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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa em que destacamos os focos de tensão geopolítica no globo. Hoje contamos com a análise da Daniela Nunes, é especialista em Relações Internacionais. Daniela Nunes, muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Seja de novo bem-vinda à Rádio Observador. Vamos começar por falar da situação na Rússia, nomeadamente de declarações citadas pela agência russa TASS, de Dmitri Peskov, o porta-voz do Kremlin, que não quis comentar um possível cessar-fogo com a Ucrânia em relação às infraestruturas de energia, mas também não o descarta. Diz Peskov que ainda não pode comentar sobre esse tema. Daniela Nunes, um avanço precisamente nesta questão seria também um possível avanço para um acordo total de paz?
Olá, Zé, boa tarde. Boa tarde também quem nos ouve. Se nós olharmos para esta questão com alguma distância e com alguma frieza analítica, a primeira coisa a notar é que mesmo um eventual cessar-fogo limitado às infraestruturas energéticas não é, ou pelo menos não deve ser lido, como um passo efetivo em direção a um acordo final e, sobretudo, a um acordo efetivo e de sucesso. Pode ser um avanço, sim, mas é um avanço principalmente ligado à gestão do conflito, à gestão dos danos, e não tanto à sua resolução. É preciso conter aqui um bocadinho as expectativas. E até porque, deixa-me dizer, na história dos conflitos armados mais recentes, a ideia de um cessar-fogo parcial, seja um cessar-fogo por secções no sentido territorial, no sentido de regiões ou de setores, como é o caso do energético, por exemplo, este tipo de cessar-fogo raramente funciona como uma antecâmara para a paz. Funciona, sim, como um mecanismo para reduzir custos, para controlar riscos de escalada e às vezes também até para estabilizar determinadas frentes, quando aquilo que se pretende conter é, sobretudo, a guerra em determinadas regiões. Mas nada disto toca no que é rigorosamente central e rigorosamente essencial, que é o quê? Que são os objetivos das duas partes ou mais partes envolvidas na guerra e objetivos, sobretudo, políticos. No caso concreto desta guerra, da guerra que opõe russos e ucranianos, a lógica russa é muito clara. É a lógica de que a energia, a questão energética foi sempre um instrumento estratégico muito central, não só do ponto de vista militar, mas também do ponto de vista político e econômico. Atacar infraestruturas energéticas ucranianas serve para desgastar Kiev internamente, por um lado, mas também para criar efeitos indiretos na Europa. Aceitar um cessar-fogo neste domínio, para a Rússia, não significa abdicar de nada que seja fundamental. Significa, como digo, preservar alguns ativos, gerir algum desgaste e projetar uma imagem de racionalidade estratégica pura e dura. E depois também há aqui um padrão que convém sublinhar. Moscovo distingue muito bem entre o que são gestos táticos e mudanças estratégicas no contexto desta guerra ou de qualquer outra. E neste âmbito, um gesto tático pode servir para ganhar tempo, pode servir para aliviar alguma pressão internacional, ou também pode servir para testar a posição do outro lado, neste caso, para testar a Ucrânia.
Ou seja, as negociações acabam também elas por ser um processo estratégico.
Exatamente, porque nada disto, nada destes gestos táticos, como eu lhes chamei, implica qualquer revisão dos objetivos e daquelas exigências maximalistas da Rússia no contexto global da guerra. É precisamente aqui que muitas vezes surge um erro que não é assim tão invulgar no Ocidente. Nós tendemos a interpretar sinais de contenção como sinais de abertura política e um cessar-fogo energético, de facto, ele pode reduzir, pode não, ele reduz certamente algum sofrimento civil, pode até criar algum espaço ou alguma abertura diplomática, mas não resolve, até porque nem sequer aborda as questões que bloqueiam efetivamente, essas sim, um acordo total ou um acordo viável para a paz final.
Estas declarações de Dmitri Peskov foram feitas em conferência de imprensa, onde o porta-voz do Kremlin abordou ainda a relação entre a Rússia e os Estados Unidos, nomeadamente aqui sobre a expiração do START III, um tratado de desarmamento nuclear. A presidência russa, na voz de Dmitri Peskov, avisou o presidente norte-americano, Donald Trump, de que a assinatura de um novo tratado de desarmamento nuclear será um processo longo e muito complicado. Daniela Nunes, o que lhe parece que possa estar aqui em cima da mesa? O que é que podemos retirar desta declaração de Dmitri Peskov, que sabemos, fala também enquanto porta-voz, não só do Kremlin, mas também da doutrina de Vladimir Putin.
Exatamente. Dizer que este será um processo longo e difícil, isso não é fazer exatamente uma constatação técnica. Isso é emitir um sinal político muito claro, neste caso da parte de Peskov, que é o mesmo que dizer da parte do Kremlin. Mas deixa-me só dizer, antes de mais, que a questão do desarmamento nuclear deixou de ser um exercício relativamente estável de gestão bilateral para passar a ser uma peça central de uma negociação geopolítica que é, nos dias de hoje, muito mais ampla. E o START III era O último grande sobrevivente de uma era em que os Estados Unidos e a Rússia, anteriormente Estados Unidos e União Soviética, conseguiam isolar o nuclear do resto das tensões políticas e deste cenário, como digo agora, muito mais amplo. Essa era terminou. Hoje nós sabemos que o sistema internacional está muito mais fragmentado, é muito mais competitivo, é muito menos regulado neste tipo de matérias, até por causa da ascensão de figuras como é o caso de Putin, mas também o próprio Donald Trump. Agora, apesar de tudo isto, na verdade, os mecanismos de controle continuam presos a uma lógica que é, sobretudo, bilateral e que já não corresponde à realidade estratégica dos nossos dias. Para responder mais diretamente à pergunta, do ponto de vista russo, há várias coisas que podem estar aqui em cima da mesa. Em primeiro lugar, a expansão do próprio conceito de desarmamento. Isto porque Moscovo quer incluir neste conceito um conjunto de sistemas que não estavam cobertos pelos tratados clássicos, a saber, armas hipersônicas, sistemas autónomos, sobretudo também o arsenal nuclear não estratégico, onde a Rússia tem vantagem relativa, portanto, isto obviamente complica qualquer negociação. Em segundo lugar, a Rússia tende a ligar, a atribuir uma espécie de emparelhamento a um conjunto de dossiês que os Estados Unidos, se fossem eles a escolher sozinhos, preferiam manter separados. Portanto, sem esse emparelhamento, se me faço entender. Para Moscovo, falar de limites nucleares sem falar de, por exemplo, defesa antimíssil, sem falar de sanções ou até mesmo sem falar diretamente da guerra na Ucrânia, faz cada vez menos sentido. E portanto, o nuclear transforma-se aqui numa espécie de moeda de troca política e não num fim em si mesmo.
Até porque o que temos verificado é exatamente o contrário, até há uma política de maior investimento em defesa e sistema de armamento.
Exatamente. Deixa-me só dizer também que do lado americano, o dilema a mim parece-me um bocadinho mais evidente até do que do lado russo. Por quê? Porque Washington quer previsibilidade, quer transparência, quer mecanismos de verificação, porque sabe que a ausência total de regras aumenta o risco de um erro de cálculo. Mas Washington também enfrenta aqui um conjunto de constrangimentos internos, designadamente ligados a um Congresso que tem cada vez mais cisões internas. Enfrenta também um conjunto de aliados que dependem deste guarda-chuva nuclear norte-americano e, sobretudo, enfrenta uma outra questão, que se calhar é melhor não irmos muito por aí, porque senão tínhamos que fazer outro episódio do Gabinete de Guerra, que é a questão chinesa. E aqui só mesmo para dizer que, como sabemos, a China está a expandir e muito rapidamente as suas capacidades nucleares e portanto, para os Estados Unidos incluir a China num novo acordo, num novo START, seria desejável, obviamente, mas para a China isso porventura seria ainda muito prematuro. E respondendo à pergunta sobre o que é que está em cima da mesa. O que está em cima da mesa não é só a renovação de um tratado, é, a meu ver, uma tentativa, e muito provavelmente inconclusiva, de redefinir as regras do equilíbrio nuclear ou do desequilíbrio nuclear, num mundo onde a confiança estratégica desapareceu e onde o controle de armamento passou a ser um pilar da estabilidade, ou melhor, deixou de ser um pilar de estabilidade para passar a ser um instrumento quase de pressão política. A tal moeda de troca que eu estava a dizer há pouco.
Daniela Nunes, vamos avançar, falar também sobre a situação no Irão e aqui também com uma clara ligação a Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, até porque o líder norte-americano estará mesmo a considerar ataques a líderes ou forças policiais no Irão para tentar inspirar novos protestos. É uma informação que está a ser avançada pela Reuters. O objetivo é de criar condições para uma mudança de regime. O presidente norte-americano estará então a analisar essas opções, que incluem atingir comandantes e instituições responsáveis pela violência contra os manifestantes nas últimas semanas. Ora, tendo em conta esta informação que nos chega por parte da agência Reuters, Daniela Nunes, que situação é esta e o que é que temos que ter em atenção nas próximas semanas?
Claramente vamos ter que ter atenção nas próximas semanas, mas talvez não pelas razões que à primeira vista possam parecer evidentes. Eu acho que mais do que estarmos perante um plano sólido de mudança de regime no Irão, estamos provavelmente a observar uma lógica de pressão política muito forte, com riscos muito elevados e, sobretudo, com alguns benefícios que são altamente duvidosos. Esta ideia de atacar seletivamente lideranças, forças e instituições que, como sabemos, são responsáveis pela repressão no Irão, com o objetivo de inspirar, digamos assim, a população, não é exatamente nova em Washington e para Washington. Parte-se aqui do pressuposto de que removendo o medo e sinalizando apoio externo, acaba por se criar um efeito dominó que leva à queda do regime. Agora, o problema é que esta lógica tem um histórico muito fraco quando aplicada a regimes como o iraniano. Por várias razões. O Irão não é um Estado assim tão frágil, nem um Estado assim tão isolado, na medida em que tem um aparelho de segurança robusto, tem uma elite política Muito habituada a operar sob pressão externa e, sobretudo, tem uma narrativa profundamente enraizada de resistência a tudo o que é intervencionismo estrangeiro. Portanto, qualquer ação militar norte-americana, mesmo que cirúrgica, encaixava muito facilmente naquilo que é uma narrativa histórica no Irão. E há aqui um paradoxo que é fundamental entendê-lo.
E temos dois minutos para perceber esse paradoxo.
Dois minutos, talvez consiga em um, até. Intervenções externas pensadas para apoiar protestos e incêndios domésticos tendem, na prática, a enfraquecer esses protestos e esses incêndios. Portanto, protestos que nascem de frustrações econômicas ou sociais podem rapidamente ser reconfigurados pelo regime como traição ou como ingerência estrangeira. E por isso, uma intervenção norte-americana poderia, por um lado, facilitar ou validar até alguma repressão e, por outro, dificultar, tendo, por isso, um efeito contraproducente, a mobilização popular. Já para não falar aqui, mas aí tenho mesmo que gastar o segundo minuto, de um segundo risco que também não podemos ignorar, que é o risco regional. O Irão, respondendo a uma eventual intervenção, mesmo que cirúrgica, dos Estados Unidos, essa resposta dificilmente seria direta e simétrica, digamos assim. O Irão muito provavelmente responderia através dos chamados proxies, através de pressão sobre os aliados dos Estados Unidos, através de ações no Golfo, através de ações, por exemplo, contra Israel diretamente, ou seja, em uma escalada muito difusa, muito difícil de controlar e com um potencial de alargamento e de escalada muito rápido. Portanto, a resposta é: sim, esta é uma situação para termos em conta, não tanto como um sinal de possível mudança iminente de regime no Irão, mas mais como um indicador de uma fase potencialmente mais volátil na relação entre Estados Unidos e o Irão.
Uma situação para estarmos atentos e para acompanharmos na geopolítica mundial. Muito obrigado, Daniela Nunes.
Obrigada.
É especialista em Relações Internacionais, esteve a analisar a situação geopolítica mundial no Gabinete de Guerra, que está de regresso amanhã à antena da Rádio Observador.