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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos esta noite a mais uma análise sobre alguns dos conflitos que marcam a atualidade. É o nosso convidado Pedro Nascimento, investigador de História Militar. Olá Pedro, boa noite. Seja muito bem-vindo.

Boa noite.

Vamos focar-nos, sobretudo, no conflito no Irão. Ontem Donald Trump disse que não vai baixar as armas enquanto não tiver destruído completamente o país, pressupomos que seja a nível militar. Ao mesmo tempo, diz que a guerra vai acabar em breve. Que leitura é que faz das sucessivas declarações do presidente norte-americano relativamente a esta calendarização? Sabemos que numa guerra é sempre incerto, mas na sua opinião, o que pretende Donald Trump para que possa abandonar o Irão?

Antes de mais, boa noite, Diana e a todos os ouvintes, e agradeço uma vez mais à Rádio Observador o convite. Retornando exatamente àquilo que Trump tem dito, e na esteira daquilo que a Diana estava a referir, nós não nos podemos seguir muito pelas calendarizações de Donald Trump. Vemos que ele tem acertado pouco. Mas Trump está definitivamente a usar uma linguagem que se aproxima daquilo a que nós chamamos de retórica de guerra decisiva. Isto não significa, pelo menos na minha interpretação, necessariamente uma guerra total no sentido clássico do termo, mas podemos dizer que se aproxima desse imaginário estratégico e como a Diana disse muito bem, em termos militares. É uma ideia de que o conflito só termina quando a capacidade militar do adversário for neutralizada de forma clara. Acaba por ter precedentes muito conhecidos, porque ao longo da história, vários líderes recorreram frequentemente a este tipo de linguagem para sinalizar uma determinação estratégica e para aqui também reforçar um efeito dissuasor no inimigo. Isto é uma forma de comunicação dirigida ao adversário, essencialmente, mas também para a opinião pública, para transmitir uma ideia de que não há qualquer hesitação, que está tudo controlado e vai correr tudo dentro daquilo que era expectável. Mas na História, muitas vezes esta promessa de uma vitória rápida é acompanhada precisamente de momentos de uma escalada. A lógica aqui parece-me, pelo menos do ponto de vista teórico, relativamente simples. Ou seja, é mostrar que estão, neste caso, os Estados Unidos dispostos a ir até o fim para obrigar o Irão a reconsiderar antes de esse fim chegar. Não sei se me faço entender, mas creio que esta será a ideia, porque é uma estratégia que é tanto psicológica quanto militar. Se o inimigo acreditar que o custo da continuação da guerra será demasiado elevado, pode optar por recuar antes da escalada atingir o clímax. Eu acho que há aqui um paralelo histórico interessante com esta ideia de guerra total, porque na Europa, no século XX, ficou associada à expressão alemã de "totalerkrieg", sem entrar demasiado nesse conceito, claro, porque surgiu num contexto muito específico da Segunda Guerra Mundial, quando a guerra entre a Alemanha e a União Soviética estava a todo o vapor. Reflete-se precisamente sobre esta lógica de levar o conflito a um ponto em que todos os recursos seriam usados e seria feito tudo e mais alguma coisa para se alcançar a vitória. Naturalmente que este contexto atual é diferente, mas esta retórica, este discurso de determinação absoluta continua a cumprir aqui uma função semelhante, que é mostrar que não há um limite pré-definido e que se quer alcançar a vitória a todo o custo. E depois, como disse, ele diz isto por um lado, mas por outro também diz que a guerra pode terminar em breve. E aqui é interessante nós fazermos uma abordagem, porque esta aparente contradição não é necessariamente incoerente, sob o meu ponto de vista, porque reparemos nisto: esta linguagem serve muitas vezes para controlar o ritmo político da guerra. E quando um líder afirma que a vitória pode chegar rapidamente, mesmo ao mesmo tempo que ameaça uma escalada massiva, de uma forma ainda que sub-reptícia, está-se a construir aqui uma narrativa estratégica de que a guerra pode acabar depressa se o adversário perceber a mensagem e ceder.

E o Irão está enfraquecido a esse ponto?

Claro que o Irão está enfraquecido, mas não sei se é esse ponto, porque um ponto que eu gostava também de focar é que, aparentemente, também há aqui uma lógica de Truman, que é a teoria do louco do Vietnã. Eu acho que é interessante as pessoas que nos estão a ouvir também pesquisarem um pouco sobre isto, porque também pode-se passar a ideia de convencer o inimigo de que o custo da guerra continuar será completamente insustentável. Só que, como fez referência, o problema aqui é que quando esta lógica é aplicada a um país como o Irão, eu diria que esta equação torna-se bem mais complexa, porque o Irão não é um ator frágil, tem capacidade regional, tem uma rede de aliados e tem, sobretudo, uma capacidade de prolongar conflitos de forma indireta, e isso já está mais do que patente, são factos consolidados e públicos Portanto, mesmo que a intenção americana aqui seja encerrar rapidamente a guerra, a realidade estratégica pode perfeitamente empurrar o conflito para uma fase mais longa e, sinceramente, eu se tivesse que apontar um caminho, seria precisamente esse.

Pedro Nascimento, ainda a propósito das declarações de Donald Trump, disse ontem o presidente norte-americano que se não tivesse havido o primeiro ataque ao Irão, o país iria, dentro de uma semana, atacar os Estados Unidos. De acordo com a sua experiência, o seu conhecimento histórico, que razões teria o Irão para fazer um ataque direto a território norte-americano? E se isso era possível, também.

Com toda a sinceridade, parece-me que seria impossível o Irão estar em condições, porque reparemos uma coisa: no domínio das meras hipóteses acadêmicas, qualquer pessoa lá em casa pode se questionar: "Então não é possível, se o Irão tem mísseis que têm alcances de milhares de quilômetros, é impossível atacar?" Não é impossível, mas qualquer ataque tem que ter uma base de sustentação. Não estamos a falar de um ataque kamikaze ou coisa parecida. Todo ataque tem que ter um intuito e para obter um resultado, tem que haver aqui uma forma de sustentação e não havia qualquer forma de sustentação do Irão fazer um ataque bem perpetrado contra território dos Estados Unidos. É evidente que os Estados Unidos, estamos a reportar ao território continental, porque se nos reportarmos a bases militares que estão em ilhas mais próximas, isso poderia acontecer, mas lá está, a tal sustentação é aquilo que fica perfeitamente na dúvida. Qual seria o intuito? O alvo primordial do Irão sabemos que está noutros sítios, que está no Médio Oriente, portanto, não iam gastar recursos sem ter essa base de sustentação. Quanto às palavras de Donald Trump, eu não quero entrar por aí, mas tendo sempre a fazer comparações e às vezes as coisas podem parecer operações de bandeira falsa para tentar justificar determinado ataque. Sinceramente, não me parece que a premissa fosse essa, e isto é mais uma daquelas justificações de Donald Trump que parecem surgir em rasgos imaginários, porque não temos informações disso e, como disse, a questão da base de sustentação leva-me a crer que seria altamente improvável o Irão ter capacidade para fazer um ataque sustentado aos Estados Unidos.

Falamos ainda da guerra na Ucrânia, que acaba por se cruzar aqui também um pouco com o conflito no Médio Oriente, até porque tanto a Ucrânia como outros líderes internacionais admitem que há um atraso das negociações trilaterais por causa não só do conflito iraniano, como dos mísseis que têm sido enviados em direção à Turquia. Estamos em condições, neste momento, de dizer que a Ucrânia está, de alguma forma, a ficar enfraquecida com este conflito no Médio Oriente?

Diana, ainda bem que aponta esta questão relacionada com os mísseis que têm sido lançados em direção ou sobrevoar a Turquia. Se me permite fazer aqui este pequeno parêntesis antes de responder diretamente à sua questão. Eu acho que este é um assunto para o qual nós devemos direcionar o nosso foco neste momento, porque a Turquia, como todos sabem, é um membro da NATO, mas mais do que isso, a Turquia ocupa uma posição geográfica absolutamente central neste equilíbrio estratégico entre a Europa, o Médio Oriente e o Mar Negro, porque este país liga vários teatros de crise. Tem fronteiras próximas da Síria, do Irão, do Cáucaso, está junto aos estreitos do Bósforo e dos Dardanelos, que são vitais para o acesso naval ao Mar Negro. Isto significa que qualquer tensão militar que envolva diretamente o território turco ou a sua segurança, não é vista apenas como um problema regional. Isto passa imediatamente a ter uma dimensão euro-atlântica. E como sabemos, porque falámos disso também há pouco tempo, quando um aliado da NATO se sente diretamente ameaçado, entra em funcionamento aquilo que poderíamos chamar de mecanismo automático de vigilância estratégica. Não significa necessariamente intervenções militares, mas implica consultas, o reforço ou análise de sistemas de defesa.

Ainda bem que fala nisso, porque temos uma percepção de que a NATO está quase inativa relativamente a esta ameaça, mas agora está a explicar-nos realmente o que deve ser feito num primeiro plano.

Isto é importantíssimo e consta na legislação. Tem que haver uma atenção política bem mais intensa do que tem havido. Mas isto pode dizer o quê? É que isto tem um efeito que muitas vezes é pouco visível, tudo isto que está a passar, que é precisamente o desviar o foco político, militar e diplomático. Há governos que estão profundamente envolvidos na gestão da guerra da Ucrânia e passam a ter que repartir a sua atenção entre vários pontos de tensão. Na prática, o centro de gravidade estratégico, podemos-lhe chamar assim, deixa de estar concentrado num único conflito, o mesmo relativamente ao Médio Oriente. Ou seja, há aqui um envolvimento e as guerras acabam por ter influência umas nas outras Para não falar do perigo militar imediato, porque os mísseis continuam a cair ou a entrar no espaço aéreo turco. Quer dizer, mesmo que não atinjam um alvo, isso significa, como eu estava a dizer, que um país da NATO está potencialmente sob ameaça directa. E sabemos as implicações disso, porque a Turquia tem sistemas de defesa aérea que são relativamente robustos, mas nenhum sistema é perfeito, nem o Iron Dome. Por isso, basta um único impacto que seja significativo numa cidade ou numa base militar para transformar um potencial incidente num problema de segurança colectiva. E isso vai ter grande influência na Europa, que é onde nós nos encontramos e sabemos qual é o perigo.

Relativamente àquele ponto em que a Ucrânia está a perder, relativamente ao conflito do Médio Oriente, isto vai causar um atraso nas conversações entre a Rússia, os Estados Unidos e a Ucrânia. A Rússia inclusivamente já disse que está pronta para fornecer petróleo à Europa, desde que seja firmado um acordo a longo prazo e não haja pressão política sobre Moscovo. Pergunto se isto é, de alguma forma, Vladimir Putin também a desviar as atenções do conflito em que está diretamente envolvido e se a Europa deve de alguma forma equacionar esta proposta do presidente russo.

Diana, indo à primeira parte da questão e até na esteira daquilo que estava a dizer, o momento que nós estamos a viver é um exemplo muito claro de como na história, e a história comprova isso, os conflitos raramente evoluem de forma isolada, porque uma guerra tende sempre a influenciar as outras e precisamente como disse, porque os recursos militares e a atenção política e diplomática são limitados. E é isso que nós estamos a ver com este cruzamento entre o conflito no Médio Oriente e na guerra da Ucrânia. Relativamente à questão de Vladimir Putin sobre a possibilidade de fornecer petróleo, a Rússia sabe perfeitamente que a energia é uma das suas principais alavancas de poder. Porque ao oferecer ou colocar isto em cima da mesa, eu creio que Putin está a tentar várias coisas ao mesmo tempo. Desde logo, está a explorar o cansaço económico europeu. Isso é o que a Rússia tenta fazer todos os dias. O que tenta fazer também todos os dias é criar divisões políticas dentro da União Europeia. E depois tenta reposicionar a sua posição. E isto não é uma estratégia nova. Mesmo durante a Guerra Fria, tanto os Estados Unidos como a União Soviética utilizaram frequentemente estes recursos económicos e estratégicos como instrumentos de influência política, porque aqui o objetivo não é propriamente vender o petróleo, é criar dependência e isso faz com que haja uma maior margem de negociação. E para a Europa, este é um dilema clássico, porque aceitar um acordo de longo prazo pode aliviar as pressões económicas, mas também pode recriar uma dependência estratégica que muitos países europeus passaram os últimos anos a tentar reduzir. Por isso, se nós juntarmos todas estas peças, percebemos que não é o melhor caminho a seguir.

Pedro Nascimento, agradeço-lhe muito as suas explicações e a partilha também dos seus conhecimentos. O Pedro Nascimento é investigador de História Militar, foi o nosso convidado esta noite do Gabinete de Guerra, que regressa amanhã. Pedro Nascimento, um resto de boa semana.

Muito obrigado.