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Este é o Som do Gabinete de Guerra das Manhãs 360 esta quinta-feira com a análise de Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Miguel, muito bom dia e obrigada por teres aceitado o nosso convite.

Olá, bom dia, Lidia.

Bom dia. Começamos por Donald Trump, que diz que os Estados Unidos venceram a guerra contra o Irã, mas que isso não significa o fim dos ataques e que ainda não vão sair do país. Miguel, como é que devemos olhar para isto? Venceram em que sentido? Há garantias de terem acabado com a ameaça nuclear ou venceram porque mataram o líder supremo e chefias militares?

Novamente, Donald Trump dá-nos esta lição de vitória que nós não conseguimos entender muito bem, porque Donald Trump nunca perde, nunca vai declarar derrota, e nós não sabemos muito bem quais foram os objectivos, porque esta guerra, que eu tenho vindo sempre a dizer que não é dos Estados Unidos, é uma guerra de Israel, tem várias vertentes e nós podemos olhar para esta guerra de forma diferente. Israel vê esta guerra como a grande última oportunidade de conseguir fazer duas coisas. Primeiro, acabar com o Hezbollah, com o Hamas, os Houthis, e conseguir, acima de tudo, o controle territorial do sul do Líbano, da Palestina, e acabar de vez com este regime dos Aiatolas, com este regime do Irão, tornando-se e mantendo-se a grande potência hegemônica da região, o único país com capacidade nuclear. Portanto, ficaria ali como o grande controlador de toda a região e, neste caso, deixaria de ter o problema com o Irão, e o Irão ou destruído ou a reconstruir-se, ou com o regime trocado, ou com alguma liderança meio fantoche próxima dos Estados Unidos e de Israel, portanto, acabaria por ter essa situação. Mas a realidade não é essa. Os Estados Unidos entram nisso forçados por Israel e com o único objetivo a achar que, ao entrarem nesta situação, que eles acreditaram que poderia ser uma espécie de Venezuela e que demoraria dois, três dias e que, de alguma forma, o regime ia negociar, mas entraram nisso pensando que iam fazer uma guerra indireta à China e a China vai sair daqui com um problema, porque vão controlar o petróleo do Irão. Nesta narrativa, e depois de terem assassinado o líder supremo, uma quantidade de lideranças de primeira água, e supostamente, porque é tudo uma questão agora de ser suposto, terem destruído quer o programa dos mísseis, quer também o programa nuclear, Donald Trump vai conseguir sempre declarar vitória. Agora, nós não sabemos, não conhecemos o programa dos mísseis balísticos, nós também não conhecemos aquilo que era a destruição.

E também já tinha destruído na guerra dos 12 dias, não é?

Exatamente. Essa questão de que já tinha sido tudo destruído. Nós não sabemos a narrativa. Agora, Donald Trump conseguiu uma coisa, que é uma derrota enorme, que ele não vai, de modo absolutamente nenhum, aceitar. Havia uma coisa, muito rapidamente, nos Estados Unidos que unia sempre o Partido Republicano com o Partido Democrata, que era o apoio incondicional a Israel. Acontecesse o que acontecesse. Este acordo, esta cola que unia sempre os dois partidos sobre este tema, desapareceu completamente. Nós hoje temos o Partido Democrata que não apoia mais esta posição de Israel e muito menos este governo de Israel, e mesmo dentro dos Republicanos, efetivamente, não existe mais este apoio incondicional. Portanto, Donald Trump poderá querer sair desta guerra por razões económicas e por razões políticas que não estão nada positivas. As pessoas estão contra a guerra nos Estados Unidos, não estão a favorecer e, portanto, ele poderá é usar esta ideia que ele tem sempre, que nunca tem derrotas, tem sempre vitórias e vai cantar vitória. Não sei é como é que dentro de portas poderá ser isto considerado uma vitória, quando estamos a poucos meses das midterms e Donald Trump terá, efetivamente, um problema. Para a região, isto será sempre uma grande derrota pela instabilidade que trouxe.

Entretanto, no Líbano, esta noite morreram cerca de 12 pessoas depois de novos ataques israelitas. As IDF já tinham anunciado um ataque em larga escala contra o Hezbollah. Isto numa altura, Miguel, em que 80 mil sírios deixam o Líbano e voltam à Síria. Que impacto pode ter este regresso de dezenas de milhares de sírios na estabilidade da região?

Pois é, era aquilo que eu estava a falar há pouco. Este grande problema é a grande instabilidade da região, que foi trazida por Donald Trump, e que é trazida também por parte de Israel, e esta instabilidade, acima de tudo, vai provocar algumas ondas migratórias, que de alguma forma acabam sempre por atingir a Europa, nomeadamente a Turquia, que é o grande tambor que ali está. Correto?

Sim.

Dito isto, temos aqui um problema: a Síria foi um caos durante 13 anos e começava agora, até com um novo governo, e um governo reconhecido, curiosamente, pelos Estados Unidos, e está nesta fase de se organizar, de voltar a ter alguma estabilidade. O Líbano também estava nessa fase, mas nós sabíamos que havia, e há, uma ideia expansionista de Israel ficar com o sul do Líbano, obrigando e puxando essa população para norte. Portanto, a escalada que nós podemos ter aqui é voltar a criar instabilidade na Síria e no Líbano, criando aí até a possibilidade de existir um caos permanente. E depois tem uma coisa, na questão do Líbano, o que nós temos é O que está a acontecer é: com estes ataques, que são ataques que supostamente são contra o Hezbollah, mas que atingem também a população que não é afecta ao Hezbollah, o que nós vemos é esta tensão social que vai criar, podendo efectivamente criar-se aqui um conflito que perdure por bastante tempo. E, portanto, há este problema, não só da onda migratória, mas também de termos aqui um conflito permanente.

E uma crise humanitária também, não é?

E uma crise humanitária numa região de sempre difíceis situações e que, de alguma forma, estava a tentar, através daquela ideia dos Acordos de Abraham, onde se teve a ideia, e Donald Trump nisto recebeu essa informação também por parte quer de Israel quer mesmo das monarquias do Golfo, desta possibilidade de alargar os Acordos de Abraham como forma de criar uma estabilidade política aos novos governos.

Miguel, temos falado pouco não só da Ucrânia, mas também de Gaza. Que efeitos tem tido esta guerra com o Irão no enclave palestiniano?

Israel continua a fazer as suas actividades, Israel continua a alargar a sua zona territorial. Nós sabemos que existia aquela linha amarela que efectivamente já foi ultrapassada por parte de Israel e nós sabemos que existe esta vontade expansionista por parte de Israel, ou seja, de ocupar totalmente a Faixa de Gaza, expulsando o Hamas ou terminando com o pouco que resta, nós não sabemos muito bem, e efectivamente ocupando de forma total a questão da Palestina. Mas também não nos podemos esquecer que mesmo na Cisjordânia, este tipo de expansionismo está a acontecer. Inclusive, até há pouco tempo, mesmo a Europa falava sobre isso e Ursula von der Leyen falou sobre essa situação de que o que estava a passar-se na Cisjordânia com o aumento e as autorizações por parte do Parlamento israelita na questão dos novos colonatos, é um problema sério, mas existe este pendor expansionista por parte de Israel que vai acontecer. E, portanto, como nós não estamos mais a olhar para esse ponto ou para essa região exacta, acabamos por não nos aperceber. Em relação à Ucrânia é a mesma coisa, e o chanceler alemão também o relembrou a Donald Trump quando esteve na Casa Branca de que, apesar desta questão do Irão ser efectivamente importante, devido ao tipo de regime e àquilo que é o apoio por parte do Irão aos seus proxies e ao terrorismo internacional, mas Merz disse a Donald Trump que o grande problema da Europa não é o Irão, é sim a Rússia, e que Donald Trump não deveria, de forma absolutamente nenhuma, ignorar a questão ucraniana e que deveria continuar a tentativa de negociar um acordo para a paz. Mas isto não está a acontecer, porque Donald Trump agora está preocupado com esta zona e possivelmente quando isto terminar, poderemos ir a Cuba ou mesmo voltar à questão da Gronelândia. Agora, mesmo para terminar este ponto, o que é que acontece? Ao continuarmos nesta questão do Irão, afastamo-nos também da questão da Ucrânia, não só financeiramente, porque depois não chega a tudo, mas principalmente repara esta situação, o que tem sido o gasto de mísseis defensivos pelos Estados Unidos naquela região, são uma quantidade dos mísseis que efectivamente a Ucrânia anda há muito tempo a pedir aos Estados Unidos também, nomeadamente outros mísseis. Estes de ataque são os chamados Patriots, que efectivamente os estoques estão a ser gastos naquela região, apesar de os Estados Unidos terem dito à Ucrânia que uma das razões porque não poderia dispensar esse tipo de tecnologia militar para a Ucrânia era porque não tinha em quantidade suficiente. E vemos agora que não é verdade.

Mencionaste Cuba, importa por isso recuperarmos as palavras de Donald Trump, que disse no início desta semana que vai tomar o país a não ser que haja um acordo amigável. Miguel, numa altura em que os Estados Unidos já enfrentam várias tensões internacionais, abrir aqui um novo foco de conflito com Cuba parece politicamente e estrategicamente viável?

Politicamente é viável, porque nós temos toda a Flórida cheia de cubanos e cubanos exilados que há muitos anos veem com bons olhos a possibilidade de uma intervenção dos Estados Unidos para libertar Cuba de uma ditadura que tem mais de 50 e poucos anos. E, portanto, dessa forma, acredito que politicamente é fácil para uma parte dos chamados latinos de justificar. Para o outro lado, temos aqui uma questão que é a seguinte: que tipo de intervenção é que Donald Trump iria fazer? Nós sabemos que o que está a acontecer neste momento em Cuba, humanitariamente, já é extremamente perverso. Com o bloqueio total que os Estados Unidos fizeram a Cuba neste momento, há uma quantidade de sectores que não funcionam porque já não têm capacidade nenhuma, como hospitais, escolas. Muitos departamentos dos Estados estão completamente fechados porque eles deixaram de ter acesso, por exemplo, a gasolina, a gasóleo e a outros combustíveis necessários. E, portanto, politicamente poderá ser fácil de explicar para uma parte da população. Com a questão da guerra na Ucrânia, com aquilo que é o Irão, com as promessas de Donald Trump ao grupo MAGA, digamos assim, e à sua área política de que ele iria deixar de ser um intervencionista internacional e ia se preocupar com as questões internas, acho que cai mal e acho que começa a não conseguir justificar esta ideia do presidente da paz. E as midterms estão, como eu disse há pouco, estão aí mesmo ao virar da esquina. Começa a ser difícil esta ideia para os americanos do porquê do presidente dos Estados Unidos intervir e depois intervir, digamos assim, criando também dificuldades internas com a subida da inflação, os preços de petróleo e tudo isso.

Miguel Baumgartner, muito obrigada pela análise. Bom final de semana.

Nada, obrigada.

Obrigada!

Para mim também. Obrigado