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Oleshky, a cidade ucraniana minada e tomada pela fome que vai ter um cessar-fogo humanitário mediado por Melania Trump

Cidade junto ao rio Dnipro está há quatro anos a viver uma grave crise humanitária. Habitantes não têm alimentos, medicamentos, eletricidade e água. Casa Branca diz que Melania conseguiu cessar-fogo.

Vista aérea de Oleshky, com muitas casas destruídas
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▲Vista aérea de Oleshky, com muitas casas destruídas

▲Vista aérea de Oleshky, com muitas casas destruídas

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Na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, as forças russas estacionadas no norte da Crimeia (região ucraniana ocupada desde 2012) avançaram livremente pela região de Kherson, encontrando pouca ou nenhuma resistência dos militares ucranianos. Era apenas mais uma das frentes da invasão que surpreendeu a Ucrânia nesse dia. Em poucas horas, as forças russas ocuparam várias cidades do oblast de Kherson, nomeadamente Oleshky, no caminho para o objetivo maior: a tomada da capital da região, a cidade com o mesmo nome, que acabou por cair nas mãos das forças russas uma semana depois.

Mas enquanto Kherson foi reconquistada pelas forças ucranianas alguns meses depois, Oleshky continua, até hoje, ocupada pela Rússia, e a viver uma grave crise humanitária. Os constantes ataques de drones e bombardeamentos de artilharia tornaram impossível a entrega de alimentos e medicamentos ou a retirada de civis por via terrestre. Dos cerca de 24 mil habitantes que viviam na cidade antes da guerra, permanecem aproximadamente 2 mil pessoas em Oleshky, incluindo cerca de 50 crianças, disse Tetiana Hasanenko, chefe no exílio da Administração Militar da cidade, ao jornal Kyiv Independent.

Nos últimos dias, o Papa Leão XIV pediu aos presidentes da Rússia e da Ucrânia uma trégua humanitária na cidade e, já esta sexta-feira, a Casa Branca anunciou, em comunicado, que a primeira-dama, Melania Trump, conseguira um cessar-fogo entre as partes. A trégua deverá entrar em vigor a 29 de outubro para permitir a entrada de ajuda humanitária e a retirada de civis.

Trégua humanitária anunciada pela Casa Branca arranca a 29 de outubro

“A primeira-dama Melania Trump e a sua representante trabalharam diretamente com os líderes russos e ucranianos para definir os termos do cessar-fogo. A primeira-dama conseguiu que as partes chegassem a um consenso quanto aos objetivos, procedimentos técnicos, calendário, processos e termos do acordo, no seu papel formal de Intermediária Exclusiva”, lê-se no comunicado, sublinhando que “ambos os países concordaram em suspender temporariamente todas as ações militares”.

Leão XIV ligou a Zelensky para pedir trégua humanitária em Oleshky, dias depois de fazer o mesmo com Putin

Embora a Casa Branca garanta que Melania Trump foi a única intermediária no processo de paz em Oleshky, o Papa Leão XIV já tinha assumido o mesmo papel. Na última segunda-feira, Leão XIV falou com o Presidente ucraniano e pediu uma colaboração com a Rússia que permita a chegada de ajuda à cidade ocupada, na região de Kherson. Já antes, na sexta-feira, tinha também falado por telefone com o Presidente russo, Vladimir Putin, para lhe pedir uma trégua que permitisse aliviar a “grave crise humanitária” em Oleshky. Na altura, em reação à conversa, Putin agradeceu ao Papa os esforços para encontrar uma solução para o conflito na Ucrânia mas atirou responsabilidades para a Ucrânia.

“Em resposta à preocupação do pontífice com o destino da população civil na localidade russa de Oleshky, na região de Kherson, foram oferecidas explicações pormenorizadas sobre a responsabilidade do regime de Kiev na difícil situação humanitária que se vive no local”, referiu a nota da Presidência russa após a conversa com Putin.

A crise humanitária em Oleshky é uma realidade vivida pela população civil desde 2022. Oleshky fica na margem esquerda do rio Dnipro, em frente a Kherson, a cerca de nove quilómetros da capital da região.

Temendo uma reconquista da cidade pelas forças ucranianas (durante a contraofensiva de novembro desse ano), as forças russas minaram a cidade. “As pessoas estão desesperadas e simplesmente caminham por estradas minadas (para escapar)“, disse ao Kyiv Independent um morador de Oleshky, sob anonimato. Com dificuldades em fugir, os habitantes que ainda vivem na cidade — muitos deles idosos — não têm também o que comer. “No Ano Novo, já havia escassez de ovos e mal conseguimos comprar maçãs. Depois, não vimos mais nada disso até à primavera. E quando vimos, os preços estavam exorbitantes”, disse o mesmo morador, garantindo que até as entregas de pão foram interrompidas.

Segundo Tetiana Hasanenko, a última entrega de alimentos bem-sucedida na cidade ocorreu a 26 de maio. “Não há absolutamente nenhuma carne, farinha, óleo, manteiga, pão ou outros produtos básicos na cidade”, garante.

Não há carne ou pão em Oleshky. Moradores comem sopa e ervas

Para além de não abastecerem a cidade, as forças russas também não permitem a entrega de alimentos. No início de junho, drones russos atacaram veículos que transportavam alimentos, matando os dois motoristas. Já em setembro, as forças russas frustraram outra tentativa de entregar alimentos à cidade ao atacarem cinco veículos com drones.

▲ Veículos que transportavam alimentos para Oleshky foram atacados por drones em setembro

Ainda assim, no final de setembro, os militares ucranianos realizaram uma operação de abastecimento aéreo, lançando drones que transportaram alimentos, água e medicamentos, distribuídos por uma centena de pontos. No entanto, não é certa a quantidade de alimentos e fármacos que efetivamente chegaram aos habitantes, com Kiev a acusar Moscovo de ter intercetado parte das entregas e o Kremlin a responder que é a Ucrânia que tem bloqueado a entrega de ajuda humanitária.

Perante o agravamento da situação alimentar na cidade, o Museu do Holodomor da Ucrânia — dedicado a preservar a memória dos 4,5 milhões de ucranianos que morreram de fome, imposta pela URSS, entre 1932 e 1933 — divulgou um comunicado em setembro a alertar para a “fome” como “um dos problemas mais graves” em Oleshky.

Nalgumas mensagens divulgadas pelo jornal The Guardian, alguns moradores confessam que fazem apenas uma refeição por dia, com o que nasce da (fértil) terra ucraniana: sopa sem batata, feita com abobrinha cultivada no que antes eram os canteiros de flores dos prédios da cidade, às vezes beldroegas colhidas na natureza, uma erva daninha comestível.

Quem mais ganha com explosão da barragem? Tudo aponta para a Rússia, que rejeita e fala em “sabotagem” de Kiev

Hospital local não tem medicamentos ou materiais básicos. E não há energia

O hospital local também não tem medicamentos e materiais médicos básicos, eletricidade ou água corrente, estando com dificuldades para funcionar, disse Hasanenko. “Mas não há absolutamente nenhum material médico. A única coisa que eles podem fazer é… estancar as hemorragias. Não há medicamentos”, garante.

Para além de terem minado Oleshky por temerem o avanço das forças ucranianas para além do rio Dnipro (que neste momento separa os dois lados do conflito no oblast de Kherson), as forças russas destruíram, já em 2023, a barragem de Nova Kakhovka, para impedirem os avanços ucranianos numa outra contraofensiva lançada por Kiev.

▲ Fachada do hospital de Oleshky, com danos provocados pela guerra

A destruição da barragem teve sérias consequências para a cidade: para além das mortes associadas às inundações que se seguiram (e que terão feito entre 200 e 300 vítimas mortais só naquela cidade), o incidente teve também um efeito a longo prazo. Era da barragem que vinha a energia que permitia alimentar a população e os serviços essenciais e que também servia para garantir água potável. Desde então que o hospital funciona com geradores. E em muitas casas não há eletricidade nem água.

Foi a 26 de maio que ocorreu a última evacuação de Oleshky, de acordo com Hasanenko, devido à falta de cooperação das autoridades russas. A Ucrânia tinha preparado uma missão de evacuação humanitária para Oleshky e aprovado uma lista de civis que precisavam de deixar a cidade, sendo que o Comité Internacional da Cruz Vermelha também manifestou disponibilidade para participar. Enquanto decorresse a operação, a Ucrânia comprometera-se a garantir um cessar-fogo, disse Dmytro Lubinets, defensor dos direitos humanos da Ucrânia, ao Kyiv Independent. Mas a Rússia manteve-se irredutível, não reconhecendo, sequer, a situação humanitária grave que se vive na cidade.

O Kremlin tentou retratar Oleshky como uma cidade em funcionamento, organizando visitas e tirando fotografias na cidade ainda esta primavera, sublinha Dmytro Lubinets. Nas últimas semanas, alguns moradores começaram a caminhar sozinhos ou em duplas de Oleshky até à vila vizinha de Radensk (uma caminhada de cinco a seis horas), enfrentando estradas minadas pelas forças russas e céus cobertos por drones russos.

“Eles correm o risco de serem atingidos por uma mina terrestre ou por um drone, mas mesmo assim vão, porque ficar em Oleshky é ainda pior para eles“, disse Lubinets. “Há quatro ou cinco meses, ainda era possível sair de carro. Agora, a única opção é ir a pé.”

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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