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Começa agora mais um Gabinete de Guerra, esta segunda-feira, com a análise de José Filipe Pinto, professor catedrático em Ciência Política e especialista em movimentos extremistas. Bom dia, professor. Muito obrigada por estar conosco.

Muito bom dia, Maria João. Bom dia, senhores ouvintes.

Muito bom dia. A Ucrânia continua a avançar no território russo, já fez centenas de prisioneiros de guerra, destruiu duas pontes em Kursk. Zelensky fala na criação de uma zona-tampão. Já Moscovo, professor José Filipe Pinto, acusa a NATO de participação e apoio diretos nesta incursão ucraniana, porque diz que Kiev tem utilizado material fabricado pelo Ocidente.

A situação, Maria João, está muito confusa. Vamos ver como é que ela evoluciona, porque estamos perante a estratégia surpresa da Ucrânia e ainda não percebemos qual é que vai ser a estratégia adaptativa da parte da Rússia. Sabemos, sim, é que o Ocidente, aqui começamos a ficar preocupados com a incursão ucraniana no território russo, porque já foi ouvida uma explosão perto da central nuclear de Kursk e aumentam as baixas do lado civil russo. Não é por acaso, a meu ver, que a Alemanha já confirmou que vai deixar de fornecer ajuda adicional à Ucrânia e também planeia cortar para metade a ajuda militar já no próximo ano. E o Reino Unido está muito renitente a deixar utilizar o material que fornece à Ucrânia em território russo. E repare, entretanto, do lado russo, o que nós estamos a perceber? É que os serviços secretos estrangeiros já começaram a circular a informação segundo a qual a elite norte-americana também já não está satisfeita com a atitude de Zelensky, porque se ficou a saber que ele, afinal, tinha autorizado o ataque aos gasodutos da Nord Stream. O Wall Street Journal tem essa informação e o mais problemático é que essa informação assenta em bases que são fontes diretas, portanto, intervenientes no processo. É claro que em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade, mas também não há fumo sem fogo. E como tal, aconselha-se muita moderação nos juízos de valor. E aqui no Ocidente, o que nós estamos a ter é essa moderação. Só que essa moderação não surge nos discursos de Zelensky, dada a frequência com que ele está a responsabilizar-nos a nós, os aliados, pela lentidão no fornecimento de armas ou pela limitação no seu uso. Aliados, portanto, a quem ele já não informa sobre as mudanças de estratégia. Isso, vamos ter de ver como é que a situação no terreno evoluciona. Isto é um jogo tático muito confuso. Por quê? Porque a Rússia avança em território ucraniano e a Ucrânia avança em território russo. E Zelensky continua naquela que é a sua falácia. Ele diz que os ucranianos estão a lutar sozinhos na defesa dos interesses ocidentais e da democracia. Não estão a lutar sozinhos, podem estar a lutar sozinhos sob o ponto de vista humano, mas usam as armas que o Ocidente lhe fornece. E depois, não está a lutar pela democracia porque verdadeiramente a Ucrânia nunca foi uma democracia. O que está aqui é uma luta de ordens, é o mundo múltiplo das ordens. E ele tinha toda a razão se dissesse: "Nós estamos a tentar que a ordem eurasiana de Moscovo não entre na ordem liberal liderada pelos Estados Unidos e de que a União Europeia e o Ocidente fazem parte". Aí ele estaria a dizer a verdade. Neste momento, a situação é marcadamente confusa e dificilmente nos próximos dias haverá uma grande alteração no terreno. Parece-me que vamos caminhar aqui para uma zona de um equilíbrio que não agrada a nenhuma das partes.

Entretanto, Lukashenko enviou um terço do exército para a fronteira da Bielorrússia com a Ucrânia. Professor, concorda com Kiev, que diz que é apenas retórica para agradar a Putin?

Eu acho que aí Zelensky terá parte da razão. Por quê? Porque Lukashenko acaba por ser a voz do dono. E a voz do dono é Putin. Portanto, é tentar vender uma imagem de que há uma aproximação completa de Lukashenko a Putin e de que está disponível para minar a sua fronteira para impedir o avanço da Ucrânia. É reverter a situação, é alterá-la. Por quê? Porque é como preparar a fronteira da Bielorrússia para uma possível invasão da Ucrânia. Isso encontra justificação no fato de que se a Ucrânia está a invadir em Kursk, também pode invadir na Bielorrússia. Não me parece que faça parte do plano de Zelensky invadir a Bielorrússia.

No Médio Oriente, Joe Biden diz que continua confiante sobre um acordo de cessar-fogo em Gaza, mesmo depois do Hamas ter rejeitado a última proposta e ter acusado Netanyahu de criar obstáculos para chegar a um acordo. O primeiro-ministro israelita garante que tem flexibilidade para negociar, mas sobre a libertação dos reféns, diz que não vai ser flexível. José Filipe Pinto, tudo isto numa altura em que Anthony Blinken volta a visitar Israel.

É evidente, Maria João. A paz no Médio Oriente, a meu ver, continua uma miragem e não é devido à quantidade de desertos que existem naquela zona. É a um outro deserto, o deserto que se prende, que diz respeito à falta de vontade de reconhecer o direito do outro à existência. Nas reuniões hoje de Anthony Blinken, eu penso que é importante prestar atenção àquelas que envolvem, no dia de hoje já, Netanyahu, mas também Gallant e Israel Katz, já que no sistema de governo israelita, a figura do presidente detém pouco poder. No entanto, há que ter em conta, como disse, que Netanyahu já quase que antecipou o resultado da reunião, ao dizer que os mediadores devem pressionar o Hamas e não Israel. Além disso, deixou claro que Israel está a negociar, não está a ceder. Ele definiu a sua estratégia. A frase que ele utilizou foi: "Not give and give", o que significa não dar e dar. Ou seja, ele parece poucoDisponível para cedências. E é por isso que, a meu ver, o cessar-fogo é um acordo dos três Is: I de incompleto, I de em terceiro e I de improvável. E a que se poderá adicionar um quarto I, o I de incumprimento, no caso, a meu ver, pouco provável do acordo vir a ser assinado. Repare, temos de perceber que é um acordo, mesmo que fosse celebrado, e eu tenho muitas dúvidas nisso, é tremendamente incompleto, porque só inclui o Hamas e não todos os proxies do Irão que estão activos naquela zona, no Iémen, na Líbia, na Síria, no Iraque e em Gaza, porque nós em Gaza falamos apenas do Hamas. E a verdade é que em Gaza há muitas facções palestinianas activas e apoiadas pelo Irão.

Entretanto, falou aí dos proxies, o Hezbollah reivindicou o ataque a forças israelitas infiltradas no Líbano, forçando-as a recuar. Já ontem tinha reivindicado uma série de ataques no norte de Israel. Professor, isto pode ser o início de uma ofensiva maior?

Pode ser. E isso mostra precisamente que nós estamos a colocar o enfoque apenas em Gaza e no Hamas, quando a questão é muito mais regional ou global do que local. E, portanto, repare, quando nós dizemos que estão ali apenas os interesses de Israel e do Hamas em jogo, não é verdade. Por isso é que eu digo que a proposta de acordo é em terceiro. Todas as partes apenas querem fazer valer os seus interesses. E, por exemplo, os Estados Unidos. Biden gostaria de deixar o cessar-fogo em Gaza como legado da sua presidência, que como nós sabemos, foi marcada por uma saída pouco airosa do Afeganistão, com as consequências daí decorrentes e que levaram ao regresso dos talibãs ao poder. E repare, os Estados Unidos, hoje começa a convenção do Partido Democrata em Chicago. Os Estados Unidos estão a lidar muito mal com o fim do mundo unipolar da hegemonia norte-americana. E não podemos esquecer que a candidata democrata, Kamala Harris, tem pela frente Donald Trump. E qual é o slogan de Donald Trump? Qual é a sua marca? Make America Great Again. Em Chicago, Kamala Harris terá de clarificar a sua posição sobre a questão de Israel. E por isso mesmo, no fim de contas, o que a diplomacia está a tentar moderar é a vingança iraniana, evitando, portanto, lançar mais achas pra uma fogueira. Mas o problema é que Israel continua a bombardear, a atacar, como se não houvesse negociações em curso, não consegue controlar os seus clones na Cisjordânia e, pegando nas palavras da Maria João, o Hezbollah também não está minimamente interessado em controlar-se. E por isso mesmo, o que nós aqui temos é a continuação do conflito. E estas negociações são importantes apenas para diminuir a sua intensidade, não para lhe pôr fim.

Professor, falou aí do Donald Trump. Não sei se teve a oportunidade de ver a entrevista que deu a Elon Musk no X. O candidato à Casa Branca disse que Putin era um bom negociador e que pretende dar-se bem com ele se for eleito presidente. O que é que entende destas palavras?

Muito simples. E ligamos isto também a Netanyahu. Netanyahu está à espera que Trump vença. E por quê? Porque se Trump vencer, percebe que vai ter um apoio maior do que se for Kamala Harris a vencer. Depois, há um outro elemento muito importante nessa entrevista de Donald Trump a Elon Musk. Donald Trump faltou à verdade mais de 20 vezes. E isso prova que ele chega praticamente sempre atrasado ao encontro com a verdade. Por quê? Ele criou uma realidade paralela e ao criar essa realidade paralela, ele acha que uma mentira repetida várias vezes passa a ser verdade. E aquele é o mundo dele. Portanto, o que é que nós podemos perceber nesta entrevista de Donald Trump? É um desfasamento completo com a realidade e é evidente que isso vai ter reflexos, no caso de ser eleito, tanto na guerra na Ucrânia como na guerra em Israel. E repare, ele pensa que resolve tudo com um telefonema. Por quê? Porque há um narcisismo na figura de Trump. Perguntaram-me numa revista o que eu pensava da liderança de Trump. E eu disse: "É a liderança negra, é a tríade negra da liderança". Temos aqui a mistura de psicopatia, narcisismo e maquiavelismo. E esta tríade é uma tríade que nunca pode levar a bom resultado. Portanto, significa que a eleição de Trump representará um perigo, não apenas para os Estados Unidos, mas para toda a ordem liberal ocidental, que saiu muito depauperada durante a primeira presidência de Trump. E isto vai ter reflexos nítidos, tanto no conflito em Gaza como no conflito no Médio Oriente. Como no conflito na Ucrânia.

Exatamente, sim. Professor José Filipe Pinto, muito obrigada pela sua análise. Um bom dia, professor.

Uma boa semana, Maria João.

Obrigada pra você também. Foi mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador, que também pode ouvir nas várias plataformas de podcast.