Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Está no ar o Gabinete de Guerra, está com a Rádio Observador. Vamos falar dos conflitos em curso. Destaque para a Ucrânia e para o Médio Oriente. Eu sou o Miguel Cordeiro e vou estar nos próximos minutos a conversa com Carlos Gaspar, professor e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais, a quem agradeço. Muito boa tarde, Carlos Gaspar.

Obrigado.

Vamos começar por uma das notícias que está a marcar esta tarde, uma declaração de Zelensky que fala sobre o envolvimento da China no conflito. Diz Zelensky que o exército ucraniano combateu contra soldados chineses no leste da Ucrânia, aponta para seis soldados que estavam a combater do lado russo e diz também que dois destes soldados foram levados como prisioneiros pela Ucrânia. Zelensky já pediu aos responsáveis do governo ucraniano para obterem uma explicação junto do regime de Xi Jinping sobre o que estará a acontecer e por que razão estão soldados chineses a combater do lado russo. Que leitura faz desta situação e se, de facto, isto pode levar a um escalar das relações da Ucrânia com a China e daquilo que pode ser o envolvimento da China neste conflito?

Eu vou que não existem unidades combatentes do Exército Popular de Libertação da China na Ucrânia. Há combatentes dos dois lados, de resto. Há combatentes de todas as nacionalidades na guerra russo-ucraniana e é possível que existam também chineses. Mas, ao contrário do que acontece com o exército da Coreia do Norte, certamente não há unidades constituídas do Exército Popular de Libertação a combater na Ucrânia. É verdade que a China quer enviar o Exército Popular de Libertação para a Ucrânia, mas como parte de uma missão de interposição das Nações Unidas com o mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Ou seja, para solução de paz.

Pois, exatamente. Como são chamadas uma missão de paz com mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas em caso algum, nesta fase, o Exército Popular de Libertação aparece ao lado do exército russo. Combatentes chineses haverá, certamente. Não sei se é em ambos os lados, mas haverá certamente combatentes chineses na guerra russo-ucraniana, como há combatentes de todas as nacionalidades. Isso não deixa de ser interessante que o presidente ucraniano queira sublinhar o fato de existirem combatentes chineses na frente do lado russo. É um sinal que ele quer dar. Ele está a valorizar o fato de terem sido aparentemente capturados dois soldados chineses para, de certa maneira, construir um caso de demarcação em relação à China que o aproxime eventualmente, que o possa aproximar um pouco das posições do presidente dos Estados Unidos.

De fato, como referia, e tem sido noticiado ao longo deste conflito, desde o início, muitas nacionalidades de pessoas a combater. Noticiou-se muito, principalmente as pessoas que combatiam do lado ucraniano, norte-americanos, muitos países europeus, portugueses também a lutarem, mas nunca com as insígnias, nunca a representarem as forças desses países. Vamos então seguir para aquilo que são as declarações de Donald Trump sobre a Rússia. Ontem tivemos uma primeira crítica, hoje nova crítica dirigida a Putin e à Rússia por parte de Trump. Diz Donald Trump: "Estão a bombardear como se fossem doidos". Ontem já tinha dito: "Não estou a gostar destas bombas". Donald Trump está a deixar críticas à Rússia, mas não se vê aqui nenhuma medida concreta. É de esperar que avance alguma medida por parte dos Estados Unidos da América?

O presidente dos Estados Unidos ameaçou taxar o petróleo russo, que é um produto que os Estados Unidos não importam. E suponho que estas frases são do mesmo tipo e no mesmo registro da opinião pública dos Estados Unidos. A opinião pública norte-americana está do lado da Ucrânia, não está do lado da Rússia e, portanto, nesta conjuntura, o presidente dos Estados Unidos tem que dizer umas palavras, fazer uns ruídos que possam ser interpretados como uma crítica em relação à Rússia. A posição oficial do presidente dos Estados Unidos é que ele é imparcial entre a Rússia e a Ucrânia, o que já é suficientemente grave. Os Estados Unidos não podem ser imparcial perante um agressor e um Estado que foi invadido e cujas fronteiras foram violadas, mas mesmo essa imparcialidade parece ser inteiramente do domínio da ficção. Os Estados Unidos estão a fazer uma grande negociação com a Rússia, de que a Ucrânia é apenas um dos capítulos, o Ártico, o dispositivo militar dos Estados Unidos na Europa, o Irão, são capítulos dessa grande negociação e todas as indicações que Donald Trump tem dado é de que está disposto Forçar a Ucrânia a capitular perante a Rússia para garantir um quadro mínimo de coexistência entre os Estados Unidos e a Rússia.

Para além disto e para além destas relações que aqui estávamos a falar, dos Estados Unidos, Rússia, China, Ucrânia, há aquilo que se passa no terreno. E ontem Zelenskyy quis falar sobre o avanço de tropas ucranianas em território russo. Diz Zelenskyy e admite que as tropas ucranianas estiveram na região russa de Belgorod. É importante a Ucrânia continuar esse tipo de avanço, importante a nível de negociações e daquilo que pode levar depois para as negociações, continuar estas ofensivas em território russo?

Julgo que não. A ofensiva em Kursk, embora fosse, obviamente, um movimento militar com uma finalidade política e diplomática, apesar de tudo, foi relevante e apanhou a Rússia de surpresa. Os pequenos movimentos para o outro lado da fronteira não são obviamente a mesma coisa. A Rússia, de resto, não vai fazer mais nenhum avanço em relação a um acordo, mesmo um acordo minimalista de cessar-fogo, enquanto não recuperar todo o seu território. Para a Rússia é uma questão fixa, uma questão de princípio. Não se senta enquanto houver soldados ucranianos do outro lado da fronteira, mas isso significa ou reza uma ocupação efetiva do território. Não é isso que está a passar neste momento. A Ucrânia está numa posição vulnerável. Está em contagem decrescente, porque vão terminar os fornecimentos de armas norte-americanos que foram decididos pelo Congresso ainda no tempo do presidente Biden. Eles duram apenas até ao princípio do verão e depois disso a Ucrânia vai estar numa situação muito difícil, dependente essencialmente dos seus aliados europeus.

Vamos falar aqui também um pouco da situação no Médio Oriente, até porque ontem houve esse encontro com Netanyahu e Trump. Houve algumas garantias que surgiram, como por exemplo, a garantia de estarem a trabalhar num acordo para libertar reféns. Sem muitos detalhes, mas isto na essência foi o que foi dito. Gostaria de perceber o que é que retira deste encontro entre Netanyahu e Trump e também nestas declarações.

É evidente que o primeiro-ministro de Israel não vai a Washington encontrar-se com o presidente dos Estados Unidos para tratar de reféns. Para o bem e para o mal, nós sabemos que a libertação dos reféns não é uma prioridade na estratégia do primeiro-ministro israelita. Ao contrário, a questão do Irão também, a questão da fronteira com a Síria, são questões efetivamente muito importantes, mas sobretudo a questão do Irão, que foi iluminada pelo facto de os Estados Unidos terem deslocado duas esquadras de porta-aviões para o Índico numa postura agressiva, que ameaça ao Irão. É essa a questão que está em cima da mesa, esta oscilação entre a negociação e a ameaça na relação entre os Estados Unidos e o Irão, que é uma questão central, e é claro que os Estados Unidos não imponham nesse domínio cedências importantes ao primeiro-ministro israelita.

Falava aqui desta questão do Irão, porque de facto ontem Trump também disse que os Estados Unidos da América vão negociar diretamente com o Irão. Há encontro marcado para sábado.

É isso que justifica esta visita do primeiro-ministro israelita. Tal como aconteceu em relação à Ucrânia, o presidente dos Estados Unidos quer fazer a todo o custo um acordo com o Irão, como quer fazer a todo o custo um acordo com a Rússia para terminar as guerras no Médio Oriente e na Europa. E da mesma maneira que quer impor cedências muito sérias a Zelensky, provavelmente também quer impor cedências muito sérias a Netanyahu.

A verdade é que, apesar de todas estas reuniões e todas estas tentativas de acordo e de entendimento, ainda não temos visto muita luz verde a acordos com Donald Trump. Com o Irão podemos prever algo diferente?

Não creio. Não creio que seja possível prever um caso diferente em relação ao Irão. A Rússia não está preparada para fazer a paz na Ucrânia. O Irão tem um contexto diferente. Nós não conhecemos quais são os termos que estão em cima da mesa, mas a postura geral das potências revisionistas, China, Rússia, Irão, é uma postura ofensiva. Putin está na ofensiva no território ucraniano. A China repetiu um ensaio de cerco a Taiwan durante os últimos dias. O Irão está numa posição mais vulnerável, mas não é claro que esteja preparado para ceder. Mas depende dos termos concretos que estejam em cima da mesa e que cedências é que os Estados Unidos estejam preparados para fazer no domínio do programa nuclear militar iraniano.

Muito bem. Entretanto, a notícia também dos últimos minutos. Há uma nova ronda de negociações entre Estados Unidos da América e Rússia a ser agendada para a próxima quinta-feira, dia 10 de abril. Enquanto este gabinete de guerra chega ao fim, Carlos Gaspar, muito obrigado por ter estado connosco aqui na Rádio Observador.

Obrigado.