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Já cá estamos para a nova reunião do gabinete de guerra com o Bruno Cardoso Reis, a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Começamos hoje com uma aparente certeza, Vanessa: não haverá cessar-fogo na guerra na Ucrânia durante o próximo Natal.

É como o Kremlin responde à proposta do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que queria uma retirada de tropas durante o Natal. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Vão coincidir exatamente com o Natal os 10 meses de guerra. Dia 24, véspera de Natal, cumprem-se 10 meses de guerra. E cá estamos nós perante um braço de ferro, mesmo nesta época. Guerra que é guerra, não para nem no Natal.

Há algumas histórias de que isso eventualmente teria acontecido, nomeadamente na Primeira Guerra, logo no primeiro Natal, em 1914, teria havido uma espécie de tréguas informais, até com jogos de futebol entre os alemães e as tropas aliadas, mas realmente, formalmente, não houve uma pausa. No passado, às vezes também havia, com as dificuldades de comunicação e de equipamento que eram muito maiores, esta tradição de invernar durante o inverno, portanto, as tropas limitavam as movimentações, portanto, mais uma vez, havia uma espécie de cessar-fogo, de facto. Mas aquilo que se pretendia era realmente uma garantia de um cessar-fogo. Acho que pode-se ainda ver pelas autoridades religiosas, várias poderão ir nesse sentido e ter algum resultado, mas tendo em conta também essas declarações, os sinais não são muito positivos. Eu acho que apesar de tudo, já não seria mau se avançasse uma outra questão que está a ser discutida, nomeadamente pela Cruz Vermelha, que tem tradicionalmente essa função de se dedicar em particular à questão dos prisioneiros de guerra. Seria já uma ótima notícia haver uma troca de prisioneiros de guerra dos dois lados, no fundo, uma troca de prisioneiros ucranianos por prisioneiros russos e permitir pelo menos a esses soldados aprisionados que regressassem às famílias por altura do Natal. Acho que talvez isso seja o máximo que se conseguirá utilizando o pretexto do calendário e desta festa religiosa muito importante, e diria até, deveria ser especialmente importante no caso da Rússia, visto que Putin tem insistido muito na ligação com a Igreja Ortodoxa, mas pelos vistos não ao ponto de se pôr em questão os seus objetivos de guerra.

Bruno, também estamos neste momento a ver Kiev novamente sob ataque, de fortes explosões. É uma nova investida russa. Que balanço é que fazes desta situação?

Eu penso que é a continuação desta estratégia de ataques aéreos. Aparentemente, foram utilizados aqui, sobretudo, drones iranianos. Portanto, é mais uma demonstração que realmente esta parceria, esta cooperação militar entre o Irã e a Rússia, realmente é uma realidade e tem-se traduzido em dar a possibilidade à Rússia de, perante grandes dificuldades no terreno, enfim, a única zona onde vai avançando, ainda que lentamente e com muitas baixas, é a zona de Bakhmut, mas perante as dificuldades no terreno, apesar de tudo, ter aqui uma outra forma de mostrar iniciativa, de mostrar força, de dar alguma resposta também, em termos políticos, às críticas muito intensas feitas pelos setores mais nacionalistas, mais belicistas no interior da própria Rússia, que é precisamente esta questão dos ataques aéreos aos grandes centros urbanos ucranianos, em particular à capital, que obviamente também é a principal cidade em termos de população, é um importante símbolo também político da vontade de resistência ucraniana e portanto, veria sobretudo nesses termos, ou seja, uma continuidade desse esforço com a utilização dos meios disponíveis. Aqui também, por exemplo, esta utilização de drones iranianos também sinaliza que não há drones russos disponíveis e que inclusive, ao nível de mísseis com mais capacidade, com mais alcance do que têm os drones, de facto, a Rússia também terá algumas limitações ao nível das suas reservas. Portanto, tem de ir gerindo isso utilizando estes outros meios que não são tão eficazes do ponto de vista da capacidade de destruição, mas pelo menos permitem continuar estas vagas de terror aéreo, vamos dizer assim, que têm sido a estratégia russa nas últimas semanas e meses até.

Bruno, os separatistas russos em Donetsk comprometem-se a libertar Odesa e Chernihiv, e aqui o libertar é com muitas aspas, porque apesar de Donetsk ter sido anexada pela Federação Russa, estes governos separatistas controlam apenas 50% do território. Crês que nesta altura têm margem para serem bem-sucedidos?

Eu, de facto, não dou muita credibilidade a essas declarações. Quer dizer, em relação, nomeadamente, à questão de Odesa, isso parece-me não ter, de facto, nenhum sentido. Estamos a falar de duas localidades que estão muito afastadas da linha da frente, mas por exemplo, no caso de Odesa, a Rússia foi forçada a abandonar Kherson. Que era, no fundo, a sua testa de ponta, era o território na margem ocidental do Dnieper, a partir do qual se poderia pensar que poderia organizar uma ofensiva em direção a Mykolayiv e depois em direção a Odesa, para controlar o resto da costa do sul da Ucrânia e fechar, de facto, o acesso da Ucrânia ao mar. Ora, aquilo que aconteceu foi não só esses avanços não se verificaram ou foram derrotados, houve avanços até em direção a Mykolayiv, mas foram repelidos, foram derrotados, como, pelo contrário, a Rússia foi forçada a retirar Dessa margem ocidental do Dnieper. Portanto, qualquer operação em direção a Odessa, neste momento, obrigaria a uma ofensiva de um grau de ambição com volume de tropas muito maior, obrigaria, à partida, a operações inclusive anfíbias, ou seja, a atravessar o rio utilizando ou pontões ou barcos, que é sempre uma operação militar extremamente complexa e propensa a muitas vítimas. Aliás, os russos já tiveram graves problemas e muitas baixas com operações desse tipo até em rios de menos caudalosos que o Dnieper na zona da sua foz. Portanto, de facto, isso não parece ter nenhuma credibilidade. Faz parte da narrativa e da propaganda nacionalista destes grupos.

Bruno, vamos ao último ponto da ordem de trabalhos. Vamos trazer aqui as manobras militares na Bielorrússia. Pode vir aí uma nova ofensiva a partir do norte da Ucrânia?

Eu acho que nunca podemos afastar essa possibilidade. Acho que é certamente, em parte, essa a intenção das notícias que temos visto de exercícios da presença de tropas russas, notícias nos últimos dias de um grande exercício com declarações do próprio comandante das Forças Armadas da Bielorrússia, etc. Portanto, é no fundo, criar pressão sobre a Ucrânia, é obrigar a Ucrânia a não desguarnecer ou até a reforçar as suas defesas na zona do norte, na frente norte, na fronteira norte. Aliás, vimos também reportagens do lado ucraniano precisamente a sinalizar isso, que desta vez não vai ser um passeio como foi em 24 de fevereiro em direção a Kiev, que há defesas preparadas. Agora, não é claro que seja algo para além disso. Eu diria do ponto de vista militar, haveria grandes dificuldades em fazer isso. O problema da logística russa com a multiplicação da frente ficou muito evidente nessa fase inicial da campanha e foi isso que obrigou à concentração do esforço e da frente no leste e no sul. Portanto, se voltasse a abrir aqui uma nova frente, esses problemas voltariam a ser criados. Há também notícias de que a própria Bielorrússia tem fornecido armamento às tropas russas e, portanto, está de alguma forma a desarmar-se ou a perder algum do seu equipamento. E também não é absolutamente claro qual seria o grande objetivo. Um avanço em relação a Kiev, de facto, seria desta vez muitíssimo mais difícil. Há todos os sinais de que há linhas defensivas preparadas para dificultar o máximo isso, zonas minadas, etc., na fronteira. Uma outra possibilidade seria uma das grandes centrais nucleares da Ucrânia, uma das três que ainda continuam nas mãos da Ucrânia, fica relativamente próximo da fronteira da Bielorrússia. Isso poderia ser eventualmente um alvo relevante, no fundo, complementando esta estratégia de assalto, de ataque aéreo à rede elétrica, às infraestruturas elétricas, para tentar o mais possível privar a Ucrânia de eletricidade. Portanto, isso poderia eventualmente ser um alvo que faria aqui um mínimo de sentido e que obviamente obrigaria as forças ucranianas também a dispersarem-se e a reforçarem esta frente norte. Mas para já, eu diria que os sinais parecem ser de que se trata, sobretudo, de uma operação de informação ou desinformação, se quisermos, para forçar, para fixar tropas ucranianas no norte, para evitar que haja uma grande deslocação de tropas ucranianas desta zona do norte para outras zonas, para outras frentes mais ativas, mais do que propriamente a ideia de uma ofensiva iminente, novamente a partir da Bielorrússia. Mas de facto não podemos afastar isso completamente.

Estaremos aqui sempre atentos a esses sinais no Gabinete de Guerra. Bruno Cardoso Reis, até amanhã.

Até amanhã. Obrigado.