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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Gabinete de Guerra por estes dias centrados no conflito no Médio Oriente. É hoje nosso convidado o professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Senhor professor, boa tarde. Obrigado mais uma vez pela sua disponibilidade. Começamos por essa declaração de Donald Trump, disse que a guerra está praticamente concluída. Podemos esperar o final do conflito a curto prazo ou devemos temer, tendo em conta aquela declaração feita, por exemplo, em relação ao terminus do conflito na Ucrânia, disse o atual presidente dos Estados Unidos que conseguia pôr termo a esse conflito em 48 horas.
Boa tarde, Miguel. Essa introdução foi extraordinária, porque é um pouco assim realmente a maneira como comunica Donald Trump e a incerteza que cria. Em boa verdade, é uma técnica de negociação bem conhecida, sempre numa linha de soma zero e em que ele procura atingir objetivos forçando sempre até o limite e depois retraindo um bocado e alcança parte do sucesso e pode evocar esse sucesso alcançado, essa parte alcançada do bolo global, que é sempre um pouquinho mais do que tinha no início, naturalmente. Eu acho que Donald Trump foi surpreendido neste contexto, apesar de ter sido avisado pelos comandos militares que não seria uma ação rápida e decisiva, seria impossível ir por esse caminho. Eu acho que ele sempre acreditou numa solução tipo Venezuela e que eventualmente haveria uma capitulação imediata do Irão, mas isso demonstra algum desconhecimento em relação à capacidade de resistência do povo iraniano, com características de resistência face a um adversário externo e que a cultura xiita acaba por exacerbar. Parece não se ter preparado para esse cenário mais perigoso, apenas para o mais provável, em que realmente haveria essa capacidade de impor uma decisão rápida, mas não preparou este mais perigoso do Irão tentar reagir e tentar resistir o mais possível. Isso fica provado na tentativa contínua de justificar, na mudança de designação dos objetivos. Aliás, não sabemos verdadeiramente que objetivos políticos é que esta operação tem, se era a mudança de regime. Já disse que sim, já disse o contrário. Se era única e exclusivamente a decapitação do projeto nuclear, da capacidade balística, da ação dos proxies, o apoio aos proxies. E em boa verdade continuamos sem ver atingido o que parecia ser um objetivo natural que era a reconfiguração do Médio Oriente, em que haveria a intenção de alterar a relação de forças e colocar Israel como uma potência pan-regional, obviamente um pouco mais próxima da Arábia Saudita, talvez através de acordos de Abraham, mas de certo modo ser a potência diretora e o Irão ser completamente irrelevante neste contexto. Por outro lado, obviamente seria também controlar o mercado de energia e não nos parece que tenha sucesso assegurado nesses dois campos.
Sim, os mercados financeiros é isso que indicam, não é? Com esta contínua subida do preço de energia.
Exatamente, sem dúvida. Aliás, o prolongar do conflito irá criar exatamente isso, desgaste e instabilidade. O desgaste é óbvio, militar, seja da parte operacional e logística, a nível de intersetores, seja pelo número, seja pelo custo, pelas dificuldades de reabastecimento, seja o que implica de reposição das cadeias de abastecimento militares e, portanto, retirar eventualmente até inclusivamente de outros locais, seja a nível político, o desgaste também com a base de apoio MAGA, com as eleições que se aproximam. Em nível internacional, com os países do Golfo, e já ficou bem patente, inclusivamente ontem com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita a dizer que estavam em causa os investimentos nos Estados Unidos. Isto com a instabilidade e insegurança que os mercados, e como bem o Miguel estava a referir, seja de energia, seja normal do comércio internacional, já levou inclusivamente a diretora do FMI, Georgieva, a referir que preparem-se para o impensável. Já há quem fale numa recessão global e que, portanto, poderá estar em causa muito do que tínhamos como ponto de partida. Definitivamente está pressionado e o Irão não está a facilitar, também está a fazer o seu papel. Teve algumas ações muito eficazes, nomeadamente a decapitação da liderança, capacidade de controle da defesa aérea, ou seja, tem uma superioridade, ainda não supremacia aérea, mas uma superioridade que lhe permite alguma liberdade de ação. Teve sucesso em ataques a sites nucleares e balísticos, mas continua sem ter o processo completamente controlado, que possa dizer que tem a missão praticamente concluída. Como diria Sun Tzu, e não vou fazer uma citação correta, mas fica a ideia: sabemos quando uma guerra começa, mas não sabemos quando ela acaba. E portanto, é este exatamente o momento em que Trump está, até porque o Irão já veio dizer que não será Trump a determinar quando é que terminará a guerra.
Assim será manifestamente exagerado dizer que esta guerra está praticamente concluída, suponho.
Sim, nitidamente. Vou te dizer, Trump poderá evocar com tantas coisas que já disse, que seja o que for que alcance, que foi um sucesso. Já dizíamos isso ainda antes do conflito começar. É uma técnica que ele usa, mas em boa verdade, ainda há grandes objetivos que não foram alcançados, seja a nível militar Seja a nível estratégico, seja a nível político. Ainda teremos algo pela frente, não conseguimos ter certeza se serão as tais quatro semanas que foram faladas ou se poderemos pensar em um pouco mais.
Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, está alinhado com os objetivos de Donald Trump?
Só em parte. Não está totalmente. No que concerne à proteção de Israel sobre a reação à ameaça existencial que o Irã constituía, pensando um pouco na segurança de Israel, penso que sim. A inibição da capacidade nuclear de mísseis balísticos, do tal proxies que de alguma forma o Irão tem apoiado também, Israel ser a tal potência pan-regional no Médio Oriente, também parece que sim, mas a nível político há aqui outras questões que estão a criar alguma instabilidade. Logo à partida, os Estados Unidos não querem para si o caos e a instabilidade na região. Não querem um vazio de poder que pode dar origem a uma guerra civil. Essa tal instabilidade que já está sendo muito criticada, seja regionalmente pelos países do Golfo, seus aliados, seja mesmo a nível global, pode inclusivamente vir a impedir a tal retração estratégica. Já temos falado aqui na retração estratégica do Médio Oriente e concentrar-se na Ásia-Pacífico, nomeadamente na competição com a China. Portanto, é uma direção que apesar dos Estados Unidos nunca terem sido fortes no day after, tem um mínimo de referência de estabilidade para futuro. Israel não, Israel quer uma mudança de regime, quer uma derrota definitiva, quer explorar o sucesso militar. O vazio de poder e a guerra civil acaba até por servir os interesses de Israel, como já foi no caso da Síria, etc. Acaba por ter um incremento de segurança se a instabilidade interna do Irão persistir. Nesse sentido, há aqui divergências que poderão obviamente ser mais evidentes, por exemplo, em situações práticas como o ataque dos curdos a norte, que é um ponto muito sensível, ou mesmo como já aconteceu e que motivou reação por parte de Washington, ataques a infraestruturas petrolíferas que Israel não vê com maus olhos e que os Estados Unidos definitivamente não pretendem. Ou seja, e em resumo, acordo de princípio sobre o adversário Irão, o método e o end state é definitivamente diferente entre as duas capitais.
Sr. Professor, abordemos agora a capacidade militar do Irão. Há a indicação de que o Irão recorreu a apenas 18 mísseis no último ataque, um decréscimo significativo face à resposta inicial de Teerão. Está o regime exaurido, pronto para capitular incondicionalmente, como chegou a pedir Donald Trump?
Começando. Em primeiro, é um facto que realmente ontem só houve ataques com 18 mísseis balísticos, não há dúvida quanto a isso. Há aqui um jogo entre mísseis balísticos e drones. Ontem, no entanto, já foram utilizados 134 drones. Não está com a capacidade inicial e há um desgaste natural, não há a mínima dúvida. Teve inclusivamente a morte de Badrd, líder das milícias Basij, é importante nesse sentido e tem sido decapitado nas suas lideranças. Mas a verdade é que o Irão estava muito bem preparado para este segundo embate e em particular está a tentar resistir através da descentralização de comando e controle, tem os objetivos bem conhecidos e há realmente uma ação concertada previamente que leva a que através de um núcleo duro sem cisões evidentes, tenha conseguido manter esse objetivo maior de resistência. Repare que para eles, Teerão um mês é um sucesso. É um sucesso se conseguir resistir um mês, porque de certo modo abre portas a alcançar uma crise política ou econômica a nível global, começando pelos países da região, que os pode vir a salvar e é isso exatamente, é jogar um pouco com o relógio. Vai reservando algumas capacidades, é uma evidência, seja a nível de mísseis, seja os drones a jato que ainda não apareceram em teatro, e mesmo a utilização da carta Otis que neste momento poderia vir a complementar a ação no Estreito de Ormuz com uma disrupção das linhas de comércio internacional na região do Mar Vermelho. De alguma forma, inclusivamente as recentes ações, seja com ameaças diretas a Trump, seja quando dizem que quando acaba a guerra não é decisão de Donald Trump, ou seja, inclusivamente a nomeação de Ayatollah Khamenei como sinais de entrincheiramento do regime e concentração de linhas e uma preparação para reagir, porque de certo modo eles sabem que estão contra a parede e o regime está sob ameaça existencial. Eles perceberam bem as características ocidentais e vão jogar com o tempo o mais que conseguirem.
Sr. Professor, há pouco falávamos de Israel e de Benjamin Netanyahu. Há tropas israelitas junto à fronteira com o Líbano. Vai mesmo acontecer um ataque terrestre? E se sim, com que objetivos?
Essa campanha contra o Hezbollah, em primeiro lugar, foi o Hezbollah que abriu a segunda frente, naturalmente coordenado. Mais uma vez parece realmente ser um plano perfeitamente identificado, criando uma segunda frente para eventualmente desviar o foco de atenção das FDI do território iraniano Por outro lado, Israel pretende explorar o sucesso militar que tem tido. É o momento de alguma fraqueza por parte do Hezbollah, seja no sentido direto, que ainda estava a reorganizar e reequipar fruto das ações do ano passado, e tem um menor apoio internacional, apesar de ainda ir tendo, em boa verdade, já não tem aquele apoio que recebia, seja do Irão, seja de outros proxies, como os Hezbollah da Síria e do Iraque, e portanto está num momento de fraqueza que poderá ser aproveitado por parte de Israel. A soberania do Líbano está em causa e realmente já motivou um número extraordinário de refugiados, portanto é algo muito complexo. E Israel, de certo modo, já fez a projeção de forças operacional e está em espera para avançar. Parece que estão reunidas as condições e que será verdadeiramente para criar uma buffer zone, talvez não só a sul do rio Líbano, que era essa a referência, inclusivamente tem uma força UNIFIL que deveria estar a assegurar isso mesmo, mas que não tem tido essa capacidade, mas talvez penetrar um pouco mais no território, visto que o Hezbollah usa vetores de longo alcance no ataque a Israel. Nesse sentido, e porque as ameaças começam a ser cada vez mais intensas, poderá equacionar-se uma ocupação efetiva do sul do Líbano, no tal território abaixo do rio Líbano, a sul do rio Líbano, mas também a impactação, o ataque direto a posições específicas mais a norte. E isso poderá ser perigoso porque são zonas populacionais, são zonas em que os danos laterais podem ser elevados, visto que os refugiados foram retirados apenas da zona sul e, portanto, poderá criar algum tipo de impacto sobre a população civil, o que é extremamente perigoso.
Professor, temos um minuto. O senhor professor sugere mais um tema. A Rússia ofereceu-se para mediar o conflito no telefonema de Putin com Donald Trump. É um mediador credível? Pode ser esta uma solução para o conflito?
Tudo o que possa vir a ajudar é bom, mas neste momento temos algumas dúvidas. A Rússia tem estado a assistir cadeirinha a toda este teatro de operações, tem apoiado com intel, com informações os alvos israelitas e norte-americanos, portanto apoio a Teerão. Tem beneficiado no curto prazo com subida de preço de petróleo, da atenção do teatro da Ucrânia, ou seja, o não apoio às forças ucranianas e diversão dos apoios para emprego operacional para o outro lado, mas acaba por perder no médio e longo prazo, que é isso que tenta agora recuperar. Perde a influência, perde a presença estratégica no Médio Oriente, perde a capacidade de influenciar no Médio Oriente, numa região particularmente importante do globo, como se sabe. Portanto, tenta salvar a face, é um mediador possível. Os mediadores têm que ser capazes de ser ponto entre as duas partes e terem capacidade de concretizar e fazer cumprir. Seria o reconhecimento como grande potência, Trump já o trouxe do isolamento que tinha, isolamento internacional, seria dar outra prenda nesse sentido. Mas tenho francas dúvidas que seja respeitada, porque não tem essa capacidade de fazer cumprir. Portanto, nesse sentido, parece mais uma ação de marketing que Donald Trump se prestou a aceitar, mas que verdadeiramente, na prática, não será concretizável.
Professor Jorge Rodrigues, muito obrigado pela sua presença mais uma vez neste gabinete de guerra. Professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, que hoje nos ajudou a interpretar alguns dos factos mais recentes relacionados com este conflito no Médio Oriente.