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Começa agora mais um Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões, a análise é do coronel José do Carmo. Olá, coronel, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia.

Bom dia. Pela terceira noite consecutiva, os Estados Unidos atacaram o Irão. Foram cinco horas de bombardeamentos. Trump diz que a capacidade militar iraniana foi destruída e que os ataques são para continuar. Coronel, cinco horas de bombardeamentos por noite conseguem, de fato, destruir a capacidade militar do país? É que as forças de Irão continuam a responder com ataques a bases norte-americanas no Golfo Pérsico.

Normalmente, Donald Trump usa uma linguagem sempre muito hiperbólica. Destrói capacidades. O Irão não precisa de muitas capacidades para fechar, de fato, o estreito. Às vezes, basta uma comunicação rádio com os navios que estão a atravessar e uma ameaça para parar o estreito. E essa ameaça, quando é reforçada por um drone ou dois, um míssil ou dois, isso é o que basta para que o medo e os seguros e tudo aquilo que está relacionado com ter que passar por um sítio onde sabe que pode levar um tiro. Basta a ameaça para fechar, é o que está a acontecer. Embora os Estados Unidos destruam muitas capacidades, e de fato fazem, cada alvo atingido é destruído, isso não há dúvida. É uma coisa completamente assimétrica. Os Estados Unidos têm que garantir a segurança 24 horas em toda a zona de rota que consideram que é livre, que está segura, que é através do Omã. E o Irão, basta-lhe, de vez em quando, fazer uma ameaça ou atacar um navio para garantir que o medo faz o resto. É uma chantagem assimétrica e por isso dificilmente, apenas pela via militar, se conseguirá manter o estreito aberto. A dureza, o preço que os Estados Unidos fazem pagar por cada ataque a um navio, é uma medida que deverá levar racionalmente o Irão a abster-se de o fazer, mas eu não creio que isso vá acontecer, porque o Irão está completamente empenhado nesta área geográfica. E por isso o Irão dificilmente irá abdicar disto e, pelos vistos, está disposto a absorver danos muito elevados.

Mas até quando os Estados Unidos vão conseguir manter esta intensidade de ataques sem se desgastarem militarmente?

Neste momento, os Estados Unidos estão a apostar em que o preço que fazem pagar ao Irão por cada violação, por cada ataque a um navio mercante, é elevado. Acreditam que do outro lado há uma racionalidade econômica a funcionar também. Se eu ataco um navio para garantir o meu controle sobre o estreito, mas depois sofro um dano devastador, os Estados Unidos ainda acreditam que o Irão voltará a mesa das negociações e aceitará que não vai controlar o estreito, porque neste momento esta guerra é à volta do estreito e sobre quem controla o estreito. É sobre isto que está neste momento este conflito a dar-se. Já ninguém pensa na parte nuclear, na parte dos mísseis, na parte dos proxies, tudo isso está para longe. O que está neste momento em causa é justamente o estreito.

Aliás, o conselheiro militar do líder supremo do Irão diz mesmo que o estreito de Ormuz é mais importante do que dezenas de bombas nucleares.

Exatamente, o Irão consegue prejudicar ou perturbar todo um fluxo de mercadorias de muitos países, que afeta quase todo o mundo, com uma comunicação rádio, com uma ameaça rádio. Basta dizer: "Isto não é seguro". E qual é a rota que não é segura? Aquela que o Irão ataca. É a rota que não é segura. É como faz a máfia, é uma chantagem mafiosa. Mas é verdade. Para o Irão, basta uma comunicação rádio reforçada por um drone a voar ou um míssil a sair de um tubo e já está garantido o fecho do estreito em termos práticos, não em termos jurídicos, mas em termos práticos. O navio já não passa. Aquilo que arrisca, está a arriscar muita coisa. Está a arriscar a carga e está a arriscar as vidas dos marinheiros, portanto tenderá a não passar.

Quanto à guerra na Ucrânia, da coligação de vontades nasceu esta segunda-feira uma nova aliança. Os líderes de nove países europeus concordaram com a criação de uma coligação de antimísseis balísticos como forma de dar à Ucrânia as capacidades de defesa aérea que tanto precisa. Os membros fundadores são Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Holanda, Noruega, Espanha, Suécia, Ucrânia e Reino Unido. Esta nova estrutura será estritamente natureza defensiva para deter e derrotar futuras ameaças balísticas à Europa. Conseguimos perceber por que Portugal não faz parte desta coligação, coronel?

Conseguimos perceber porque tem custos. Não faz sentido de um ponto de vista de solidariedade europeia e um meio que nós não temos. Nós nem sequer temos mísseis americanos, os Patriot, não temos esse tipo de defesa aérea.

E os outros países têm? Todos os outros têm, os que fazem parte?

Todos os outros têm. A análise que Portugal faz é uma análise econômica, é caro. Não sei se virá a entrar ou não, mas pelos vistos não vai entrar. E faz a análise que qualquer míssil para chegar cá vai ter que passar muitas defesas aéreas, portanto, basicamente, é um cálculo bastante-

Confiar nos outros.

Esta iniciativa, por acaso, tem um nome interessante, que é o nome de uma deusa nórdica. Uma deusa ligada à guerra e também à vida e à guerra e à morte. Mostra realmente que são os países nórdicos mais pequenos, muitos deles com a dimensão de Portugal em termos económicos, em termos de população, e estão lá. Estão lá junto com os países que têm dinheiro, os países ricos. Eu penso que Portugal não custava integrar-se nesta iniciativa, até porque isto vai trazer ganhos tecnológicos, vai trazer ganhos económicos. Não parece que fosse um mau investimento de dinheiro. E realmente a necessidade europeia de defesa aérea própria faz sentido neste momento. Mísseis balísticos, a Europa não tem capacidade de interceção, tirando os mísseis americanos e umas baterias de fabrico francês e italiano, o sistema SMPT, que tem uns mísseis que não são bem Patriot PAC 3, mas tenta aproximar-se. Mas com produções muito pequenas e claramente muito longe daquilo que é necessário, perante uma ameaça que hoje em dia se perfila como devastadora, que é a ameaça dos mísseis. Já não é só a Rússia, há países como a Turquia, que já têm mísseis desses, há o caso do Irão, que também tem mísseis desses, e portanto, é claramente uma necessidade a prazo.

Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise. Uma boa semana para si.

Obrigado.

Obrigada.