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Este é o som do Gabinete Guerra das manhãs 360 esta terça-feira, com análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno. Bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Mais uma noite de fortes ataques russos na Ucrânia. Para além da capital Kiev, as cidades de Kharkiv e Dnipro também estão sob ataque. Bruno, ataques que, segundo Trump, contrariam a promessa que Putin terá feito ao presidente norte-americano, na semana passada, de não atacar estas cidades. O que isto nos diz sobre a relação dos dois e na véspera de serem retomadas as negociações trilaterais, que reação devia ter a Casa Branca?

Devia ser uma reação bastante mais forte. Quando Trump, de alguma forma, exprima algum tipo de crítica às ações da Rússia, parece ser sempre uma espécie de desilusão ou desapontamento com o facto de aquilo que para Trump continua aparentemente a ser uma certeza, que é Putin tem por ele uma enorme devoção, de facto, não se estar a confirmar nos fatos, em vez de simplesmente tirar a conclusão que toda a gente já tirou há muito tempo, que é Putin não quer saber propriamente da pessoa Donald Trump pra nada. No fundo, utiliza esta afinidade entre Trump e uma série de líderes autoritários para servir os seus interesses e obviamente a sua prioridade é precisamente os interesses do regime russo e o seu entendimento daquilo que é o interesse nacional russo. Isso muito claramente passa, já há muitos anos, por transformar a Ucrânia, na prática, num satélite russo. Portanto, de facto, nada disto é muito surpreendente, exceto aparentemente para Donald Trump. No fundo, a reação deveria ser, em consequência disso, fazer uma pressão muito mais forte sobre a Rússia, retomar o fornecimento de armamento à Ucrânia numa escala que poderia até ultrapassar aquela de Joe Biden, que tinha as suas limitações, avançar com outras medidas contra a Rússia, como as medidas que têm a ver com a questão, por exemplo, da exportação de petróleo. Em tudo isso, Donald Trump podia realmente fazer bastante diferença, não será simplesmente com declarações de desapontamento que se irá lá.

Exato. Sim. Entretanto, Zelenskyy diz que, mais do que nunca, a Ucrânia enfrenta grandes dificuldades devido à escassez de mísseis de defesa aérea, o que limita a capacidade de resistir a estes bombardeamentos russos. Bruno, apesar dos vários avisos de Zelenskyy aos parceiros ocidentais, a situação está, de facto, crítica. Quem pode ajudar a Ucrânia nesta fase? Estamos quase a entrar no quarto ano de conflito.

De facto, os únicos aliados que continuam dispostos a ajudar de forma significativa são os países europeus. Desde que Trump assumiu a presidência, é essa a realidade. Portanto, os europeus têm procurado compensar, em parte, o apoio americano, têm assumido também o custo de estar a comprar armamento aos Estados Unidos, apesar de isso colocar alguns problemas, porque obviamente uma coisa é poder dizer, que era aquilo que fazia, por exemplo, Joe Biden ou os europeus, que é: estamos a dar apoio à Ucrânia, mas também estamos a apoiar a nossa própria indústria militar, a nossa própria indústria de defesa. Outra coisa é estar a pagar armamento americano com dinheiro europeu, mas basicamente é isso que tem acontecido. Não parece, de facto, haver mais ninguém disposto a assumir esse custo, porque, por exemplo, muitos países do sul global, mesmo grandes democracias do sul global, como a Índia ou Brasil ou África do Sul, recusaram-se a assumir, não é a apoiar a Ucrânia, é sequer a assumir qualquer custo, por exemplo, a reduzir as suas atividades econômicas com a Rússia, portanto, estão indiretamente a contribuir para o financiamento do esforço de guerra russo.

No Médio Oriente, e apesar das ameaças de ação militar por parte dos Estados Unidos, o Irã diz que está a traçar um quadro para eventuais negociações nos próximos dias. Os países da região estarão a agir como mediadores na troca de mensagens. Bruno, é isto ou mais uma guerra não só com os Estados Unidos, mas também regional? Essa pode ser também uma razão para a Casa Branca ainda não ter avançado e porque de facto ganha mais com negociações do que entrar em conflito.

Sim, nós fomos falando isso nos últimos dias. Perspectivava-se aqui um papel muito importante para a Turquia, isso aparentemente confirma-se, e está de facto também em linha com o que sabemos, por exemplo, das boas relações entre o presidente Erdogan, da Turquia, e Donald Trump. Mas realmente, à partida, Donald Trump já mostrou duas coisas, que é, por um lado, estar disposto a arriscar atacar o Irã mais do que outros fizeram no passado, mas os ataques que fez, no primeiro mandato, o assassinato do líder da Guarda Revolucionária, o general Soleimani, e neste segundo mandato, este ataque ao programa nuclear, foram ataques, apesar de tudo, bastante limitados, e isso foi claramente sinalizado. Isso tem em si também o perfil, de um modo geral, das ações militares do Donald Trump, mesmo contra Maduro, na Venezuela, ou seja, são ações que podem ser levadas a cabo em poucas horas, com riscos baixos de haver baixas, de haver mortos norte-americanos, e depois tentando evitar realmente este risco de escalada, de prolongamento do conflito, intensificação do conflito, porque Donald Trump sabe que isso é muito impopular. É muito impopular no Médio Oriente, entre países aliados que ele valoriza, como por exemplo, os países do Golfo. É muito arriscado economicamente. Vocês estavam a falar antes disso, a questão do preço do petróleo, por exemplo, e o impacto na economia global muito complicado. O preço do petróleo subiu 10% quando houve só o receio do conflito, sem sequer ele ter começado, já baixou quase outro tanto agora com a ideia de que pode haver uma saída negocial. Portanto, tudo isso parece apontar para que seja realmente possível que Donald Trump procure um acordo, até porque pra ele, a questão do regime iraniano, da oposição iraniana, deste banho de sangue em que terminaram estes protestos massivos no Irão, não é uma questão muito relevante. A questão da promoção da democracia não é uma prioridade para Donald Trump.

Sobre isto, e no caso de um eventual acordo, Israel vai pedir ao enviado dos Estados Unidos, Steve Witkoff, para respeitar as três linhas vermelhas para o Irão. Bruno, os três grandes nãos de Tel Aviv são: não a um programa nuclear, não a um programa de mísseis balísticos e não a qualquer apoio a grupos armados que ameacem Israel. Parece viável que o Irã aceite estas condições

Parece-me difícil, embora também depende exactamente do que se pede em cada um desses itens e até que ponto é que se vai depois no nível de exigência. Mas acabar completamente com o programa nuclear é muito importante para o Irão, para a sua afirmação e para o seu estatuto também. Até anterior ao próprio regime de 1979, o próprio xá do Irão, que era um aliado dos Estados Unidos, tinha um programa nuclear já. A questão dos mísseis para o Irão é vista também como muito importante para a eficácia da sua defesa. Portanto, acabar completamente também pode ser complicado. E depois essa questão do apoio às milícias, a grupos armados na região, que tem tido um efeito desestabilizador terrível nas últimas décadas, o Hezbollah, os Houthis, etc. À partida, pareceria talvez o mais fácil. Inclusive, nós sabemos que isso é muito impopular entre muitos iranianos, que não percebem como é que um Estado com tantos problemas, ao ponto da capital, por exemplo, estar com o abastecimento d'água em risco, gasta milhares de milhões e cria imensos inimigos, sanções, etc., para ter esse tipo de ação desestabilizadora. Mas realmente para o regime islâmico, para este regime que tem também ambições de liderança regional e de liderança no seio do mundo islâmico, é muito difícil também abdicar completamente isso que tem sido realmente a sua identidade. Mas vamos ver exatamente o que, no concreto, os Estados Unidos exigem em cada uma dessas áreas e até que ponto é realmente possível algum compromisso que fique um pouco aquém destas exigências mais maximalistas de Israel.

Em relação a Gaza, os Médicos Sem Fronteiras vão deixar de operar na região no fim deste mês, por não terem supostamente entregado a Israel a lista dos funcionários que lá trabalham. Bruno, que impacto é que isto vai ter na população?

Vai ter um impacto muito negativo, porque a situação já é bastante complicada e, portanto, tudo o que seja a retirada de meios, neste particular também de pessoal médico, obviamente será sempre bastante negativo. Embora, obviamente, a situação tenha parado de se degradar no sentido que não há ações militares que ainda agravem mais a destruição e as baixas entre civis, etc. De facto, grande parte da infraestrutura, como é fácil de perceber, está completamente destruída e, portanto, todas essas restrições ainda complicam mais a situação da população civil.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Boa semana.

Boa semana. Obrigado.

Obrigada, Bruno.