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Começa aqui mais um Gabinete de Guerra, dia 532 desta invasão da Rússia à Ucrânia, o dia em que se registou uma explosão numa fábrica a 50 km de Moscovo e também o dia em que um secretário do Conselho de Defesa e Segurança Nacional da Ucrânia veio dizer que a revolta protagonizada pelo grupo Wagner não passou de uma encenação. A nossa convidada hoje, Daniela Nunes, investigadora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, vai estar aqui à conversa com a Judite França e com o Miguel Videira.

Boa tarde e bem-vinda, Daniela Nunes. Começava por esta acusação feita por Oleksiy Danilov, do Conselho de Defesa e Segurança da Ucrânia, que afirma, como o Nelson aqui fazia referência, que a alegada insurreição liderada por Yevgeny Prigozhin, do grupo Wagner, mais não foi do que uma forma de Vladimir Putin tentar perceber que líderes militares lhe eram leais. Parece-lhe plausível esta narrativa?

Olá, boa tarde e obrigada pelo convite. Na realidade, essa ideia de uma encenação consentida pelo presidente Putin foi posta em cima da mesa desde que se soube que Prigozhin estava a caminho de Moscovo. Ou seja, por qualquer razão, a pessoa que tinha tido coragem de enfrentar o ditador não teve medo de ir ao encontro dele ou pelo menos de se deslocar até muito perto dele. Isto sim, é que é estranho. E por isso mesmo, motivou algumas teorias acerca da participação do próprio Putin numa espécie de exercício teatral para testar a lealdade dos seus generais e de toda a sua comitiva. Agora, esta ideia pode ganhar um pouco mais de robustez, sim, uma vez que o secretário do Conselho de Defesa e Segurança ucraniano, o senhor Oleksiy Danilov, confirmou em entrevista à televisão que já se podia mesmo falar de uma operação coordenada entre Putin e Prigozhin. E de facto, isto não parece nada descabido. A surpresa foi perceber que depois de um momento de insurreição, de uma queda drástica da imagem e da própria estabilidade da liderança russa, Prigozhin andava à solta e aparentemente muito confiante relativamente à sua sobrevivência.

Um bocadinho estranho.

Isto é que é bizarro no contexto ditatorial da Rússia de Putin. E a somar a isso, entretanto sabemos que houve pelo menos um general a sair dos radares televisivos e informativos, que é o general Surovikin. Sobre este assunto, acrescentava só mais uma coisa, que o secretário ucraniano disse nesta mesma entrevista, relativamente a este episódio do grupo Wagner. Na sequência deste episódio, de alguma maneira, vieram à tona algumas divergências dentro do coração do poder da Rússia e com a exposição destas divergências, o que agora acreditam estas figuras da defesa ucraniana é que novos momentos de rebelião e de insurreição possam vir a acontecer em breve. Ele falou especificamente no próximo outono-inverno, que é uma altura em que os russos vão certamente perceber que a guerra também tem implicações, obviamente negativas, para eles. E isso pode originar algum descontentamento que, quiçá, deflagre em algum momento de revolta.

Hoje é também notícia a decisão da Polónia de reforçar o contingente militar junto à fronteira com a Bielorrússia. Estamos a falar de 2000 soldados e acontece numa altura em que Minsk está a levar a cabo exercícios militares, precisamente na zona de fronteira. O ministro da Defesa, Sergei Shoigu, anunciou igualmente um reforço da presença militar junto às fronteiras com o Ocidente. Isto representa alguma ameaça real?

Estes exercícios, quer de um lado, quer do outro, são sobretudo uma questão de cautela, mas a realidade é que eles acabam sempre por fomentar algum medo, algum receio, aqui para o Ocidente, de que de repente a guerra esteja a desviar-se a oeste e a ganhar novos focos. Não é o caso, porque de ambos os lados estamos só, entre aspas, a falar de um reforço na presença de tropas na região fronteiriça, mas este reforço claramente motiva alguma desestabilização e também a necessidade de alguma reorganização em matéria de defesa na Polónia. O que importa aqui, e sobretudo para não fomentar demasiado este medo de que falo, é distinguir as coisas. E compreender que esta desestabilização não é uma forma declarada de guerra, por um lado. Por outro, é uma maneira muito eficaz, ainda assim, de provocar medo, de provocar agitação e instabilidade e, no fundo, tudo aquilo que a Rússia deseja para o Ocidente e que consegue fazer de uma forma quase gratuita. Não estando em guerra com a Polónia, consegue desestabilizá-la. É importante distinguir aqui as coisas e manter também alguma racionalidade para que, de repente, este tipo de reforços em zonas fulcrais, como é a fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, não motive demasiado alarme, sobretudo entre os populares.

Sergei Shoigu, ministro russo da Defesa, diz também que é intenção da Polónia ocupar a parte ocidental da Ucrânia, uma aliança polaco-ucraniana, com o pretexto de garantir a segurança dos dois países, sendo que, segundo Shoigu, o verdadeiro objetivo é ocupar parte do território ucraniano. Como é que interpreta esta leitura? Isto faz algum sentido?

Não, isso não faz sentido nenhum. Se isto não se tratasse de uma guerra, eu até diria que esse tipo de acusações e esse tipo de ideias seriam engraçadas e para rir. Mas como isto é uma guerra, vou só dizer que não faz sentido e que é absurdo. Não se trata de aliança nenhuma, não se trata de pacto nenhum, nem se trata de nenhuma intenção de ocupar parte nenhuma da Polónia ou da Ucrânia. O ministro da defesa russo certamente está mentalmente formatado para achar que toda a gente toma decisões e que os seus homólogos pelo mundo afora agem todos movidos por segundas intenções e, sobretudo, por intenções ligadas a pretensões expansionistas e territoriais, como são as suas e as do seu líder Putin. Portanto, isso não faz sentido nenhum. A Ucrânia já expressou declaradamente a sua vontade de pertencer ao mundo ocidental, às estruturas do mundo ocidental e às instituições do mundo ocidental. Portanto, não me parece nada descabido, nem me parece que haja aqui nenhuma segunda intenção por detrás de um dos membros desta comunidade ocidental, que é a Polónia, agir de alguma maneira para livrar a Ucrânia ou ajudar a Ucrânia a combater este monstro russo que de repente está a querer atacá-la e roubar-lhe parte do seu território e do seu património.

Durante a visita a Portugal, o Papa Francisco criticou de alguma forma o papel da Europa neste conflito. Considera que os europeus não têm feito o suficiente para que se encontre uma solução negociada para este conflito? Revê-se de alguma forma nesta crítica?

Não me revejo exatamente, mas também não estou segura de que o discurso do Papa Francisco possa ser considerado, ou exclusivamente considerado, como uma crítica no que diz respeito a este assunto. Eu talvez substituísse essa palavra por alerta, no sentido em que, para o Papa, é evidente que a origem da guerra não está na Europa que ele descreveu, nem está nos europeus. E, portanto, as suas palavras são, sobretudo, as palavras de uma tomada de consciência sobre a necessidade de continuar a criar caminhos e estratégias novas que possam conduzir à paz. E aliás, como sublinhou o Papa, este é o espírito europeu, o de promover o diálogo e a paz. A questão é que tudo isto tem um senão, que é um senão muito grande e que tem a ver com o interlocutor da Europa nesta guerra. Ninguém na Europa, nenhum europeu quer a guerra, ninguém concordará que a guerra é uma coisa boa. Aliás, eu arriscar-me-ia mesmo a dizer que a maioria dos russos, certamente, também vê esta guerra como absurda e indesejável. E até os russos que ainda não conseguem ver isso, não vão demorar muito mais a perceber que as consequências deste conflito cada vez mais lhes vão bater à porta. E isto para dizer o quê? Que a guerra na Ucrânia é a guerra de uma pessoa e é a guerra dos impulsos e das pretensões imperialistas dessa pessoa, só. Logo por azar, essa pessoa é a mais importante, porque é a que está ao comando de uma potência territorialmente gigante, com muitos recursos humanos para fazer guerra, com dinheiro, com armamento, com capacidade nuclear e, portanto, só o espírito europeu de conversação e de diplomacia não chega para fazer frente a estas pretensões. Ou seja, de repente, a Ucrânia não pode simplesmente oferecer à Rússia a hipótese de uma paz negociada, que obviamente implique cedência de território ucraniano, porque no dia a seguir esse acordo de paz deixava de existir a Europa como nós a conhecemos pintada no mapa. Ou seja, o mais provável era que viéssemos a assistir a várias réplicas da operação militar especial, sobretudo em zonas que são zonas nevrálgicas da memória russo-soviética.

Daniela, consegue vislumbrar nesta altura, um ano e meio depois do início da guerra, da invasão da Ucrânia, alguma solução de paz ou por ora esse desfecho é apenas uma miragem?

Eu julgo, infelizmente, que por agora esse desfecho é uma miragem. Os russos estão a investir, não só do ponto de vista bélico, não só do ponto de vista daquilo que é a guerra no terreno, os russos estão a investir num exercício de destabilização do mundo ocidental que vai além da destabilização da Ucrânia no terreno. E aquilo que estamos a ver, por exemplo, neste caso de que estivemos a falar agora, na Bielorrússia e na Polónia, na fronteira entre estas duas, mas também os ataques na região de Odessa, muito perto de território NATO, são exercícios de provocação que levam a crer que as pilhas do presidente Putin ainda não estão perto de estar gastas. E não prevejo, infelizmente, que a guerra possa terminar este ano, nem no próximo. Espero que sim, ainda assim, espero que uma solução para a paz, que obviamente não implique cedência de território ucraniano, porque isso teria repercussões depois no resto da Europa, quer queiramos, quer não, espero que uma solução para a paz esteja para breve, ainda que para já esse não pareça um cenário muito realista.

Daniela Nunes, muito obrigado pela sua disponibilidade e pelo contributo que deu para este Gabinete de Guerra. É investigadora no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, a convidada desta quarta-feira, deste programa Gabinete de Guerra, que analisa as principais notícias do dia relacionadas com a invasão da Ucrânia.