho andarmos aqui, promíscuo até, todos apaixonados uns pelos outros? Vocês sabem sequer se alguém tem cadastro?"
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