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Começa agora o Gabinete de Guerra das manhãs 360, esta quarta-feira com análise de Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Bom dia, Francisco, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Muito bom dia.
Bom dia. Começamos pela nova ronda de negociações entre Estados Unidos e Rússia esta quinta-feira em Istambul. Francisco, o que podemos esperar de mais um encontro? Mais concessões da Casa Branca que, por exemplo, deixou de fora Moscovo na lista de país-alvo de tarifas?
Em princípio, aquilo que se vai discutir são as questões relacionadas com os cessar-fogos parciais que a Federação Russa terá aceito, e a Ucrânia também, porque o cessar-fogo total foi rejeitado pelos russos. Agora é preciso implementar aquilo que Putin aceitou fazer, que estamos a falar, no essencial, sobre o cessar-fogo no Mar Negro, que é muito complicado de se atingir. E por outro lado, a questão que tem sido discutida é geral, sobre a possibilidade de se avançar para um cessar-fogo total. Eu creio que são os detalhes técnicos desses cessar-fogos que são exatamente muito difíceis de alcançar. Por exemplo, na Coreia, que temos um armistício, esse armistício durou meses a ser negociado. Portanto, se queremos avançar para cessar-fogos parciais, eles têm que ser implementados. E a questão, por exemplo, do cessar-fogo inicial sobre os ataques à infraestrutura elétrica ucraniana e energética russa, é preciso, por exemplo, definir quais são então os locais que não podem ser atacados. E muitas vezes estamos a falar de dezenas, centenas de locais que têm que ser acordados entre as partes. E aquilo que temos verificado nas últimas semanas é uma violação desses cessar-fogos, ainda que episódica. Portanto, a guerra continua e não há sinais de que esteja a decrescer em intensidade. Pelo contrário, aquilo que se estima é que agora, vindo a primavera, regressem as ofensivas russas e, portanto, os ucranianos estão-se a preparar para isso. Agora, a secção das tarifas é muito interessante, porque vemos Trump usar tarifas sobre o mundo inteiro, menos sobre a Federação Russa, apesar de certa altura ter ameaçado com tarifas à Rússia, se a Rússia não cumprir.
Exato, com sanções.
Exatamente, mas a Rússia não cumpre.
E ainda assim.
E essas sanções não chegam, o que é notável.
Entretanto, no terreno, na Ucrânia, Zelenskyy diz que o exército combateu soldados chineses no leste do país e que vai pedir satisfações à China. Francisco, que resposta deve o presidente ucraniano esperar de Pequim?
É uma coincidência dos diabos, que esta notícia surja no dia em que há uma guerra comercial aberta entre os Estados Unidos e a China. E Zelenskyy fez ontem uma conferência de imprensa a dar nota que foram encontrados alguns soldados chineses. Estamos a falar de muito poucos. Eles falaram de seis, vimos imagens de dois.
E que dois foram detidos.
Isto é um enorme embaraço para a Federação Russa e também para a China, especialmente, porque eu creio que aquilo que Zelenskyy pretende é criar uma clivagem entre os Estados Unidos e a Rússia. Estávamos a falar há bocado das negociações. Há muita gente que diz que os Estados Unidos podem estar a tentar fazer aqui uma espécie de Kissinger ao contrário, no fundo, afastar a Rússia da China. E portanto, Zelenskyy vem aqui dizer: "Atenção que a Rússia está profundamente empenhada na guerra na Ucrânia, inclusivamente há chineses a combater pela Federação Russa". Evidentemente, nós não sabemos se estes chineses pertencem ao Exército de Libertação Popular, provavelmente não. Portanto, não é uma situação semelhante aos Estados norte-coreanos, que estão efetivamente a combater na Rússia e são soldados do exército da Coreia do Norte. Isso podem ser chineses que foram recrutados pela Federação Russa, porque a Federação Russa tem, de facto, que constantemente repor as baixas que vai sofrendo no campo de batalha e já se estima que possam estar perto de 1 milhão entre feridos e mortos. Portanto, é muito provável que não sejam oficialmente soldados chineses. Ainda assim, mostra que, de facto, a China não se importa que alguns dos seus cidadãos vão combater na Ucrânia, porque esta neutralidade que muitas vezes os chineses dizem que têm, não é verdadeira. Agora, se de facto isto acontece, os ucranianos querem dar notícia disso justamente para mostrar aos Estados Unidos que é necessário fazer alguma coisa. E portanto, se os Estados Unidos neste momento estão a escalar o conflito com a China, inclusivamente o secretário de Defesa falou da possibilidade de utilização da força armada para defender Taiwan, ficou aqui numa situação muito complicada, estando a Rússia envolvida com a China num conflito contra a Ucrânia. No fundo, para mostrar: "Nós somos os verdadeiros aliados, eles são o inimigo". Eles, a Rússia e a China.
Entretanto, o Pentágono parece estar a ponderar retirar cerca de 10 mil soldados norte-americanos, que estão atualmente destacados na Roménia e na Polónia. Que impacto pode isto ter na região e que mensagem passa os Estados Unidos com esta decisão?
A mensagem é que, de facto, querem apostar na Ásia-Pacífico. Isso é evidente. E este agravar do conflito comercial com a China mostra isso mesmo. Evidentemente, isto é uma tendência que já existe há bastante tempo, desde Obama.
Sim.
Foi revertida com Joe Biden, mas aparentemente Biden foi a exceção. Portanto, os Estados Unidos estão claramente a olhar mais para a Ásia e estão, no fundo, a deixar a Europa, a defesa da Europa para os europeus. Isso já foi percebido na Europa e esta saída dos soldados mostra isso mesmo, porque esses soldados chegaram, houve um incremento da presença militar norte-americana na Europa logo a seguir a fevereiro de 22, com a ação em larga escala russa, justamente no fundo para mostrar à Rússia que os Estados Unidos iriam defender a Europa se o imperialismo revisionista russo continuar. Ao retirarem, dão exatamente o sinal contrário, que estão a desinvestir na defesa da Europa. Eu lembro que uma das propostas que Zelenskyy fez em novembro, já a pensar em Donald Trump, foi não apenas o acordo dos minerais, mas também uma ideia que na altura pareceu um pouco fantasiosa de os soldados ucranianos substituírem os americanos na Europa, no fundo, para que os americanos não gastassem tantos recursos na defesa da Europa. Mas isto é claramente uma tendência que vai continuar nos próximos anos, seguramente, e possivelmente nas próximas administrações americanas, porque realmente os Estados Unidos Estão empenhados numa competição geopolítica com os chineses e o conflito não vai passar aqui na Europa, na sua opinião, será na Ásia.
Francisco, Musk está de saída da Casa Branca, parece que vai continuar como conselheiro, mas entretanto criticou um outro conselheiro, neste caso o conselheiro comercial de Trump e arquitecto destas tarifas de que falávamos há pouco, dizendo que é um idiota mais burro que um saco de tijolos. Que leitura a fazer tudo isto?
É absolutamente extraordinário. Trump não se importa com estes conflitos dentro da sua administração, porque verdadeiramente é o método caos. Muitas vezes até decide com base na última pessoa com quem falou. Isso para ele é perfeitamente normal. Agora, este conselheiro, o Peter Navarro, foi alguém que não se importou de passar quatro meses na prisão para não testemunhar no Congresso contra Donald Trump a propósito da insurreição de janeiro de 2021. É alguém que é um herói no mundo MAGA. Mas Musk também é. Agora, o que é que Musk veio dizer? Veio no fundo dizer que esta política tarifária de Donald Trump é absurda e vai causar imensos problemas aos Estados Unidos. É aquilo que praticamente todos os economistas estão a dizer neste momento. Houve aqui um momento, um alarme de sanidade na administração americana. Só que o Peter Navarro veio dizer: "Ele não percebe nada, ele vende carros, ele está interessado em vender carros e portanto é alguém que não compreende as grandes dinâmicas que estão aqui em causa". Agora, Musk parece ser uma voz um bocadinho solitária neste momento, porque parece haver aqui um empenhamento de muita gente na administração americana em continuar com isto, apesar de haver republicanos tradicionais que são contra as tarifas, como por exemplo o Rand Paul, um senador muito conhecido. Mas nesta fase, aparentemente, Trump não vai recuar e, no fundo, assiste a isto até com algum sorriso. Ele acha piada a estas coisas. Não se preocupa demasiado com o que vai acontecendo nas redes sociais. Mas é de facto uma decisão importante, porque Musk, é verdade que já foi anunciado que ele sairia no fim de maio, mas aquilo que ele está a fazer no DOGE é altamente disruptivo. Ele está a despedir-se de milhares e milhares de pessoas e isso também vai continuar. Ele próprio, o que está a fazer é bastante problemático, mas ainda assim tem tempo para entrar em conflito com outros membros associados à administração. Uma nota, são duas pessoas que não fazem formalmente parte do governo, são conselheiros, mas têm uma importância enorme na definição das políticas públicas americanas neste momento.
Entretanto, Estados Unidos e Irão vão reunir-se este sábado para discutir o programa militar. Vão estar presentes representantes de alto nível de ambos os Estados. Francisco, a Rússia já deu os parabéns pelo encontro. O que é que pode sair daqui?
É muito difícil de prever, novamente, porque isto tem sido algo constante nesta administração, que é: há duas possibilidades, um ataque armado ou um novo acordo, e Trump parece deixar as duas hipóteses na mesa constantemente. Eu acho que isto faz parte da estratégia que ele tem em relação a todos os assuntos. Por exemplo, em relação à China, antes de lançar estas últimas tarifas, que neste momento já estão em 100%, começam hoje a 100%, enviaram um conselheiro a Pequim para negociar um novo acordo, como fez em 2020, mas em relação ao Irão, exatamente a mesma coisa. Houve uma reunião entre Netanyahu e Trump há dois dias em Washington, e Netanyahu tinha a esperança que Trump apostasse numa via mais agressiva em relação ao Irão, atacando eventualmente as instalações nucleares iranianas. E Trump veio dizer: "Não, eu prefiro um acordo, prefiro iniciar negociações com vista a um novo acordo", que no seu primeiro mandato, foi algo que foi discutido constantemente. Aliás, ele renovou o acordo que existia, mas nunca o substituiu por outro. E portanto, aparentemente está agora a pensar avançar para o novo acordo. Parece ser aquilo que ele quer fazer primacialmente. Se isso não funcionar, de facto, tem aberto a possibilidade de um ataque armado. Aliás, estes ataques que tem feito nos últimos tempos, pareciam indicar que essa seria a via. Mas agora, repare, agora final, vamos avançar na via negocial. E portanto, eu creio que está tudo ainda em aberto, até porque o Irão, tal como os chineses, também já veio dizer que não estava interessado num acordo a qualquer custo e portanto não se deixará coagir. E portanto, neste momento, as pressões adicionais, a situação está de facto muito explosiva.
Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela análise. Bom final de semana.
Obrigado.
Obrigada, Francisco.