Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. O secretário-geral da NATO voltou a reforçar o apoio da Aliança Atlântica à Ucrânia, repetindo que se a Rússia vencer esta guerra, será mau não apenas para os ucranianos, mas também para todo mundo, que se tornará assim mais perigoso. De resto, hoje, nessa reunião, os ministros da Defesa reafirmaram o apoio ao país. Isto numa altura em que, por outro lado, nos Estados Unidos, o bloqueio norte-americano já tem consequências no campo de batalha da Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, o apoio da NATO à Ucrânia pode também servir de alguma forma de uma pressão adicional sobre os Estados Unidos para apoiarem também e para aprovarem o apoio à Ucrânia?
É uma questão interessante, mas complicada. E eu confesso que estou um pouco dividido. Eu acho que os aliados europeus têm alguma legitimidade para dizer aos norte-americanos que estão a brincar com fogo, que historicamente sempre foi do interesse estratégico dos Estados Unidos ter uma Europa estável, pacífica, que não fosse dominada por uma grande potência hegemônica ou hostil aos Estados Unidos. Foi por isso que os Estados Unidos se envolveram, aliás, em duas guerras mundiais em que morreram centenas de milhares de soldados americanos. Foi por isso que se envolveram da maneira que se envolveram durante a Guerra Fria e portanto, seria quase que incompreensível que tudo isso fosse agora sacrificado por caprichos, digamos, ideológicos ou guerras políticas internas nos Estados Unidos. Por outro lado, também é verdade que nós sabemos que historicamente as tentativas de atores externos, de alguma forma influenciarem a política interna, muitas vezes não correm bem. Os Estados Unidos tiveram muitos exemplos disso, de interferências na política de outros países que correram bastante mal e que se revelaram contraproducentes. E mesmo no caso, por exemplo, ainda recentemente, o presidente Obama, na questão do referendo do Brexit, deixou muito claro que achava que isso era uma má ideia e, portanto, apoiou a rejeição da saída da Grã-Bretanha. E obviamente os britânicos acabaram por votar como entendiam, ignorando a proximidade histórica de relações com os Estados Unidos. Portanto, não estou seguro que seja estas declarações do secretário-geral, que eu acho que são bastante acertadas e que estão corretas, nem as declarações, por exemplo, do ministro dos Negócios Estrangeiros, David Cameron, também ontem, se elas serão assim tão eficazes, se irão realmente funcionar no sentido de pressionar os republicanos para aprovar realmente esta ajuda militar à Ucrânia, que é cada vez mais urgente. Acho que é sobretudo muito importante os europeus também passarem esta mensagem, ou pelo menos tentarem passar, que realmente não é verdade que os europeus não estejam a apoiar a Ucrânia. Não é verdade que não estejam a investir mais em defesa. É por isso que eu acho que as declarações do secretário-geral da NATO são importantes. Todos os países da NATO basicamente reforçaram o seu investimento em defesa, uns mais, outros menos. Os que mais reforçaram são precisamente os que estão mais próximos da Rússia e da Ucrânia. Alguns, no caso da Polônia, até ultrapassou o esforço de investimento em defesa que os Estados Unidos fazem, gasta mais do seu PIB do que os Estados Unidos. Acho que é importante passar essa mensagem, além de todo o apoio econômico. Mas como eu digo, é que há um equilíbrio complicado. Acho que alguma coisa se terá a dizer, mas acho que também há que ter algum cuidado de não parecer que se está a tomar posição na política interna americana, que há algum tipo de hostilidade até em relação, por exemplo, ao Partido Republicano em si mesmo, porque isso acho que seria contraproducente, provavelmente.
Francisco Pereira Coutinho, é difícil encontrar uma forma de pressionar os Estados Unidos a sair deste bloqueio?
É, porque é política americana, estamos em ano eleitoral, as eleições são apenas em novembro, mas o ciclo eleitoral já se iniciou, porque é muito longo. E temos um candidato, Donald Trump, que está a fazer tudo para procurar torpedear todas as iniciativas do presidente Biden. Ele, no caso da Ucrânia, conseguiu criar uma grande coligação internacional, liderá-la, e neste momento necessita de apoio parlamentar, que está a ser muito difícil de encontrar. Claro que o presidente Biden tem sido muito assertivo e portanto, aquilo que nós estamos a dizer aqui na Europa, basicamente é aquilo que ele diz, mas como referiu o Bruno, o Partido Republicano está muito dividido. Esta votação no Senado, em todo caso, é uma votação bastante interessante, porque nós tivemos 70 senadores a votar este pacote de ajuda. Tivemos inclusivamente alguns senadores democratas a votar contra porque estava lá incluído Israel. Portanto, temos aqui dentro dos senadores republicanos americanos, cerca de 50% que votaram a favor deste pacote de ajuda e a questão agora está na Câmara dos Representantes e infelizmente o speaker que tínhamos era um speaker bastante mais pró ucraniano do que este e, portanto, não é certo que este pacote de ajuda avance. E francamente, eu creio que conhecendo os Estados Unidos, que até conheço bastante bem, é um pouquinho irrelevante aquilo que nós dissermos aqui, porque neste momento é uma questão puramente interna, de política interna, relacionada com o momento eleitoral, com a influência de Trump sobre os congressistas, sobre o speaker. O facto deste speaker estar muito refém de uma franja completamente putinista do Partido Republicano, que já o ameaçou que se ele avançar, eventualmente com esta votação, irá propor a sua deposição. É um ambiente absolutamente tóxico que se vive nos Estados Unidos, num período pré-eleitoral, que tem a ver muito com a circunstância do candidato republicano ser novamente Donald Trump. Agora, eu acho que nós não podemos fazer outra coisa do que temos feito. E acho que nesse aspecto, o secretário-geral da NATO faz muito bem em referir o assunto, porque é urgente que os Estados Unidos aprovem este pacote de ajuda, porque a situação da Ucrânia tem vindo a deteriorar-se de semana para semana e ouvimos o novo chefe do Estado-Maior, Syrskyi, dizer que tem de fato falta de armas e falta de homens, e isso é resultado direto da grande potência militar que existe neste momento e que pode apoiar a Ucrânia, neste momento está a falhar à Ucrânia e nós na Europa, sim, estamos a fazer muito, é verdade, como referiu o Bruno, se calhar não estamos a fazer à velocidade que devíamos, porque a perceção da ameaça ainda não chegou a esse ponto, justamente porque tínhamos o apoio americano, mas tudo isso vai ter que se alterar muito rapidamente e vamos ter que ter países europeus, como por exemplo a França, de facto a assumir uma posição que não tem tido. Por exemplo, vamos ver o tipo de apoio francês comparado com o alemão, e é absolutamente ridículo. E portanto, nós na Europa temos que ter uma discussão bastante mais séria, porque não podemos estar à espera que dos Estados Unidos venha já um apoio militar para a Ucrânia, vamos ter que rapidamente tomar decisões.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem nova edição depois das notícias das 16h. Está sempre disponível também em podcast. Eu sou o Luís Soares, até amanhã.