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Gabinete de Guerra é na Rádio Observador, programa em que olhamos para os principais conflitos a marcar a atualidade. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, muito bem-vindo.

Olá, boa tarde.

Boa tarde. Começamos, claro, por uma notícia que nos chegou há pouco. Donald Trump afinal concorda em regressar à mesa das negociações a pedido do Irão. Foi o que anunciou há pouco na rede Truth Social. Isto é um bom sinal e é um sinal de que este fim do cessar-fogo pode ter sido apenas uma pequena pausa.

Com Donald Trump temos de ter sempre muito cuidado em ter grandes certezas ou dar por adquirido que uma posição ou uma mudança de posição é uma coisa muito durável. Portanto, acho que à partida, em si, essa declaração é positiva, ou seja, significa que provavelmente se evitou aqui uma escalada maior e que há a possibilidade de se retomar o processo negocial. A grande dúvida é quais são as implicações disso para o Estreito Ormuz, que é a questão aqui mais impactante a nível global, com impacto mais imediato e mais negativo, desde logo diretamente no mercado do petróleo e depois indiretamente no conjunto da economia global e nas nossas carteiras. Porque realmente o problema tem sido que mesmo quando o cessar-fogo está supostamente em vigor, a verdade é que o Irão de vez em quando continua a atacar navios civis no estreito, com o argumento de que o memorando de entendimento lhe dá ou lhe reconhece algum tipo de controlo sobre o estreito. E de facto, desde o início que eu fui chamando a atenção que me parecia que o memorando de entendimento nessa parte, em relação ao Estreito Ormuz, que era uma questão vital, tinha uma formulação que permitia ao Irão fazer esse género de interpretação. Ou seja, não sabemos, mesmo que haja aqui uma espécie de regresso ao cessar-fogo e à negociação, o que isso realmente quer dizer, nomeadamente em relação ao Estreito Ormuz.

Donald Trump diz que foi o Irão que pediu o regresso à mesa de negociações. Consideras que está de alguma forma relacionado também com o fim das cerimónias fúnebres do Aiatola Ali Khamenei? Durante aquele período, e creio que até foste tu que o disseste aqui na Rádio Observador, tinhas dito que poderia haver algum tipo de resposta para mostrar uma vingança do Irão contra os Estados Unidos durante essa semana, mas agora acabado este período do funeral do Aiatola, achas que pode estar relacionado com isso? Ou seja, esse período para mostrar uma vingança acabou?

Francamente, tanto quanto me recordo, o que eu disse foi que não se podia afastar esse cenário completamente, mas o que me parecia mais lógico era que houvesse aqui uma espécie de paz funerária, ou seja, que neste período, quer o Irão, quer os Estados Unidos observassem alguma contenção. Mas realmente não foi o que aconteceu e portanto, é por isso também que eu acho que é importante falar mais em cenários do que propriamente em certezas. Até podemos explicitar qual é a nossa inclinação, mas realmente o que vimos no funeral foi sobretudo o acentuar dessa dimensão belicista de confrontação, gritos de "Morte à América", "Morte a Trump", bandeiras vermelhas, que são as bandeiras do martírio, com dizeres alusivos à vingança do Hussein, que é um dos imãs fundadores do xiismo, que foi realmente morto também em batalha. Portanto, no fundo, esse lado mais belicista do xiismo. O que concretamente assistimos foi realmente a ala mais dura do regime, provavelmente, a voltar a atacar navios civis no Estreito de Ormuz, a voltar a insistir nesta ideia de que o estreito é iraniano, apesar de, na verdade, ser dividido, ou seja, são águas iranianas, mas também do Omã, que é o Estado a sul. De acordo com a lei internacional, em todo caso, é um estreito internacional, portanto, a jurisdição dos países está limitada e nomeadamente não pode impedir o trânsito livre, sem condições, sem taxas de navios civis, em termos que obviamente o Irão não está a respeitar. A questão do funeral realmente parece-me que teve um impacto eventualmente mais belicista do que o contrário. Se agora, findo o funeral, isso quer dizer que vamos ter condições pra negociações pra um cessar-fogo mais durável, eu francamente acho que também não. Acho que o que isto mostra é que este cessar-fogo é muito frágil e embora os dois lados também hesitem numa escalada de maior intensidade, ao ponto de também termos informações de que, por exemplo, os Estados Unidos estão a desencorajar, estão a dizer que não querem que Israel se envolva, pra manter maior controle sobre as ações militares e sobre o risco de escalada, a verdade é que esse risco não pode ser completamente afastado.

Eu aproveitava também pra te perguntar, e isto foi algo que aconteceu esta manhã, Andy Burnham, ele que vai ser o próximo primeiro-ministro do Reino Unido, veio pedir desculpa pela postura do Partido Trabalhista em relação à ofensiva israelita em Gaza, isto no início dessa ofensiva. Donald Trump já tem um inimigo em Espanha, Pedro Sánchez, mas pra já parecia estar mais ou menos isolado nesse capítulo. É possível que agora com esta nova liderança no Reino Unido, a Europa vá também começando a dar outros sinais de estar cansada desta liderança ou do rumo que a liderança norte-americana está a dar a este conflito?

Eu acho que já houve sinais de cansaço com Donald Trump. Já houve sinais de que havia algumas linhas vermelhas, por exemplo, a questão da Gronelândia, de que os países europeus não se iam deixar arrastar por solidariedade com os Estados Unidos para uma guerra sem estratégia, em que não foram consultados, não foram ouvidos nem achados, em que não era claro também exatamente o que Donald Trump queria, no caso da guerra no Irã. Isso não aconteceu apenas com a Espanha, aconteceu com a Itália, por exemplo, que é um país com governo. No caso de Espanha, podemos dizer que Sánchez está muito à esquerda, tem algumas vantagens internas em termos da coligação de se opor a Donald Trump, mas Meloni, ideologicamente, é muito próxima de Trump.

É uma questão até mais pessoal, não é?

Até em termos pessoais pareciam ter uma boa relação. Mas realmente Donald Trump é muito impopular na Europa, é cada vez mais tóxico na Europa. E, de facto, no caso da Grã-Bretanha, no entanto, há aqui uma questão: a Grã-Bretanha tem pouca margem de manobra. Por exemplo, no caso da Espanha, Donald Trump ameaçou com uma guerra comercial contra a Espanha, mas o problema é que não há guerras comerciais contra a Espanha. Uma guerra comercial contra a Espanha era uma guerra comercial contra o conjunto da União Europeia. Aliás, o novo acordo comercial prevê expressamente, por imposição do Parlamento Europeu, uma série de cláusulas de reversão desse acordo, no caso de os Estados Unidos unilateralmente subirem tarifas ou voltarem a algum tipo de guerra comercial com algum país europeu. Mas no caso da Grã-Bretanha, isso não é assim. A Grã-Bretanha saiu, portanto, pós-Brexit e está muito mais dependente da aliança com os Estados Unidos, sendo que os Estados Unidos são muito mais imprevisíveis. Ao mesmo tempo, internamente, Trump é muito impopular, como é no conjunto da Europa, especialmente entre os eleitores mais à esquerda, especialmente pela questão de Israel. Portanto, acho que Andy Burnham está aqui a fazer um certo jogo de equilíbrio interno, a aproveitar que ele próprio não estava no poder para se distanciar um pouco do passado. Agora, eu acho que para frente, a tarefa dele continua a ser muito complicada e continua a exigir equilíbrios pragmáticos muito complicados. Ele não pode dar-se ao luxo de entrar numa rutura total com Donald Trump, por muito popular que isso pudesse ser com uma certa ala mais à esquerda na Grã-Bretanha.

E continuamos pela Europa, olhamos agora também para o conflito na Ucrânia, isto porque Paris vai receber 25 líderes no âmbito da Coligação das Vontades, um deles é Volodymyr Zelensky. Eu pergunto se este momento pode também ser de alguma forma decisivo ou momento de viragem para fazer pressão a Moscovo e continuar esse apoio a Kiev.

O que isto desde logo também mostra é, no fundo, a substituição dos Estados Unidos pela Europa neste papel. Essa coligação era dirigida pelos Estados Unidos, teve de haver aqui uma substituição nesse papel, porque Donald Trump desinvestiu completamente desse esforço. O que este ano mostrou, que é muito importante, é que apesar de tudo, e apenas com o apoio europeu e com algum financiamento europeu de algumas compras de armamento norte-americano, sobretudo de mísseis, etc, para alimentar sistemas que já foram fornecidos, a Ucrânia continuou a conseguir resistir. Não houve um colapso nem da vontade, nem da eficácia da resistência e conseguiu até recuperar alguma iniciativa estratégica com estes ataques com drones, com mísseis de médio alcance no interior do território russo. Eu acho que não são de esperar grandes novidades, porque as grandes decisões já foram tomadas, nomeadamente esta questão dos 90 mil milhões em dois anos, para continuar a sustentar o esforço de guerra ucraniano por parte dos países europeus. Agora, estas reuniões continuam a ter a sua importância em termos da operacionalização desse apoio e de resolver problemas também na questão prática da implementação desses apoios que muitas vezes se verificam. Porque em muita da Europa continuamos a pensar ainda em termos de tempo de paz e realmente as promessas, as declarações de intenção em termos de investimento em defesa estão lá e de apoio à Ucrânia estão lá, mas muitas vezes depois demoram demasiado tempo a concretizar-se na prática.

Como habitual, à sexta-feira à tarde, o nosso tempo é mais curto. Bruno Cruz Reis, muito obrigado por ter estado conosco. Este episódio do Gabinete de Guerra fica, como sempre, em podcast.

Obrigado.