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Este é o som do Gabinete de Guerra das manhãs 360, esta quinta-feira com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia. Bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Bom dia, Bruno. Começamos pelo discurso de Donald Trump num comício no Texas. Deixou vários avisos, amiçou bombardear o Irão na Montanha da Picareta para impedir uma arma nuclear, acusou Teerão de preferir negociar com os democratas, disse outra vez que o Estreito de Ormuz devia passar a chamar-se estreito de Trump e prometeu 5 mil dólares a cada americano se os republicanos vencerem as eleições. Bruno, quando um presidente usa a política externa e até a promessa de gasolina barata como trunfos para tentar salvar as eleições intercalares, o Ocidente não corre o risco de ver decisões militares estratégicas serem tomadas ao ritmo das sondagens?

Não será a primeira vez na história que a política interna condiciona a política externa. Nós sabemos que, por exemplo, na questão da Guerra do Vietname, um dos grandes receios de uma série de presidentes americanos, ou pelo menos de dois, os que estiveram mais envolvidos, o Lyndon Johnson e depois o presidente Nixon, um democrata e outro republicano, era que, no fundo, embora fosse evidente que aquela guerra estava a correr mal e que era um erro, um envolvimento crescente direto dos Estados Unidos, que estava a ser contraproducente até, mas uma retirada precipitada ou um eventual colapso podia ser visto como um sinal de fraqueza e, portanto, ser fatal do ponto de vista da credibilidade interna dos presidentes. Agora, o que é único em Donald Trump é sempre o estilo com que ele faz isso, também a forma descarada como ele faz isso. Portanto, não há aqui nenhum tipo de subtileza. E do meu ponto de vista também, mesmo nesses casos, havia sempre uma preocupação grande com a própria credibilidade dos Estados Unidos, os interesses de longo prazo dos Estados Unidos, e esta ideia de que a credibilidade dos Estados Unidos como aliado podia estar em risco. No caso de Donald Trump, eu acho que é realmente, e sobretudo, mas nisso ele também é muitas vezes bastante sincero, uma questão de personalização da política. Portanto, os seus interesses políticos pessoais é que são sempre o que prevalece nessa tomada de decisão. Agora, além disso, temos aqui outras questões, que é, de facto, não há nenhuma credibilidade no que ele diz. Não se vê nenhuma lógica nesta ideia de que se os democratas ganharem as intercalares ou se os republicanos ganharem, o que isso vai fazer aos cálculos do Irão. O Irão claramente está a apostar em criar pressão política e econômica sobre os Estados Unidos, isso é realmente verdade, mas não se vê que isso só funciona até ao dia das eleições. E depois há ainda esta questão não despicienda dos 5 mil dólares, que basicamente não se percebe de onde é que vêm, a que título é que seriam pagos.

Isto chama-se comprar votos.

Exatamente, uma forma absolutamente descarada também. Lá está, não seria a primeira vez que um governo anunciaria medidas com a eventual intenção também de ganhar votos, mas neste caso é uma ligação direta e absolutamente descarada. Mas provavelmente também não é algo que Donald Trump possa vir a fazer. Portanto, acho que é só mais um passo nesta degradação da imagem da credibilidade do atual presidente dos Estados Unidos, e isso realmente também tem um impacto externo. Agora, não anula este facto que o presidente dos Estados Unidos, com mais ou menos credibilidade ou prestígio ou má imagem, a verdade é que continua a ter muito poder.

Exatamente.

E todos nós pagamos um preço bastante elevado pelo poder que ele tem, por exemplo, de causar estragos na economia global.

Mas ainda sobre o Irão, ao traçar uma linha vermelha pública num comício sobre um alvo subterrâneo ultrassecreto como o da Montanha da Picareta, Trump não está a criar uma armadilha para si próprio em que será obrigado a retaliar militarmente se o Irão, por exemplo, ignorar o aviso? Ou não quer saber?

Eu diria que em circunstâncias normais, sim, embora também não seja, para ser claro e rigoroso, não é a primeira vez que um presidente americano faz ameaças que depois não se concretizam. Por exemplo, é muito discutida a questão do Obama em relação ao uso de armas químicas na Síria, embora Obama alegue que depois conseguiu um acordo com o regime sírio para retirar essas armas químicas e que não conseguiu o apoio do Congresso também para esse ataque. Mas a verdade é que, por exemplo, isso foi extremamente criticado, eu acho que com justificação, e entre outras pessoas, também pelo próprio Donald Trump. Mas a questão com o Donald Trump é que ele já fez múltiplas ameaças que depois não concretizou, inclusive em relação ao próprio Irão. Agora, isso é grave? É grave, porque um dos problemas é que retira a capacidade de pressão aos Estados Unidos, porque nunca se sabe muito bem se aquilo que está a ser ameaçado vai ser concretizado ou não, e portanto, reduz o efeito também desse tipo de pressão. Mas eu acho que não é obrigatório que Donald Trump concretize essa ameaça. Seria o mais normal e seria grave. Agora, com Donald Trump, não seria normal que ele realmente não a concretizasse. Isso também é grave, porque realmente, como eu digo, acentua esta questão que é um país que costumava ser um pilar de estabilidade e um garante da ordem internacional, cada vez mais é ele próprio uma fonte de instabilidade, de incerteza, de imprevisibilidade, de desordem, até no contexto internacional.

Sobre a Ucrânia, a viagem de Zelensky para a Noruega ficou marcada por um susto de segurança. O avião em que viajava esteve quase a ser atingido por um drone russo enquanto descolava da Moldávia. Bruno, isto deve ser visto como um aviso, pode ter sido um erro de cálculo, esta incursão frequente de drones russos às portas da NATO é uma estratégia deliberada de provocação para testar a reação das defesas antiaéreas europeias

Eu acho que pode-se até perguntar se faria muito sentido Zelensky ir ao funeral do rei da Noruega. Não seria eventualmente um risco desnecessário? Eu acho que aqui vale a pena recordar que a Noruega, tal como a generalidade dos países nórdicos, é um apoio extremamente importante da Ucrânia. Eu estive a rever esses dados. A Noruega terá contribuído no total qualquer coisa como 11 mil milhões de euros para a Ucrânia desde o início, tem um compromisso com o valor anual até 2029, portanto, praticamente até o fim da década. É o quarto país em termos de porcentagem do PIB na ajuda à Ucrânia e é um país bastante rico, como sabemos, como resultado do petróleo. Agora, em relação ao que aconteceu, eu acho que as duas possibilidades existem, e as duas são graves, aliás, porque a Moldávia é suposto ser um país independente, soberano, que tem direito à sua integridade territorial, à sua segurança, mas realmente tem sido muito frequente a Rússia levar a cabo ataques basicamente até à fronteira da Ucrânia e muitas vezes isso leva a que haja depois drones ou até mísseis que vão para além dessas fronteiras por algum tipo de razão. Portanto, pode ser realmente um acidente ou pode ser algo deliberado, porque realmente sabemos que esta invasão da Ucrânia inclusive começou com uma operação para tentar capturar ou eliminar Zelensky na capital, em Kiev, e que falhou realmente pela combinação de esforços dos serviços de informações ocidentais e também das forças especiais ucranianas. E isso também não é invulgar neste tipo de operações por parte da Rússia/União Soviética. Por exemplo, a invasão da Rússia soviética, da Rússia comunista, da União Soviética, do Afeganistão em 1979, começou exatamente com uma operação deste tipo, que nesse caso foi bem-sucedida. Portanto, a par da invasão com tanques por vários pontos, a par de forças especiais a ocuparem a capital, houve realmente um ataque ao então presidente afegão, que não era considerado suficientemente pró-soviético e que foi realmente assassinado nessa operação.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Um bom final de semana.

Bom dia. Obrigado.

Obrigada, Bruno.