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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos hoje Martinho Lucas Pires, especialista em Direito Internacional. Boa tarde, bem-vindo a este Gabinete de Guerra. Martinho, as últimas horas ficam marcadas pelo escalar de ataques entre a Arábia Saudita, os houthis e também o Iémen, com impactos significativos nos preços do petróleo. Que significado exatamente tem esta escalada?

Olá, muito boa tarde, Luís, e muito obrigado por me terem aqui. Esta escalada tem uma justificação imediata, mas também uma justificação um bocado antiga. Ou seja, os houthis são uma força política que está no norte do Iémen, que está em confronto desde há vários anos com o poder político no Iémen e que fazem parte das forças próximas do Irão, juntamente com a Hezbollah e com a Hamas, e que estão, de certa maneira, também a usar o apoio iraniano para destabilizarem a região, que é, no fundo, o grande objetivo também do regime iraniano nesta altura. Ao mesmo tempo, os houthis têm uma relação, vamos usar uma expressão mais simples, complicada com a Arábia Saudita. Isto porque a Arábia Saudita tem sido muitas vezes aliada do Iémen na repressão das forças dos houthis e, portanto, este escalar do conflito que imediatamente tem que ver com o exercício de uma pressão por parte dos houthis para desenvolver a sua agenda de caos que o Irão quer causar dentro da região, para continuar a propagar problemas não só na economia mundial, mas também alguma destabilização na zona daquilo que são aliados clássicos dos Estados Unidos, mas também vem desde uma conversa já antiga e de um conflito já antigo que já tem alguma história entre ambos os povos, no caso entre a Arábia Saudita e os houthis.

E de resto, eu falava há pouco da questão da escalada do preço do petróleo, que também acontece por causa daquilo que tem sido o conflito entre os Estados Unidos e o Irão, com uma noite de ataques, nomeadamente com navios petroleiros como alvo, e daí também esse impacto no preço do petróleo. Este é mais um foco que pode dificultar ainda mais o entendimento entre Estados Unidos e Irão?

Sim, Luís, o grande problema deste conflito é que os Estados Unidos perceberam um bocado tarde, depois dessa intervenção, como é que isto escalou, sobretudo para a questão da economia mundial e para a economia das empresas, porque o risco da subida do preço do petróleo depois tem um impacto em vários setores de idade. E o Irão também percebe, e as suas forças políticas, da enorme força de pressão que têm sobre aquele eixo. E é por isso também que dentro das discussões que estavam a ser feitas, das negociações que estavam a ser feitas entre os iranianos e os Estados Unidos, sobretudo em Genebra, no início, até se falava da discussão de fechar o canal, de os iranianos continuarem a fechar o canal, ou pelo menos a gerirem o canal até como benefícios económicos para eles. Claro que a China, que outros Estados estão a tentar encontrar outras vias para ultrapassar o Estreito de Ormuz ou para não criar tanta dependência dentro do Estreito de Ormuz, mas por ora os estreitos ainda têm um peso muito significativo na transmissão de materiais energéticos para outras partes do globo. E enquanto o conflito continua, porque os iranianos foram atacados e querem também demonstrar que estão vivos e que estão a intervir dentro e têm possibilidade de se reerguer, os americanos, por um lado, começaram esta intervenção, não percebem ainda bem como é que vão até lá sem perder a face e têm de manter pelo menos alguma coisa a acontecer neste período. E este ataque a petroleiros e a navios de parte a parte é apenas um dado no meio de todo este conflito.

Também nos últimos dias, no dia de ontem, ficámos a saber que o Reino Unido vai impor sanções aos colonatos israelitas na Cisjordânia. Os Estados Unidos já disseram que não vão apoiar essas sanções, que, no entanto, são apoiadas também por outros países europeus. Que consequências exatamente é que estas sanções poderão ter, Martinho?

Luís, a questão é complicada, porque esta atuação do Reino Unido, que foi mencionada ontem por Ed Miliband, ministro dos Negócios Estrangeiros no Parlamento, tem a ver com, no fundo, uma sanção de prever a importação de produtos vindos de zonas ocupadas pelos colonatos israelitas. Isto vindo como resposta àquilo que o Reino Unido considera que é a inaceitável colonização da Cisjordânia e proposta também a colonização do espaço de Gaza por parte de colonatos israelitas e que tem tido, segundo o entender do governo britânico, a complacência de Israel. E o Reino Unido aqui está a responder desta maneira ou tomou esta medida para tomar uma posição de intervenção, uma posição que eles dizem que vai ser seguida também pela França e pelo Canadá. Claro que sendo o Reino Unido, França e Canadá, aqui estamos a falar de três Estados, um Estado da União Europeia, França, um Estado que está fora da União Europeia e tem ainda um peso importante na economia europeia, que é o Reino Unido, e o Canadá. Estados que, no plano internacional, têm estado não só contra a atuação israelita em Gaza, mas também contra a política externa seguida pelos Estados Unidos da América nesta altura e, no caso do Canadá, até com grandes tensões ao nível das políticas comerciais. É um primeiro passo, uma primeira iniciativa que, dependendo do número de Estados que vão aderir, pode criar alguma pressão sobre Israel para fazer algo quanto à questão dos colonatos. Ao mesmo tempo, é preciso perceber que, como o Luís disse, os Estados Unidos disseram que não iam apoiar isto. Aliás, os Estados Unidos até disseram mais. Mike Huckabee, embaixador dos Estados Unidos em Israel, veio dizer que isto pode ter muitos danos para empresas britânicas nos Estados Unidos, quase a dizer que podia haver uma retaliação americana perante o Reino Unido por esta atuação contra o seu aliado israelita. É preciso vermos também como é que isto vai processar. É preciso relembrar que Israel também está em período de eleições e que esta medida também pode ter um impacto dentro das próprias eleições, de criar alguma relação contra o Reino Unido. Israel tomou já medidas, o governo israelita já tomou algumas medidas contra o Reino Unido, impediu a entrada de alguns representantes britânicos no país, exigiu a retirada do embaixador de Jerusalém, exigiu a retirada também de vários membros britânicos de organizações humanitárias que estavam a operar em Israel. No curto prazo, estamos a ver estas medidas retaliatórias mais simples. No médio prazo, dependendo do número de Estados que subscrevem esta medida, não estou a ver Israel de repente a criar um conflito, uma situação diplomática, ou vejo Israel a meter-se numa situação diplomática complicada se tiver de fazer o mesmo perante o Canadá e perante a França, embora estes Estados ainda não tenham declarado publicamente, pelo menos, o seu apoio ao Reino Unido. Isto pode levar a uma escalada e uma pressão, e é um símbolo de um certo isolamento de Israel dentro da política externa devido também às ações que ocorreram em Gaza.

Martinho Lucas Espir as, obrigado pela sua análise neste Gabinete de Guerra, especialista em Direito Internacional. Resta-me uma boa tarde.

Muito boa tarde. Muito obrigado.