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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, é aqui que todos os dias analisamos os principais desenvolvimentos das duas maiores guerras pelo mundo, a guerra na Ucrânia, mas também a guerra no Médio Oriente, na Faixa de Gaza. Hoje conosco está o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo, boa tarde.

Olá, boa tarde, obrigado.

Bruno, vamos começar por olhar para a guerra na Ucrânia, sendo que hoje a marcar a atualidade está a reunião entre Rússia e China. Vladimir Putin diz que a relação entre os dois países está protegida da influência negativa. Temos aqui, na tua opinião, um reforçar desta aliança, se é que podemos chamar aliança entre Rússia e China?

Eles não utilizam esse termo, é uma parceria, mas na prática, sim. Apesar de tudo, estamos longe do modelo, por exemplo, da Aliança Atlântica, ou seja, há aqui no fundo um compromisso que é sempre muito pragmático, muito caso a caso, muito dependente dos interesses. Mas não há dúvida que, sobretudo na avaliação destes dois líderes, de Putin e de Xi, que reforçaram muito a dimensão autoritária e ditatorial dos governos dos países respectivos, há aqui realmente uma grande convergência de interesses. Por um lado, no fundo, tornar o mundo mais seguro para este género de regimes autocráticos, iliberais, repressivos. Por outro lado, também procurar combater ativamente a influência, o peso a nível global dos Estados Unidos. Isso leva aqui realmente a uma grande convergência de interesses. Agora, como eu digo, com estes limites, que as relações são muito pragmáticas e muito determinadas por aquilo que é mais importante, por um lado para Pequim e depois para Moscovo, com este ato também fundamental que é por causa da guerra e por causa das consequências da guerra no corte de relações econômicas entre a maior parte dos países europeus, os Estados Unidos e a Rússia, isso obrigou a Rússia a aproximar-se muito mais da China como uma espécie de boia de salvação, nomeadamente em termos económicos, tecnológicos, de investimento, e portanto, isso aumentou muito o peso da China nesta relação e reduziu o da Rússia. No fundo, temos uma relação que é inversa daquela que aconteceu no início da Guerra Fria, a seguir à Segunda Guerra Mundial, em que a Rússia Soviética, ou seja, a União Soviética tinha aqui claramente um peso maior e era a China que era o parceiro mais fraco. E aliás, até foi essa assimetria que depois acabou por levar a tensões que levaram à ruptura entre os dois regimes comunistas, mas agora é exatamente o oposto, é a China que está na posição dominante nesta relação.

Certo. Bruno, por falar na Rússia, vamos aqui falar de um tema adjacente, de certa forma, a um dos grandes temas internacionais desta semana, o ataque ao presidente da Eslováquia, Robert Fico. O primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, é um primeiro-ministro que tem sido também muito marcado pelo fato de ser pró-russo, fã de Putin, é assumidamente fã de Putin, também cortou com a ajuda militar à Ucrânia. Aquilo que eu gostava de analisar aqui contigo era se consideras que este ataque também surgiu muito por causa disso, ou seja, se esta popularidade pró-Rússia de Robert Fico também contribuiu para este ataque que aconteceu no dia de ontem.

Essa parece ser a posição da propaganda pró-russa, da propaganda que vem da Rússia. No fundo, ele atreveu-se a assumir uma posição pró-russa e isso tem este tipo de consequências, mas realmente não temos nenhuma indicação nesse sentido. Obviamente, é sempre crucial dizer isto, qualquer tipo de violência política, sobretudo no contexto de um regime democrático, mesmo que alguém como Robert Fico tenha posições um pouco equívocas a esse respeito, não parece ter um pleno compromisso com o regime democrático pluralista. Por exemplo, está ativamente a tentar acabar com a televisão pública e isso é visto pela oposição como uma maneira de substituir a administração, substituir os jornalistas que não lhe agradam, que são demasiado independentes. Mas obviamente, nada disso justifica um ataque, uma tentativa de assassinato, a utilização de violência para resolver disputas políticas. Aparentemente, pela informação que nós temos, e aqui é crucial sempre dizer isto, pode ser que as coisas mudem, mas pela informação que temos, parece ser um ator isolado, alguém que fazia parte genericamente da oposição ao governo e aquilo que ele terá dito tinha precisamente a ver com estas questões da televisão, etc. Mas não há aqui nenhuma razão para dizer que isto faz parte de uma espécie de campanha de assassinato, de violência contra os defensores da Rússia nos países ocidentais, que genericamente se podem exprimir livremente nos termos da lei, ao contrário daquilo que acontece com os russos no interior da Rússia, que não podem, por exemplo, falar de guerra senão podem apanhar uma pena de prisão de 15 anos, ou até com jornalistas ocidentais que se arriscam a tentar recolher informações no interior da Rússia e que já aconteceu serem ou liminarmente expulsos, por exemplo, com a correspondente da BBC de há 10 anos, ou são presos, como foi o caso do correspondente do Wall Street Journal, com acusações sem qualquer credibilidade de espionagem.

Bruno, o exército ucraniano diz também no dia de hoje que impediu um avanço russo na região de Kharkiv. Tem sido uma região também muito falada, uma região onde a Ucrânia está com muitas dificuldades. Como é que está a situação por lá e pergunto se a Rússia já está a ganhar nesta zona.

Está a ganhar algum terreno e está a ganhar mais terreno nesta última semana do que conseguiu ganhar no ano anterior. Apesar de tudo, estamos a falar de avanços relativamente pequenos, mas realmente isto é um sinal de que todos estes meses de desgaste De um enorme desgaste em forças já muito desgastadas, porque temos tropas que não são refrescadas há mais de dois anos. Tivemos todo aquele problema do corte do apoio militar americano, que reduziu muito a capacidade de defender com eficácia essas forças de ataques russos. Todo esse desgaste realmente parece estar a ter um custo. A Rússia também está a forçar a Ucrânia a espalhar as suas tropas por uma frente ainda mais ampla, voltou a alargar a frente, nomeadamente a norte, na zona de Kharkiv, e isso obriga a esguarnecer em parte uma frente que tem mais de 1000 km, por exemplo, mais para sul ou mais para leste. Realmente é uma situação bastante difícil. Não é por acaso que Zelenskyy cancelou as suas deslocações para fora, uma situação muito fluida. Eu diria, talvez aquilo que seja mais surpreendente não são todas estas dificuldades ucranianas, é que sobretudo nesta zona de Kharkiv, era um pouco previsível que fosse um dos alvos potenciais de uma ofensiva russa nesta altura, porque é uma zona que faz fronteira direta com a Rússia. É uma zona onde tem havido alguns ataques para o lado russo da fronteira, nomeadamente também infiltrações até de dissidentes russos que estão a combater do lado ucraniano. Isto fica do lado ucraniano da fronteira de Belgorod, que temos ouvido falar muitas vezes. A questão que se coloca aqui é por que a Ucrânia não conseguiu ter linhas defensivas, campos de minas, trincheiras, barreiras antitanque, etc, mais eficazes, apesar de tudo. Isso será eventualmente o mais surpreendente, mas teremos de ver realmente como é que a situação evolui. Claramente, os ucranianos, a liderança ucraniana está bastante preocupada e isso pode significar que a situação, sendo má, pode ainda piorar mais do ponto de vista da Ucrânia.

Claro. Bruno, vamos voar e viajar até ao Médio Oriente, isto porque a África do Sul, em relação à guerra na Faixa de Gaza, foi ao Tribunal Internacional da Justiça, quer que Israel seja declarado estado de apartheid. Isto é possível, Bruno, ou a África do Sul vai encontrar muitos obstáculos para conseguir aquilo que quer?

No fundo, é um pedido da Assembleia Geral das Nações Unidas para este outro órgão do sistema das Nações Unidas, o Tribunal Internacional da Haia também faz parte, é um dos cinco órgãos centrais do sistema das Nações Unidas, a par da Assembleia Geral, do Secretário-Geral, do Conselho de Segurança. No fundo, é um parecer não vinculativo. É como se, por exemplo, o governo português pedisse um parecer à Procuradoria-Geral da República. É uma opinião legal, claro que terá grande importância política, mas não é propriamente uma decisão do tribunal. Deste ponto de vista, é útil a África do Sul aparecer aqui, é útil do ponto de vista de quem está a defender que Israel ocupe ilegalmente estes territórios e que essa ocupação se traduz numa situação de apartheid, porque obviamente sabemos o histórico da África do Sul em relação a esse fenómeno completamente repelente, do apartheid, que foi o regime vigente na África do Sul até 1994. Não quer dizer que não haja aqui uma questão de convicção do lado sul-africano, mas também é bastante útil ao governo do ANC, que vai ter eleições no final deste mês, daqui a poucos dias, e que sabe, por exemplo, tem uma população muçulmana importante em algumas províncias, em algumas regiões eleitoralmente até onde o ANC tem menos sucesso, como por exemplo, a província do Cabo, e também é uma forma de procurar captar votos. Mostrar aí um empenho numa causa palestiniana que é muito popular, por exemplo, entre os muçulmanos na África do Sul.

Bruno, vamos até às declarações do ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant. Opôs-se a um governo militar na Faixa de Gaza. São declarações também feitas durante o dia de hoje. Há outras soluções melhores do que esta de um governo militar e sequer se há outra solução para além disso no horizonte?

Para mim não é assim tão extraordinário, porque o exército israelita tem oficiais muito competentes e muito conhecedores deste tipo de conflito, conflito irregular, de guerra de guerrilha, de contra-insurreição. Mas o que é espantoso é que nós temos os militares a dizer aos políticos: "Atenção que a guerra tem uma dimensão política. Atenção que não pensem que a guerra se resolve só a tiros". É preciso haver aqui uma estratégia, haver um plano para o depois. E esse plano tem que começar a ser desenvolvido e inclusive implementado já. Não podemos esperar pelo fim de uma guerra com este perfil, porque este tipo de guerra não tem fim. Basicamente, o Hamas, mesmo que tenha uma capacidade agora bastante mais reduzida, continua a conseguir fazer ataques no interior de Gaza, em zonas que supostamente já teriam até sido militarmente limpas pelo exército israelita e até nalguns casos consegue continuar a fazer ataques, por exemplo, em direção a Israel ou a postos fronteiriços, etc. Isso não pode esperar. Mas realmente é incrível que sejam os próprios militares israelitas a dizer isso, o próprio ministro da Defesa aqui um pouco como porta-voz das Forças Armadas a dizer: "Atenção que nós estamos a dizer há bastantes meses que tem de haver aqui um planeamento político sobre o futuro de Gaza, sobre como é que se vai administrar Gaza". Se há melhores soluções, eu diria, melhores do que uma ocupação militar, de não haver plano nenhum, certamente. Agora, não há soluções muito fáceis, nomeadamente porque isso passaria por diálogo com as Nações Unidas, que está extremamente difícil entre o governo israelita atual e as Nações Unidas. Passaria também por diálogo com países árabes moderados, eventualmente tentar ter uma administração que tivesse a participação desses países árabes moderados e essas relações também se têm tornado muito tensas, nomeadamente com o Egito e com o Qatar. Não é fácil, mas é realmente indispensável.

Bruno Cardoso Reis, obrigado mais uma vez por ter estado conosco em mais um "Gabinete de Guerra", que regressa amanhã depois da hora habitual, depois do jornal das 16h, aqui na Rádio Observador. Obrigado mais uma vez, Bruno. Um abraço.

Obrigado. Até breve.