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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que falamos dos conflitos em curso: Ucrânia, claro, o Médio Oriente, centrado no conflito entre Israel e Palestina durante os últimos meses. Mas agora também falar sobre o que se passa na Síria. Hoje contamos com a análise de Madalena Mayer Rezende, especialista em assuntos europeus. Muito boa tarde, obrigado por estar conosco. Comecemos por declarações hoje do Irã, do líder supremo do Irã, que diz que Estados Unidos da América e Israel são responsáveis pela queda do regime de Assad na Síria. Não seria de esperar outra posição do Irã?

Sem dúvida, realmente o Irã é o grande perdedor da queda de Assad e está a tentar diminuir as suas perdas. E obviamente que os bombardeamentos que os Estados Unidos e Israel têm levado a cabo nestes últimos dias, em alvos na Síria, também abrem a porta, de certa maneira, a que o Irã possa fazer essas declarações. Eu acho que essas declarações também têm um consumo interno, ou seja, de fato, o Irã está num momento de fragilidade interna bastante acentuado, com uma liderança muito envelhecida e com problemas de sucessão, e esta grande derrota na Síria também o fragiliza ainda mais. E, portanto, esta abertura que a Síria dá a que os Estados Unidos e Israel tenham papel, que ganhem ainda mais poder na região, é obviamente mal vista pelo Irã e é assinalada dessa forma.

Sendo que os Estados Unidos têm tido aqui um papel ativo, principalmente de declarações nos últimos dias. Os Estados Unidos pedem uma transição política inclusiva. Estas declarações surgiram já nas últimas horas, sendo que vamos ter também uma visita de Blinken à Turquia durante esta semana, mas a administração Biden pediu aos rebeldes sírios que lideram a ofensiva que levou à queda do regime de Bashar al Assad, que não assumam automaticamente a liderança do país e que devem avançar um processo político inclusivo para que seja formado um governo de transição entre todas as forças, todos os interesses que existem na Síria. Os Estados Unidos estão a posicionar-se, podem ter também algum interesse nesta nova vida da Síria?

Sem dúvida que a Síria vai ser agora um dos campos de batalha entre as grandes potências no Médio Oriente. A questão da transição é obviamente crucial. Há que lembrar que a Síria tem sido um país extremamente violento no século XXI, mas já no século XX também o foi, o regime de Assad, um regime extremamente repressivo e com graus de violência extremas. E, portanto, esta transição tem muitos ingredientes para correr bastante mal. E a preponderância que o grupo HTS tem vindo a assumir nestes últimos dias é também preocupante, não só porque dá uma preponderância à Turquia, que é bastante inusitada, como também abre o caminho para um governo de islamistas radicais. Ainda não se sabe muito bem quão radicais, eles têm mostrado algum pragmatismo e alguma abertura, mas de qualquer maneira não se adivinham tempos fáceis e é óbvio que todas as potências estão a tentar, com esta retirada do Irã e da Rússia da Síria, moldar, digamos assim, a transição para os seus interesses, obviamente.

Estava há pouco a referir isso, foi anunciado que Blinken vai visitar a Turquia na sexta-feira para debater esta crise na Síria. É um dos temas que vai estar em discussão. O que é que poderá Blinken tentar perceber ou tentar influenciar no encontro com a Turquia, que foi também um país muito ativo nesta transição síria ou neste golpe de Estado sírio?

Os Estados Unidos estão a tentar negociar com a Turquia o mais possível, exatamente qual é que vai ser a repartição de forças na Síria e até que ponto é que a Turquia consegue evitar o caos, por um lado, é o primeiro objetivo, e em segundo, garantir uma solução em que os interesses de Israel, por um lado, e dos Estados Unidos, por outro, enfim, são mais ou menos coincidentes, são tidos em conta nesta transição. Obviamente que a Turquia se torna muito mais preponderante na região após esta semana e os Estados Unidos, como obviamente uma das grandes potências na região, vai tentar quebrar, de certa maneira, o laço que a Rússia e que o Irã tinham, assegurar que essa transição é feita na Síria e, por outro lado, fazer ouvir a sua voz a Erdogan nesta transição.

Há muitos interesses sociais, muitos interesses políticos na Síria, nesta altura, muitas forças. Há também muitas religiões, é um país com muitas religiões e com várias fações dentro de cada uma dessas religiões. Hoje, o Papa Francisco, neste caso, das religiões menos representadas na Síria, mas também existe essa representação, pediu respeito entre religiões na Síria Durante este processo, esta questão é importante, esta paz religiosa para o que aí vem para a Síria?

Claramente, uma das principais cisões, para além dos aspectos étnicos, é obviamente a cisão entre alauítas, que estavam no poder, e os islamitas sunitas, que fazem a maior parte da população síria. Mas obviamente que esta preocupação com os cristãos é muito acentuada, uma vez que as transições têm sido tradicionalmente muito punitivas para as minorias no país. E, portanto, todas as condições estão presentes para que haja, de facto, uma vingança também desse ponto de vista religioso e sectário. E há alguns relatórios de violência sobre os cristãos. Desse modo, o apelo do Papa Francisco vem no sentido da defesa do cristianismo e do catolicismo e, obviamente, tentar pôr a questão da liberdade religiosa em cima da mesa no momento em que a transição dá tanto poder a um grupo islamita.

Para além de todas as questões de colocar de pé praticamente um país de cara lavada, todas as questões burocráticas a nível da democracia, a nível do novo regime, a nível da nova liderança, toda a organização necessária, a Síria está agora também a lidar com uma outra situação, que é o regresso de milhares, milhões de pessoas refugiadas nos últimos anos, que fugiram para países vizinhos, outros para lugares mais longínquos, muitos na Europa, é certo, mas principalmente os países vizinhos. Há registo de muitos destes refugiados a regressarem neste momento, nestes dias, a território sírio. Como é que se lida com uma situação destas e se isto pode efetivamente ser um problema ou algo positivo para esta nova administração, para estes próximos meses da liderança síria?

Parece-me que este regresso dos refugiados, embora demonstre a enorme esperança, que é obviamente de saudar os sírios em relação ao futuro do seu país e ao fim de um regime extremamente brutal, também traz consigo mais instabilidade ainda a uma situação que é muito fluida e que também vai pôr em questão e pôr em confronto os interesses de quem ficou e de quem partiu, e de como isso pode gerar violência não só nas comunidades, mas também ser mais um fator de instabilidade a nível nacional. E desse modo, penso que esta presença dos grandes poderes é essencial para se tentar negociar no terreno também a melhor das transições possíveis. E é também de notar como os Estados Unidos, ao contrário do que fizeram durante a Primavera Árabe, não põem a questão da democracia liberal no topo das suas prioridades. E é realmente a estabilidade regional e depois no interior da Síria, que parece estar no topo das suas prioridades, assim como as questões de segurança e estes bombardeamentos que se verificaram nos últimos dias vão exatamente no sentido de prevenir que estas armas químicas sejam adotadas pelo regime que vier a seguir, que é, no seu conjunto, uma incógnita bastante grande.

Esta questão na Síria fica dentro de toda esta problemática do Médio Oriente e de todas as situações que temos visto nos últimos meses, praticamente um ano. Percebe-se também que é uma nova frente para Israel, esta questão na Síria, mas olhar um pouco para a Europa e para o que se passa na Europa, o conflito na Ucrânia. Quando começou o conflito no Médio Oriente, entre Israel e a Palestina, muito se falou da possibilidade de esquecimento da Ucrânia e isso não aconteceu. Isso pode acontecer agora com o acrescentar da situação na Síria ou não há possibilidade disso acontecer, dada a gravidade e a dimensão do conflito na Ucrânia?

Eu penso que a Síria demonstrou que havia uma prioridade para a Rússia, que era, de facto, o conflito na Ucrânia. No fundo, esta queda de Assad foi provocada, em larga medida, pelo abandono que a Rússia demonstrou em relação à Síria. E eu espero que, obviamente, a prioridade que Putin está a dar ao conflito da Ucrânia seja também a prioridade que os líderes ocidentais põem na defesa da Ucrânia. De facto, há aqui um momento bastante perigoso para a Ucrânia na transição das duas administrações americanas. Poderá também ser marcado pelo abandono dos europeus da causa ucraniana e esse seria um cenário catastrófico que espero que não se realize.

Entretanto, e seguindo um pouco essa linha, os Estados Unidos da América anunciaram que vão libertar 20 mil milhões de dólares de apoio à Ucrânia. E de onde vem este dinheiro? São praticamente ativos russos que estão congelados e que os Estados Unidos da América vão encaminhar para a Ucrânia este valor. Zelensky já agradeceu o envio deste apoio para a Ucrânia. Estamos a falar de muito dinheiro, que importância acaba por ter isto para a Ucrânia nesta fase do conflito?

Tudo depende, obviamente, da capacidade de traduzir estes milhões de euros em armamento. Porque o que se tem vindo a verificar é que as necessidades mais prementes da Ucrânia são obviamente em armamento e nas últimas semanas e meses, apesar deste aumento do financiamento anunciado por Biden, tem sido muito difícil traduzir isso numa entrega efetiva de armas à Ucrânia.

Sim.

Portanto, essa é a questão fundamental. Obviamente que é uma demonstração política importante por parte da administração Biden, que o apoio à Ucrânia será até ao fim dessa administração, mas é também pouco claro que decisões vai Trump tomar em relação a esta guerra. Portanto, há esta tentativa de tornar mais concreto ainda e de armar a Ucrânia o mais possível até a administração Trump tomar posse. Mas a capacidade efetiva de armar a Ucrânia neste curto espaço de tempo é muito real e não é provável que todo este dinheiro consiga ser empregado nos próximos meses.

Madalena Mayer Resende, muito obrigado por ter estado conosco esta tarde aqui na Rádio Observador para mais uma edição de Gabinete de Guerra.