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Diogo Teixeira Pereira, começam a dar-se conta de que, devido ao conflito entre a Ucrânia e a Rússia, se verifica um aumento da procura por medicamentos à base de iodeto de potássio. O medo do nuclear começa também a tornar-se real, se esta informação se confirma. Uma substância que é utilizada em casos de exposição à radioatividade, está a aumentar a procura, Diogo.

É pelo menos isso que dizem alguns profissionais de saúde. Ana Isabel Pedroso, médica especialista em medicina interna, confirmou na página profissional que tem no Facebook, que já há rutura de stock um pouco por toda a Europa e também por cá, por Portugal. A doutora Ana Isabel Pedroso é nossa convidada. Olá, boa tarde. Obrigado por se juntar a nós.

Boa tarde.

Eu começava esta conversa para que consigamos acompanhar este assunto de forma mais clara, por lhe perguntar o que é o iodeto de potássio.

O iodeto de potássio é um composto de iodo e que é muito relevante para a tireoide. Aqui o que é importante é perceber a que nível é que podemos ser atingidos, como é que isto se pode relacionar com uma bomba nuclear. Quando uma bomba nuclear explode, alguns isótopos radioativos, há radioatividade que é libertada. Esta radioatividade no composto de iodo 131. Isto são tudo estudos relacionados com Chernobyl, com o acidente de Chernobyl.

Na Ucrânia, precisamente.

Na Ucrânia. Estes isótopos depositam-se na tireoide e os estudos feitos a posteriori, com os sobreviventes, vieram a revelar que muitas crianças e mulheres tiveram cancro da tireoide, relacionado exatamente com o facto de terem estado expostos a esta radiação. A partir daí fizeram-se vários estudos e percebeu-se que a toma de iodeto de potássio, se for feita logo a seguir à exposição à radiação, vai entrar em competição direta com este isótopo, não permitindo que ele se deposite na tireoide e, portanto, é um medicamento que nos salva, entre aspas, deste cancro da tireoide, que pode vir a ser provocado por esta radiação. Aqui a ter em atenção, o iodeto de potássio não é fácil de adquirir, tem uma carga bastante alta. É recomendado 130 mg num adulto, isto é muito iodeto de potássio, e se a pessoa não tiver a certeza que esteve em contacto com a radiação, torna-se bastante letal para a saúde.

Só para que fique claro, eu creio que ficou, mas só para reforçarmos aqui essa ideia. No caso de haver uma exposição a este tipo de radiações, o iodeto de potássio pode ser eficaz.

Pode ser eficaz no caso do cancro da tireoide. Exatamente.

Mas deve ser, isso também é importante referir, receitado por um médico.

Sim, nem é possível adquirir este fármaco de outra maneira. Claro que estes povos que estão mais próximos fisicamente desta zona de Chernobyl, como por exemplo a Polónia, são povos que já estão habituados, ou seja, habituaram-se a seguir a isto e têm toda uma cultura que nós não temos em Portugal acerca deste tipo de acidentes, como este acidente nuclear.

E faz sentido tomá-lo de forma preventiva?

Não, de forma preventiva não. Isto só deve ser tomado após o contacto com a radiação. Este fármaco é para acidentes.

Nós tivemos indicação por algumas notícias, em ambiente de guerra sabemos como são muitas vezes contraditórias, de que alguns índices de radiação terão aumentado junto da antiga central de Chernobyl, e esse será o único sítio onde possivelmente essas radiações poderão ter aumentado. Não havendo indicação de que haja radiações mais altas em mais nenhuma parte da Europa ou até de Portugal, não faz sentido que as pessoas corram para este medicamento.

Não. E além do mais, é um medicamento perigoso. Perigoso se não estiver em contacto com a radiação. Ele serve apenas para este propósito. As pessoas estão habituadas ao iodo, inclusivamente as grávidas fazem, mas é numa dose muito mais pequena. Esta dose recomendada para acidentes nucleares é uma dose muito alta e só deve ser feita se tivermos a certeza que estivemos expostos.

E olhando também para aquilo que é este medo que pode estar por trás desta corrida ao consumo deste medicamento, ou pelo menos a adquirir este medicamento, também não pode gerar problemas numa outra via, de este medicamento ser necessário para tratamento de outras doenças ou para a prevenção de outras patologias e estar a ser adquirido de forma não correta?

Não. Neste momento, penso que não é isso que se trata. Eu acho que aqui o importante, acho que é uma mensagem também a passar, é o que podemos fazer e o que teríamos que fazer se houver realmente um acidente nuclear. Eu acho que se calhar deveríamos estar a informar a população de que tipo de atitudes é que nós deveríamos ter, porque não é uma coisa que a gente aprenda na escola.

E que tipo de coisas, relativamente não só à toma do iodeto de potássio, há alguma outra?

Nós sabemos que a radiação se transmite, portanto a ideia é literalmente ir para um bunker, se for abaixo da superfície, melhor ainda, não sair nas 48 horas após o acidente nuclear. Saber que após o acidente nuclear, normalmente após 15 minutos, há uma espécie de chuva. Houve muita gente que não faleceu logo da bomba nuclear e também do acidente de Chernobyl, e que acabou depois por ter estas questões com chuva e com outras questões ambientais. A parte radioativa fica muito tempo no ar e é preciso ter algum cuidado. É preciso ter também depois cuidado, por exemplo, com as águas, porque as águas já não ficam potáveis. Há uma série de coisas que nós se calhar devíamos estar a aprender e a falar mais. E o iodeto de potássio É algo que está justificado cientificamente, mas neste momento é impossível de adquirir.

E olhando também para outras substâncias que possam ajudar de alguma forma a prevenir os riscos de uma exposição à radiação, existe mais alguma?

Desculpe, não ouvi.

Relativamente a substâncias como o iodeto de potássio, que possam também em complementariedade, em caso de um cenário destes ser real, de exposição à radiação, se há alguma outra substância, algum outro medicamento que possa ajudar na prevenção de complicações.

Não, que eu tenha lido, não. Quando se entra em contato direto com este tipo de radiação, os sintomas normalmente, para além da ulceração da pele, que é óbvia pela queimadura direta, são vômitos, diarreia, mal-estar geral. No fundo, é tratar um pouco esta sintomatologia e as disfunções de órgão que forem aparecendo. Não há muito mais a fazer, não há um medicamento eficaz para isto e é algo muito sério e que espero profundamente que não aconteça.

A doutora Ana Isabel Pedroso falou sobre outras pessoas que precisam desta substância, do iodeto de potássio. Falou, por exemplo, das grávidas. Esta corrida que se verifica pode, de alguma forma, deixar destapadas outras necessidades e criar outro tipo de problemas a quem precisa verdadeiramente destes medicamentos?

Vou-lhe dizer que não, porque, por exemplo, aquilo que está recomendado para as grávidas é tão menor, que tinha que tomar bem mais do que uma caixa. Tinha que ser várias caixas para atingir aquilo que um comprimido, ou dois comprimidos, no caso, porque o dos adultos, os comprimidos são de 60 mg e a dose é 130 mg. Dois comprimidos daqueles, a dose de grávidas são várias caixas. Não acredito, quer dizer, espero que as pessoas não o façam.

E consegue perceber como é que está a ser feita, a doutora Ana Isabel Pedroso fala mesmo em ruturas de stock em alguns países, uma vez que este medicamento tem que ser receitado e, de certa forma, o acesso a ele é difícil, tem ideia de como é que as pessoas estão a conseguir acabar com estes stocks? No fundo, como é que estão a conseguir aceder a este medicamento? Será de forma ilegal?

O acesso a ele é difícil no nosso país.

Há outros países onde será mais fácil?

Exato, onde será mais fácil, porque têm uma cultura para acidentes nucleares completamente diferente da nossa.

E estamos a falar aqui de que países? Países de leste, Ucrânia, Rússia, também Alemanha? Sim, países de leste, maioritariamente.

Sim, países do leste, maioritariamente. Alemanha, Países Baixos também têm uma atitude diferente relativamente a isto. E deixar só aqui um apontamento: que não está indicado para maiores de 45 anos, porque não ficou comprovado que tivessem maior probabilidade de cancro da tiroide, e privilegia-se sempre as crianças e as mães grávidas.

Sim.

Na toma.

E no caso português, esses medicamentos estarão a ser importados desses países?

Eu penso que sim. Neste momento, se eu prescrever como médica e se alguém quiser ir procurar nas farmácias, penso que será mesmo muito difícil de encontrar, porque nem sequer é um medicamento que utilizemos no nosso dia a dia, não nestas doses.

Mas haverá nesses países também, onde está a dizer que esse risco é mais visível, talvez nos países até que têm centrais nucleares, não é o caso de Portugal. Essa informação está a passar de forma errada, porque haverá muitas pessoas a tomar este medicamento de forma preventiva, quando isso não deve acontecer.

Exatamente. Isto não é suposto ser preventivo.

E portanto, fica também-

Que fique bem claro. Sim.

Fica também essa indicação. A doutora já foi procurada por pessoas que estão com medo destas implicações?

Sim, eu acabei por escrever o post que estava a falar com artigos científicos a fundamentar o meu post, eu nem sequer me tinha percebido ainda, mas precisamente por ter recebido várias mensagens de pessoas a questionar-me se devem ou não tomar, se devem ou não procurar, e portanto, realmente dei de caras com os variadíssimos artigos científicos que fundamentam a toma do iodeto de potássio em caso de acidente e não sempre em caso de profilaxia.

E consegue perceber exatamente de que as pessoas têm medo? Estamos a falar do medo de uma ogiva nuclear, como se tem falado nos últimos tempos, ou será mesmo receio de que possa haver problemas em centrais nucleares?

Eu penso que seja da ogiva nuclear e não tanto o receio das centrais, sinceramente. Mas eu acho que quando nós estamos a pensar em tomar o iodeto de potássio, nós não estamos a pensar que vamos estar assim tão perto da bomba. Nós estamos a pensar que vamos levar com a radiação, mas não o suficiente para ter, por exemplo, úlceras ou outro tipo de efeitos. Eu penso que as pessoas quando pensam nisto, pensam numa destruição total e como ouviram falar disto, dá-lhes um certo nível de segurança, que eu acho que no fundo é aquilo que nós todos procuramos. Nós precisamos nos sentir seguros, que aquilo que nós sentimos desde há 13 dias é uma insegurança brutal. Eu penso que é isto.

E, portanto, também seguros nesse lado médico, digamos assim. Uma segurança extra que pode advir desses medicamentos que já percebemos aqui também podem ter implicações para a saúde, porque não estarão a ser usados de forma correta. Antevê que possa haver aqui algum tipo de aumento do número de casos de problemas de saúde relacionados com a toma indevida deste tipo de medicamentos ou acha que ainda não chegamos a essa fase?

Eu acho que ainda não chegamos a esta fase. Acho que ainda ninguém está a tomar este tipo de medicamentos. Acho é que já há muitas pessoas que o têm, principalmente as pessoas que moram perto daquelas zonas e que têm receio, e com toda a razão para terem receio, que haja algum tipo de acidente nuclear.

Muito bem. Muito obrigado, doutora Ana Isabel Pedroso.

Obrigada pelo convite.

Muito obrigada. É especialista em medicina interna e esteve nos últimos minutos a falar sobre esta substância que está a ser requisitada, digamos assim, por muitas pessoas, o iodeto de potássio, que já estará esgotado em algumas farmácias. Este medicamento, como percebemos, Vicente, serve para tratar uma possível exposição a radiações nucleares, mas, e é importante também que fique claro, não é um medicamento preventivo, serve apenas para tratar depois dessa exposição acontecer. Mas, pelo que sabemos e por aquilo que percebemos por esta especialista em medicina interna, já há uma rutura de stock um pouco por toda a Europa, dos medicamentos que têm esta substância ativa e também por cá já começa a haver essas ruturas e tudo relacionado com a ameaça nuclear que tem estado presente nos últimos dias por causa do conflito na Ucrânia.

E com o medo que também tenha gerado um pouco por todo o mundo. Diogo Teixeira Pereira, fechamos por aqui este Gabinete de Guerra.