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Neste gabinete de guerra da Rádio Observador abordamos o tema do dia, a provável formalização do pedido de adesão da Finlândia e da Suécia à NATO. Miguel, a Rússia promete responder.

É nossa convidada Diana Soleres, especialista em relações internacionais, a quem agradeço a disponibilidade para estar conosco. Diana, boa tarde. Esta provável adesão da Suécia e Finlândia, a Suécia anunciou há poucos minutos essa intenção de pedir formalmente adesão à Aliança Atlântica, representa um tiro pela culatra para Vladimir Putin?

Olá, boa tarde. Antes de mais, muito obrigada pelo convite, é um gosto estar convosco e com os ouvintes. Não sei se representa um tiro pela culatra, mas representa, com certeza, alguma coisa que a Rússia não queria, que é um aumento, um alargamento exponencial da NATO e um alargamento exponencial a dois novos parceiros que não entram na NATO por razões de terem exércitos fracos ou de não serem capazes de assegurar a sua própria defesa. Entram na NATO, sim, porque por ação de Vladimir Putin, acreditam que a sua segurança estará, passe o pleonasmo, melhor assegurada dentro desta organização defensiva, que é o Tratado do Atlântico Norte.

Isto de alguma forma poderá condicionar a evolução da guerra na Ucrânia? Poderá a Rússia, em função deste pedido de adesão da Finlândia e da Suécia à NATO, alterar a estratégia militar na Ucrânia ou não antecipa que tal possa vir a acontecer?

Não vejo por que a Rússia haveria de mudar a sua estratégia militar.

Receia que outros países, eventualmente, possam decidir no mesmo sentido da Finlândia e da Suécia.

Mas mesmo assim eu não parece que a Rússia esteja em condições, nem com vontade política para mudar, particularmente, o curso da guerra. Vladimir Putin foi muito claro no seu discurso de segunda-feira passada. O objetivo central neste momento é o Donbass e nós também já percebemos que se Vladimir Putin conseguir o seu objetivo do Donbass, que significa, no fundo, em última análise, a anexação de um conjunto de territórios que além das províncias separatistas, vão incluir também Mariupol e eventualmente Kharkiv. Isso já é tudo, do ponto de vista da guerra e da forma como a guerra está a correr no terreno, isso já é um grande fardo, já é uma grande dificuldade. E, portanto, eu acredito que Vladimir Putin não vá efetivamente mudar o curso da guerra. O que poderá acontecer e o que acontecerá quase com certeza, são duas coisas. A primeira é a deslocação de meios militares, nomeadamente, e eventualmente, meios nucleares para as fronteiras com a Finlândia e para o Mar Báltico. Como, digamos assim, por um lado, a Rússia tentar assegurar na mentalidade de cerco da Rússia, a NATO é um inimigo, portanto, tentar assegurar, tentar dissuadir a NATO de entrar em território russo, que nós no Ocidente acreditamos veementemente que não vai acontecer, mas sabemos que não é isso que a Rússia pensa, e eventuais retaliações relativamente à Suécia e à Finlândia, pelo fato destas irem apresentar formalmente o seu pedido de adesão à NATO.

E essas retaliações, de que natureza?

Eu acho que essas retaliações podem passar por várias questões. Podem passar pelo fecho do fornecimento de gás, essencialmente à Finlândia. Podem passar também por sanções econômicas, porque as economias finlandesa e russa estão muito ligadas uma à outra. Pode passar por ataques disruptivos na cibersegurança finlandesa e pode passar, em última análise, por ataques híbridos através de migrantes indesejados na fronteira da Finlândia e com entrada para a Suécia. Eu penso que essas são as quatro medidas que a Rússia poderá tomar do ponto de vista das retaliações à Finlândia e à Suécia por terem pertencido à NATO.

Para além do reforço da presença militar, a que já fez referência nas zonas de fronteira, particularmente com a Finlândia, não antecipa a possibilidade de um ataque militar por parte da Rússia a estes dois países?

Do ponto de vista racional, seria profundamente insensato. Porque a partir do momento em que a Finlândia anunciou que ia fazer o seu pedido de adesão à NATO, o Reino Unido, Boris Johnson, viajou imediatamente para a Suécia e para a Finlândia, assinando com os dois Estados acordos de segurança. Ora, esses acordos, que não foram assinados, com toda a certeza, por livre e espontânea vontade do Reino Unido, há outros países com toda a certeza que estão envolvidos nesses contratos de segurança. São uma espécie de sucedâneo relativamente à NATO. Ou seja, essas garantias que a Grã-Bretanha foi dar aos países que vão aderir, são garantias precisamente para tentar dissuadir a Rússia de tentar alguma incursão militar na Suécia e na Finlândia, neste período de vulnerabilidade, em que os países anunciam a sua adesão até que a adesão está concluída.

Mas ainda não são membros de pleno direito.

Exatamente.

O que criaria um problema também muito grande à NATO. Imagino, caso a Rússia agora Tivesse alguma intervenção militar na Finlândia e na Suécia, deixaria ali a NATO numa posição bastante incómoda sobre se deveria agir ou não deveria agir, pese embora a Suécia e a Finlândia ainda não sejam membros de pleno direito.

Do meu ponto de vista, o que aconteceria é que a NATO não agiria como um todo, ou seja, o artigo quinto não pode ser acionado relativamente a Estados não membros da NATO, mesmo que sejam Estados candidatos da NATO. Mas eu penso que haveria um conjunto de países da NATO que iria tentar assegurar que a Rússia não teria capacidade de levar a sua avante. Mais uma vez, eu sublinho, não foi por acaso que o primeiro-ministro britânico foi assinar tratados de garantia de segurança com estes dois Estados, precisamente porque eles são colocados em grande vulnerabilidade neste momento e é preciso, de alguma maneira, que estes Estados sintam que este passo que vão dar, que vem, do meu ponto de vista, reforçar a NATO, além de garantir a própria segurança da Finlândia e da Suécia, também reforçam a NATO, porque não estamos a falar de Estados que não tenham exércitos organizados, que não tenham reservas, que tecnologicamente não sejam evoluídos, que não tenham compatibilidade com a NATO do ponto de vista da segurança. Com certeza vai começar a haver exercícios conjuntos, também eles dissuasores da Rússia, relativamente a ter alguma intromissão naqueles territórios. E, portanto, a mim parece-me que a Rússia se vai abster de criar para si própria um problema, até porque no terreno, do meu ponto de vista, ao contrário do que muitas vezes se diz, não é certo que a Ucrânia esteja a ganhar a guerra, pelo contrário. Mas também é certo que a Rússia não está a fazer os avanços que gostaria de ter feito no último mês e meio. E, portanto, esta dispersão de meios para castigar a Finlândia e a Suécia, que seria uma coisa que no fundo não teria consequências militares de monta para a Rússia, não só me parece irracional, como parece que não está efetivamente nos planos de Vladimir Putin. Aliás, a Rússia tem dado uma no cravo, outra na ferradura. Por um lado, diz que isto é uma ameaça para a Rússia e que a Rússia vai responder de acordo, mas depois, por outro lado, diz que quer a Suécia, quer a Finlândia, têm todo o direito de aderir às organizações militares e não militares que bem entenderem.

O que não deixa de ser algo incompreensível, tendo em conta que o argumento invocado pela Rússia para invadir a Ucrânia foi precisamente a ameaça da entrada da Ucrânia na NATO, país que faz fronteira com a Rússia, à semelhança da Finlândia.

Nós temos que ver uma coisa. Essa pode ter sido a justificação que Vladimir Putin deu, mas o que é verdade, a realidade, é que a última vez que se pôs a hipótese da Ucrânia entrar na NATO foi em 2008, pela mão de George W. Bush, que estava a acabar o seu segundo mandato, e em consequência da Guerra da Geórgia. Imediatamente, alguns estados da NATO, incluindo a França e a Alemanha, vetaram a entrada da Ucrânia e da Geórgia na NATO. E desde essa altura que nunca mais houve da NATO, até talvez ter começado a guerra, a intenção de deixar Estados como a Ucrânia ou a Geórgia aderirem à NATO. Não há conversações sobre isso desde 2008. Passaram 14 anos, portanto, isso é uma ficção russa. É uma ficção russa como muitas das narrativas que a Rússia tem apresentado. A Ucrânia para a Rússia tinha dois problemas ou três problemas fundamentais e por isso é que a guerra começou. Em primeiro lugar, a Ucrânia fez uma opção, ainda que incipiente, é preciso dizer isto, porque a Ucrânia é uma democracia muito jovem, mas tomou a opção de se virar para o lado ocidental, de se virar para o lado democrático, de democratizar a Ucrânia. E isso é algo com que Vladimir Putin lida mal, porque ter um vizinho tão próximo que tem um tipo de regime tão diferente e muito mais inalcançável pela influência de Moscou, era algo com que Putin não vivia bem. A segunda questão está relacionada com a narrativa de que a Ucrânia não tem direito a existir sem ser em conjunto com a Rússia. Portanto, a Ucrânia, do ponto de vista da Rússia, não tem existência soberana. Isto é uma questão profunda relacionada com o nacionalismo russo, que é um nacionalismo que numa das suas versões, a Grande Rússia corresponde aos territórios da Rússia, da Bielorrússia e da Ucrânia, que foi uma visão da história que foi ganhando terreno desde que Vladimir Putin se tornou presidente da Rússia e ganhou ainda mais terreno a partir de 2012, quando Vladimir Putin retomou a presidência da Rússia depois de ter cedido por quatro anos a Dmitry Medvedev. Portanto, essa é a segunda razão objetiva pela qual a Rússia invadiu a Ucrânia, porque para a Rússia, a Ucrânia é efetivamente território russo, que tem que estar sob alçada russa e que não pode, de forma nenhuma, ter posições contrárias às da Rússia. Em terceiro lugar, a Rússia pôs em prática a sua doutrina do estrangeiro próximo, que é uma doutrina que vigora também desde 2008, que foi anunciada por Medvedev, mas que já era enunciada nos corredores do Kremlin antes disso, em que a Rússia tem o direito de usar os cidadãos russos ou pró-russos fora do seu território para fazer a guerra e anexar território. E esta é uma forma de conseguir aumentar o território da Grande Rússia, que é o grande objetivo, eu não digo só do Vladimir Putin, mas de uma larga elite política russa, que provavelmente se esta guerra não correr muito mal, continuará para lá do Vladimir Putin. E aqui voltamos à razão pela qual a Finlândia e a Suécia querem pertencer à NATO. Não é propriamente porque elas tenham medo que a Rússia as invada amanhã.

Então?

De extensão do território, são conhecidos, podem manter-se por gerações e a Finlândia e a Suécia querem ter a certeza que a NATO é dissuasora de que isso mesmo aconteça.

Dessas ambições específicas.

Exatamente, porque senão iam arriscar estar quatro meses a um ano num limbo que, apesar das garantias de segurança do Reino Unido, é um limbo perigoso e vulnerável.

Diana, antes de escutarmos o João Miguel Santos, que está aqui ao meu lado e também tem uma pergunta para a Diana Solero, gostava ainda de perguntar se na opinião da Diana há aqui dois pesos e duas medidas por parte dos países da NATO em relação a este processo de adesão da Finlândia e da Suécia, quando comparado com a intenção da Ucrânia de também se vir a juntar à Aliança Atlântica.

Com certeza que há dois pesos e duas medidas, mas há razões para haver esses dois pesos e duas medidas. Mesmo antes de tudo isto acontecer, uma adesão da Ucrânia ou da Geórgia à NATO seria sempre vista pela Rússia como uma provocação que teria sempre que ter um troco. Não tenhamos ilusões em relação a isto. E por isso é que a NATO se quis defender, porque a NATO, afinal, é uma aliança defensiva e não quis admitir estes países, de forma a não correr maiores riscos relativamente à Rússia. Com a Finlândia e a Suécia é um pouco diferente. Primeiro, porque são democracias muito mais estáveis do que a democracia da Geórgia e da Ucrânia.

Diana, durante os últimos anos, as relações internacionais foram marcadas pelo multilateralismo. Que mundo novo é este que se está a desenhar nesta altura com o fortalecimento e alargamento da NATO e o relegar da Rússia quase à condição de Estado pária? Ainda é cedo para anteciparmos que mundo novo é este que está a nascer agora aqui?

Ainda é muito cedo, até porque há um ator principal deste novo mundo, de quem nós muito pouco temos ouvido falar, que é a China, e que vai ter um papel determinante neste mundo novo.

Será o ator à espera de protagonismo atrás da cortina?

Eu não sei se está à espera de protagonismo, porque a China não é propriamente o tipo de Estado que procure protagonismo, ao contrário da Rússia. A China é uma potência, que vai ganhando o seu poder muito paulatinamente, na sombra, sem grandes alaridos, porque na estratégia chinesa, esse tipo de comportamento é muito mais eficaz do que fazê-lo com alarido. Portanto, eu não sei propriamente se a China sairá da sombra de um dia para o outro. O que me parece muito evidente, e uma das razões porque me parece que a Rússia não se está a tornar um Estado pária, é que a Rússia tem condições de continuar esta guerra enquanto a China continuar a apoiar a Rússia. E a China não disse absolutamente nada até hoje que nos leve a concluir que não está a apoiar a Rússia na sombra.

E já passaram 82 dias.

Exatamente. Só para terminar, nós estamos agora muito preocupados, e com boas razões, em perceber qual é que vai ser o desenho da segurança internacional na esfera europeia. Estamos muito preocupados com as fronteiras de segurança europeia, mas é natural que assim seja, porque nós não conseguimos saber qual vai ser o papel da Rússia no sistema internacional, nem onde vão ser as fronteiras de segurança da Europa enquanto é que esta guerra não terminar. Uma coisa que nós tendemos a esquecer, porque já não tínhamos guerras no continente europeu há muito tempo, é que o final das guerras e a forma como se negoceia a paz, tem um impacto muito grande nas fronteiras de segurança e na distribuição de poder que se lhe segue. E é muito difícil estar a dizer que tipo de impacto e que tipo de ator internacional, principalmente, é que a Rússia vai ser no fim desta guerra. Se a Rússia for derrotada, que é pouco provável do meu ponto de vista, vai transformar-se num Estado normal mais uma vez, vai deixar de ser uma grande potência. Se não for, a Rússia vai ter alguma coisa a dizer relativamente à segurança europeia. E é isso que é o grande problema geral. Nós temos o problema centrado na Ucrânia, na guerra da Ucrânia, mas temos o problema das fronteiras de segurança mais generalizado. E é para isso que a Suécia e que a Finlândia se querem juntar à NATO. É por isso que os Estados Unidos querem ajudar a Ucrânia a pelo menos não perder esta guerra, porque uma Rússia forte no continente europeu torna-se um problema de segurança para a Europa e para os Estados Unidos.

Diana Solero, agradeço-lhe ter nos ajudado a compreender os últimos desenvolvimentos da guerra na Ucrânia. Muito obrigado.

Muito obrigada, eu é que agradeço. Boa tarde.