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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Daniela Nunes, Putin quer reforçar as medidas de luta contra o que chama de interferência externa, depois do ataque contra judeus no aeroporto do Daguestão, uma região russa. Além da narrativa que já ouvimos esta semana, de estar a tentar colocar a Ucrânia por detrás deste episódio, o que lhe pergunto é se este tipo de episódios e discursos a que temos assistido, e também de Moscovo, podem vir a fazer reavivar o antissemitismo no Ocidente.
Estes episódios não só podem reavivar o antissemitismo no Ocidente, como estão efetivamente a provocar esse efeito. Há claramente uma retórica ocidental pró-palestiniana, porque de repente, e é absolutamente normal, despertou o interesse das pessoas sobre o conflito israelo-palestiniano. As pessoas foram conhecer a história, ligam a televisão e o que veem e o que ouvem é fundamentalmente uma atitude algo impiedosa e pouco flexível por parte do executivo israelita. E depois, obviamente, abre-se aqui a porta a radicalizações e a fundamentalismos. Eu não estou com isto a dizer que a atitude israelita merece uma resposta antissemita. Aliás, sublinho, não é isso que eu estou a dizer. A ideia é que, efetivamente, a pouca consideração que Israel está a ter pelas questões humanitárias e pelas questões civis em Gaza, está a conduzir um conjunto de radicais a adotar comportamentos antissemitas, que obviamente são de condenar e não têm cabimento nenhum, mas que estão a acontecer. Aliás, como vimos, por exemplo, neste episódio em concreto do aeroporto do Daguestão. Depois também há aqui uma outra leitura a fazer sobre esta questão, que é uma leitura mais diretamente ligada à forma como a Rússia arranja maneira, não sei bem como, de culpabilizar a Ucrânia pelo sucedido no domingo neste aeroporto. Portanto, parece que se amanhã houver um terramoto em qualquer parte do mundo, a culpa é da Ucrânia, porque jamais poderá ter sido a Mãe Natureza a provocar um terramoto. Isso não faria sentido nenhum para o regime putinista. Putin chegou mesmo a acusar Kiev de tentar orquestrar, com a ajuda dos aliados ocidentais, claro, uma espécie de pogrom, que é um termo russo que ele utilizou e que significa uma espécie de movimento de perseguição ou de violência contra uma comunidade étnica ou religiosa específica, neste caso a comunidade judaica. Vê-se nitidamente que o Kremlin aproveita o que quer que seja que aconteça no mundo para canalizar culpa e sentimentos de ódio para a Ucrânia, para o povo ucraniano, para o regime e para o governo ucraniano. Isto não é exatamente uma novidade, mas começa até a ser engraçado como é que uma coisa que não tem nada a ver com a Ucrânia e que não tem nada a ver com a guerra na Ucrânia, como é que o regime de Putin consegue canalizar isto para a Ucrânia e para o governo de Zelensky. Não faz sentido nenhum, mas também não é nada de novo.
A narrativa vai sendo sempre essa. Ainda aqui um segundo ponto, Daniela Nunes, cerca de um mês depois do ataque a uma mercearia e a um café na aldeia ucraniana de Groza, que provocou a morte a cerca de 60 pessoas, o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos vem hoje dizer que encontrou dados fundamentados para concluir que esse ataque foi lançado pelas forças da Rússia. Isto pode engrossar a lista de crimes de guerra? É a primeira ilação que podemos tirar?
Sim, claro que sim. Vou só aqui recordar os ouvintes, porque este ataque já aconteceu no dia 5 de outubro, há quase um mês. Os russos terão atacado, pelos vistos, uma mercearia ou um café numa aldeia do distrito de Kupiansk, no Oblast Kharkiv, enquanto também acontecia uma cerimónia, um velório, aliás, de um soldado morto em combate. Tratou-se obviamente de um crime de guerra. Ainda por cima, a arma utilizada foi um míssil balístico num contexto ou em dois contextos civis, aliás, uma mercearia e um velório. Isso não tem cabimento algum. E recentemente, hoje mesmo, aliás, o gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos confirmou que este ataque terá sido lançado pelo exército russo e que todas as 59 vítimas eram civis. Não se trata apenas de um crime de guerra, mas claramente de um erro de cálculo das forças russas, que possivelmente acreditavam encontrar naquele local posições do exército ucraniano ou alvos militares importantes para abater. O que também, a meu ver, será a única explicação para a utilização de um míssil balístico, que não é a última ou a mais potente das armas ao serviço do Kremlin, mas não é uma arma para utilizar naquele contexto. Sobre isso, não há dúvida. E depois, obviamente, trata-se também aqui de mais um ponto para a lista, já longa, de todas as vezes que a Rússia desrespeitou o direito internacional e designadamente o direito internacional humanitário, no contexto deste conflito com a Ucrânia. E quando tudo isto acabar, nós cá estaremos para ver o julgamento deste desrespeito e para ver também, ou pelo menos eu assim espero, o bom funcionamento das regras ou das consequências do não cumprimento destas regras do direito internacional a serem postas em prática.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.