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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. A mulher de Alexei Navalny acusa as autoridades de estarem a recusar o acesso ao corpo do marido para que os vestígios do agente nervoso Novichok desapareçam. Num vídeo, a mulher de Navalny acrescenta que irá identificar os responsáveis e a razão pela qual foi assassinado. Sabemos agora também que o corpo de Navalny só deverá ser libertado dentro de duas semanas. Foi o que adiantou a porta-voz do opositor russo. José Filipe Pinto, até quando é que a Rússia pode reter o corpo de Navalny?

Muito boa tarde. Boa tarde também aos senhores aos senhores ouvintes. De facto, temos de perceber uma coisa muito simples nesta questão. Quando Montesquieu teorizou a natureza e os princípios das formas de governo, esclareceu que o despotismo tinha como natureza a soberania nas mãos de um só, segundo o seu livre-arbítrio, e como princípio, o medo. É dessa realidade que nós estamos a falar na Rússia, um país que, de acordo com o Índice de Democracia de 2023, está nos regimes autoritários com apenas 2,22 em 10 pontos e 2,6 nas liberdades civis. E isso explica tudo aquilo que está a ser feito. É evidente que, por exemplo, Peskov foi lesto a dizer que o Serviço Penitenciário Federal realiza as verificações e esclarecimentos necessários, que não há necessidade de dar instruções, que há normas para seguir e que os serviços, portanto, dispõem do normativo que deverão cumprir. O que acontece aqui, todos nós percebemos, é que o poder está habituado a que lhe digam que sim, e estranha sempre que lhe dizem que não ou que o questionam. E portanto, neste caso, o que acontece é que se foi envenenado, é evidente que há que acautelar, e a Rússia tem uma grande tradição no domínio dos venenos e do doping, para saber qual é o tempo em que permanece no organismo, portanto, aquilo que pode ser identificado como a causa da morte, como um veneno, e por isso mesmo não vai libertar o corpo antes disso. Quanto tempo é que pode? Pode o tempo que Putin e o seu regime definirem como necessário. Dito de uma forma mais dura, mas mais real. Pode enquanto não servir os interesses do sistema, enquanto não servir os interesses do regime. Portanto, temos de perceber que estamos a falar de uma ditadura. E numa ditadura, quem faz as leis tenta capturar o sistema. E ao capturar o sistema e a capturar o poder, é evidente que manipula tudo e todos. E por isso mesmo, o que acontece é que eu não ponho em causa que haja um normativo para o Serviço Penitenciário Federal cumprir. O problema é que esse normativo foi feito de forma a acautelar os interesses do sistema. Portanto, é evidente que se Navalny foi envenenado, quem o envenenou sabe claramente quanto tempo é que esse veneno é identificável no corpo e sabe também qual é a forma mais fácil de conseguir camuflar os efeitos desse veneno. Repare, nós percebemos depois da queda do Muro de Berlim que muitas das medalhas que foram ganhas pelos atletas do antigo bloco de leste obteram ou foram ganhas no âmbito de uso de doping que não era detectável. O que significa que em termos de medalhas eles já estavam um passo à frente. Neste momento, é o que aqui temos, é um sistema a tentar esconder as provas. Eu não estou a dizer, não tenho dados que me permitam responsabilizar o sistema pelo envenenamento. Tenho dados, isso sim, que provam que Navalny foi vítima de um sistema e que a morte, mesmo que por causas naturais, que possa ser causas naturais, é evidente que foi provocada por um sistema que o tratou desumanamente, como trata todos aqueles que ousam pôr em causa o domínio de Putin e, evidentemente, todo o sistema.

Bruno Cardoso Reis, o chefe da diplomacia da União Europeia, juntamente com outros dirigentes comunitários, encontraram-se hoje com a mulher de Navalny e a União Europeia anunciou sanções contra os responsáveis envolvidos na morte do opositor de Putin. Mas Bruno, uma vez que não sabemos quem são os responsáveis, estamos aqui a falar apenas de retórica.

Ainda à primeira questão, eu acho que quanto mais tempo o regime russo retiver o corpo, mais razões nós temos para validar suspeitas que há ali alguma coisa a esconder. Portanto, se não houvesse nada a esconder, certamente não havia a necessidade do corpo estar retido durante tanto tempo e não haver acesso da família ao corpo Navalny. Portanto, é mais um indício indireto de que há aqui qualquer coisa de estranho, suspeito, que se quer esconder. Em relação à questão das sanções e da resposta, a mim parece-me que a resposta devia passar por três áreas fundamentais. A primeira é o reforço do apoio à Ucrânia, o fim de uma série de linhas vermelhas artificiais na utilização desse apoio militar e a utilização dos bens russos que estão sancionados e que estão congelados para, pelo menos os rendimentos desses bens, os juros, por exemplo, de depósitos que estão congelados, etc, para reforçar o apoio à Ucrânia. Acho que esse tipo de sanções, sim, certamente, mas tem esse problema de base que é: mas vai-se punir quem se é muito difícil conduzir aqui uma investigação que leva a alguma conclusão sobre quem é que esteve diretamente envolvido. Não é completamente impossível. Em 2020, na tentativa de assassinato de Navalny com o uso Novichok, a própria rede Navalny e aquele coletivo de jornalistas independentes, o Bellingcat, que se especializa em desmontar a desinformação russa, conseguiram identificar agentes, perceber onde é que eles se deslocavam, obter os seus números de telefone, obter até uma confissão telefônica de um desses agentes envolvidos nessa tentativa. Portanto, isso não é completamente impossível, mas obviamente é difícil, sobretudo num prazo curto e não me parece que essa seja propriamente uma sanção que vá fazer, de alguma forma, tremer o regime russo. Acho que estas medidas seriam bastante mais eficazes, como o próprio Navalny chamou a atenção, esta guerra criminosa, como ele também se referiu à invasão russa da Ucrânia, era onde potencialmente

Havia a possibilidade de fazer tremer o regime. Se o regime estivesse em risco de derrota, isso podia realmente fazer tremer o regime de Putin, como aliás já vimos com o caso Prigozhin.

Olhando agora um pouco para o que se passa no terreno, Zelensky visita hoje a frente de batalha em Kupiansk. José Filipe Pinto, qual a importância desta visita numa altura em que a Rússia já deu por concluída a tomada de Avdiivka, no leste da Ucrânia?

É importante para reforçar o moral das tropas. Repare, Avdiivka e Robotyne eram as duas únicas saliências ucranianas na frente de linha de guerra. Significa que eram as únicas bolsas ucranianas em zona que era dominada pelos russos, impedindo, portanto, uma linha reta. Perder Avdiivka foi necessário para não repetir Bakhmut. Por quê? Porque percebemos o número de vidas humanas que foram perdidas em Bakhmut na tentativa de manter a cidade. Mas a Ucrânia, a partir do momento em que perde Avdiivka, perde o poder de atacar Donetsk com artilharia e perde esta bolsa favorável na linha da frente. Isto é, para o moral das tropas, é horrível, é terrível. Por quê? Até porque percebemos que a divisão que foi enviada para esta zona foi apenas para tentar que a retirada fosse feita com o mínimo de perda de vidas humanas. E percebemos que houve militares que foram capturados. Há ainda algumas ilhas que poderão vir a ser capturadas nesta zona e por isso mesmo o moral tende a baixar. E é evidente que Zelensky e todo o aparelho político de Kiev tem de se aproximar do terreno para mostrar àqueles soldados que estão na linha da frente há demasiado tempo que o seu esforço não é em vão. Atenção, porque os russos estão neste momento a deslocar-se para Robotyne. Para quê? Para tentarem tomar conta da segunda bolsa, para tentarem fazer mesmo uma linha reta em 1200 km da linha da frente. Isto pode parecer que não tem sentido, tem todo o sentido do lado russo. Significa vamos tentar formar uma linha em que não haja bolsas de resistência ucraniana e depois vamos progressivamente tentar puxar a linha para oeste, empurrar para o oeste. E aí entra a questão que o Bruno disse, e muito bem, se a Ucrânia não receber armamento, se a Ucrânia não receber financiamento, se continuarmos indecisos — e quando digo continuarmos, é o Ocidente, os Estados Unidos e a União Europeia — se não forem fornecidos os F-16, é evidente que a luta ucraniana pode correr o risco de ter sido em vão. E repare uma questão, cada vez que falamos em Avdiivka, é importante percebermos que sob o ponto de vista militar, esta é uma zona de planalto, é uma zona mais elevada, a partir da qual era possível às forças ucranianas atacarem Donetsk e as posições russas apenas com artilharia. Neste momento já não é possível usar apenas artilharia. É preciso força aérea ou então armas mais potentes, que tenham mais raio de ação. E isto faz toda a diferença numa guerra que, como nós estamos a perceber, a Rússia neste momento tem controlada e está a avançar para o ocidente. Esse é um perigo que, cruzado com a questão que falámos no primeiro momento, de que na Rússia, sendo uma ditadura, é muito mais fácil fazer uma indústria de guerra do que num país ocidental liberal, é evidente que percebemos que a Ucrânia vai precisar muito do apoio dos Estados Unidos e da União Europeia.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois das notícias das 16h. Está sempre disponível também em podcast. Eu sou o Luís Soares, até amanhã.