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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise de Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito obrigado por ter aceitado este nosso convite, Jorge Rodrigues, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar por falar da situação no Médio Oriente, nos avisos por parte do Irão, que diz que vai responder se Israel continuar a atacar o Líbano. Jorge Rodrigues, está em causa o memorando e tudo o que já foi alcançado com esta possível resposta do Irão?

Boa tarde, Rafael. Em boa verdade, é normal haver estas perturbações nos char fogos, em todos os processos há, seja diretamente pelos atores, seja algumas vezes irritações criadas por falsa bandeira, outros atores que não estão em conformidade e alinhados, portanto, é perfeitamente normal. Agora, a resiliência a estas perturbações é que são determinantes no sucesso dos processos. Neste caso concreto, há aqui muita vontade das duas partes em alinhar e inclusivamente é curioso que o memorando de entendimento no artigo primeiro acaba por obrigar os aliados dos Estados Unidos e do Irão a cumprir o acordo, que por si nem é legal e parece pouco prático e ligado à realidade. No caso concreto, temos que ser justos, Israel tem respondido a ações do Hezbollah. Tem esse direito, é um direito perfeitamente identificado, o que é questionável será sempre o tipo e o nível de resposta. Esse ponto será sempre, obviamente, de considerar, tendo em conta o histórico também da atual liderança israelita. Mas, em boa verdade, o Hezbollah não atua per si, portanto, as suas ações são coordenadas a partir de Teerão. Há aqui uma gestão interna e o que nos leva à pergunta: por que interessa ao Irão essa destabilização? E o porquê também de fazer este tipo de ameaças, que uma coisa estará diretamente ligada com a outra. Em primeiro lugar, porque tem um sistema interno ao qual tem que dar resposta a uma dimensão interna mais extremista que poderá ganhar força se não houver aqui algum tipo de intervenção um pouco mais dura. Depois, por outro lado, há o fator tempo, que está identificado há muito como sendo algo vantajoso para o Irão e uma arma que o Irão pode utilizar a seu favor. Israel, é o terceiro ponto, é sempre um adversário vendável na região, quase um inimigo comum da maioria dos atores da região, do Golfo, mesmo dentro do mundo muçulmano e, portanto, de alguma forma melhora a posição do Irão na reorganização da ordem regional, poderá colocá-lo numa melhor posição para o pós-conflito. Por fim, sabe que os Estados Unidos, de alguma forma, pelo interesse que têm em resolver rapidamente as questões, irá forçar Israel a restringir as suas ações e irá colocar Israel numa posição um pouco mais frágil, o que naturalmente interessa diretamente aos interesses do Irão. Passe o mau português, mas verdadeiramente o que está aqui em causa é forçar um pouco as possibilidades de êxito, visto que, como diz Donald Trump, quem tem as cartas joga e neste momento há aqui cartas que o Irão tem e que pode fazer uso.

Jorge Rodrigues, não há o risco do memorando cair devido a estas respostas de ambos os lados? Temos Israel que ataca, afirmando que está a responder a ataques do Hezbollah, e o Hezbollah a atacar Israel, a dizer que está também a responder a ofensivas israelitas. Como é que se quebra este círculo vicioso?

Não é fácil, mas a verdade é que há aqui interesse das duas partes e nesse aspecto têm que ser valorizados os interesses. Não há um equilíbrio estratégico, não há definitivamente isso, mas há a identificação de que a paz é melhor do que a guerra por parte dos dois atores. E nesse sentido, julgo que há uma base comum. Só que o memorando em si é demasiado genérico para nós conseguirmos avaliar se o processo cai ou não cai. Portanto, é tão genérico que a latitude é enorme e, portanto, vários acontecimentos podem ser incluídos sem colocar em causa o dito roteiro, porque o acordo sobre esse roteiro é, como eu digo, muito lato. Nesse sentido, julgo que é importante ir buscar o que é essencial, e o essencial é que ambos querem a paz e, portanto, de alguma forma estão reunidas as condições para prosseguir, mesmo com algum tipo de escaramuças. No entanto, o perigo está lá, naturalmente. A probabilidade é menor, mas o perigo está lá e isso poderá sempre acontecer e poderá levar novamente a um conflito mais aberto, porque há desconfiança, porque há o fator Israel, sem dúvida alguma, mas que temos que ligar diretamente aos proxies e aos interesses do Irão. E já percebemos que os Estados Unidos, por vezes, abandonam os seus aliados quando deixam de ter interesse. Portanto, há sempre margem para uma nova fase de conflito, mas repito, neste momento parece-me que não é isso que estamos a pensar, será mais um irritante do processo que propriamente outra coisa, se bem que se o Hezbollah continuar a atacar interesses israelitas, seja militares, seja civis, naturalmente vamos esperar por reações de Israel que poderão escalar.

E aí Donald Trump pode vir a ser obrigado a agir perante Israel, a dizer a Benjamin Netanyahu para colocar um ponto final?

É um ponto preocupante. Como eu dizia há pouco, ainda não há equilíbrio estratégico e há interesses concorrentes, há desconfiança, há ataques. Israel pretende ainda atingir objetivos político-militares e maximizar os sucessos, portanto disse "não iremos ser inocentes". Mas o que eu vejo aqui é um afastamento conjuntural apenas entre as duas alianças. Não é propriamente um afastamento definitivo. E aliás, Netanyahu sempre foi conhecido por levar as administrações norte-americanas ao limite. Não me recordo de uma única administração que não tenha que ter uma posição um pouco mais dura com Netanyahu, porque ele vai sempre explorando, nunca dando nada em troca. E portanto, é mais uma vez, se calhar um bocadinho mais audível, um bocadinho mais visível, porque são as características também da administração de Donald Trump, mas em verdade, isto já se passou em vários momentos do passado. Mas é certo também que nenhum primeiro-ministro de Israel, seja qual for, irá abdicar da segurança. É algo que é essencial. A ameaça existencial existe e a segurança do país é uma prioridade, é talvez a primeira prioridade, é um interesse vital por parte do governo israelita. Trump irá de facto demonstrar o seu poder, se necessário, mas julgo que será maioritariamente de forma conjuntural e de uma narrativa comunicacional mais do que qualquer outra, porque ambos têm interesse em manter a relação. Vai haver um arrufo mais alargado, possivelmente, se a situação assim se colocar, mas não acredito nem nada muito determinante como ação. Volto a dizer e resumindo, haverá uma narrativa comunicacional pondo nestes termos.

Vamos avançar, falar também de críticas iranianas que acusa a Europa de se ter comportado de forma irresponsável durante as guerras recentes contra o Irão. São, Jorge Rodrigues, críticas justas?

Em verdade, há muitas críticas que se podem apontar à Europa. Algumas são mais realistas do que outras. O argumento do Irão, por que considera a crítica justa? Porque realmente há um silêncio seletivo e uma certa conivência com a agressão, de facto. Há uma inação diplomática e inclusivamente chegou a haver uma ameaça de intervenção europeia. Percebo o ponto de vista iraniano. Naturalmente, que a Europa tem outro ponto de vista. Sabe que o Irão é uma ameaça global, seja pelo nuclear, seja pelos mísseis balísticos, que nós verificamos que atingem 4 mil km e não os 2 mil que se pensava antes. Há um risco de bloqueio do Estreito de Ormuz, mas também Bab-el-Mandeb. Há ameaças de retaliação terrorista, há ameaças sobre os direitos humanos em nível interno, há a destabilização regional. Portanto, há imensas questões que poderão justificar a posição europeia. Mas eu acho que verdadeiramente nós temos que ir pra outra direção. As críticas que interessam, neste caso, deveriam ser sobre não ter uma posição comum sobre o tema. A Europa, mais uma vez, falhou nisso. A Europa tem valores e um deles é a primazia do direito internacional público sobre a projeção de força. Mas a outra questão é não ter havido "acterness" durante o conflito. Nessa ameaça real do Irão, a Europa respondeu dentro daquelas características de potência vegetariana, potência sem capacidade de impor qualquer tipo de posição. E isso é que é preocupante. A Europa perdeu mais uma vez a oportunidade de ser um ator geopolítico, mais uma vez não é ouvido e obviamente isto paga as consequências. Não é só para política interna e tentar passar ao lado das grandes questões, não está disponível para qualquer tipo de projeção de força, mas naturalmente que isso depois tem impacto na sua verdadeiramente capacidade de defender os seus interesses em nível global.

Temos ainda três minutos para abordar uma questão que envolve a Agência Internacional de Energia Atômica. Tivemos J.D. Vance a dizer que o Irão abria as portas para inspeções. Hoje, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão vem dizer que não é bem assim e que não há ainda um calendário para essas inspeções e, na última hora, também Donald Trump insiste na retórica de J.D. Vance, a dizer que o Irão efetivamente concordou com inspeções nucleares e que houve concessões que o levaram a concordar para manter o estreito de Ormuz aberto. Que conclusões é que podemos tirar, Jorge Rodrigues, destas palavras, quer do lado iraniano, quer também do que escreveu Trump, com base no que tinha dito J.D. Vance?

Este é o dossier mais relevante de todos e a prova disso é a maneira como se tem discutido na temática. E por quê? Porque realmente, logo à partida, é a segurança global que está em causa. Por outro lado, visto do ponto de vista do Irão, é uma segurança anti-invasão que o Irão procura, como é o caso, por exemplo, da Coreia do Norte. Mas é também um tema central da retórica de justificação da operação militar. Como tal, Donald Trump tem que conseguir vitórias aqui, tem que conseguir algo palpável, caso contrário, será sempre comparado com o que Obama tinha conseguido no seu gestão. Repare que há aqui maior escrutínio, portanto, é essencial nesse aspecto haver aqui resultados concretos. O envolvimento da Agência Internacional é muito importante neste escrutínio, porque é uma entidade independente, consegue fazer uma avaliação de facto, faz uma fiscalização do desenvolvimento civil do processo e assegura um acompanhamento e, de alguma forma, a prevenção de escalada. Mas o histórico não é particularmente positivo e é isso que poderá estar aqui em causa, é como se consegue verificar a evolução. E este ponto é determinante, porque não conseguindo sucesso neste ponto, definitivamente não se irá conseguir a nível global. Repare que outras questões já foram completamente esquecidas. Os proxies, mudança de regime, controle dos mísseis balísticos já foram completamente lançados para segundo plano. Neste momento, temos dois assuntos em cima da mesa: é o nuclear e a utilização, fala-se em Ormuz, mas nunca poderemos esquecer Bab-el-Mandeb, a livre circulação sem pagamento de qualquer tipo de portagens nestes estreitos. Portanto, estes serão os dois pontos que serão mais escrutinados, e o nuclear mais do que todos, porque é uma ameaça global efetiva, naturalmente que será ponto determinante e qual Donald Trump não pode abdicar com risco de estar em causa a sua própria credibilidade interna e, naturalmente, pagando as consequências em sede de votações.

A questão nuclear, um dos pontos-chave nesta situação que envolve o Irão e também os Estados Unidos da América. Chegamos ao final do nosso tempo, fica por aqui o "Gabinete de Guerra", hoje com a análise de Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, a quem agradeço a disponibilidade e a análise. Muito obrigado, Jorge Rodrigues. O "Gabinete de Guerra" fica por aqui e fica também, como sempre, disponível em podcast.