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O que se passa na Ucrânia e no Médio Oriente. Análise para fazer em mais uma edição de Gabinete de Guerra. Hoje com o estudador Bruno Cardoso Reis. Bruno, muito boa tarde. Vamos começar pela situação na Rússia, em território russo, em Kursk. A Rússia admite já dificuldades para responder e perdas em Kursk, fala também em terrorismo por parte da Ucrânia. E hoje há a informação de que as secretas alertaram o líder das tropas russas sobre a ofensiva ucraniana em Kursk, mas que Gerasimov ignorou os avisos e nem sequer disse nada a Vladimir Putin. Como está nesta altura a situação em Kursk e como vês também esta informação sobre as secretas terem alertado que poderia acontecer?

Boa tarde, Miguel. Boa tarde a todos. Que houve aqui uma falha de informações, de intelligence, isso é bastante evidente. Uma das coisas que tem caracterizado este conflito e que tem mostrado também como é difícil grandes avanços, grandes ofensivas, como vimos historicamente no passado, é a questão realmente de com a saturação do campo de batalha com satélites, com drones, é muito difícil realmente disfarçar, ocultar concentrações de forças que são necessárias para fazer uma ofensiva. E portanto, aqui, obviamente, uma das formas de explicar isso é: isso foi visto, mas não se fez a interpretação devida, achou-se que era uma concentração que tinha outro objetivo ou que seria simplesmente para desviar atenções da Rússia, etc. Mas aparentemente, da parte dos serviços de informações, terá havido uma avaliação até correta da intenção, é que havia aqui, pelo menos um risco de que houvesse uma ação ofensiva e claramente não houve uma ação eficaz em relação a isso, porque de outra forma não teria havido esta penetração já de vários dias. Enfim, a última notícia que tivemos de uma emboscada, inclusive a 40 km da fronteira. Isso mostra que realmente, mesmo passado estes dias, as forças russas não conseguiram minimamente controlar a questão, portanto, não estavam preparadas. Sobre a irresponsabilidade, no fundo, qual é exatamente o caminho a seguir na transmissão da informação, onde é que isso falhou. Por exemplo, a ideia de que Putin não foi avisado, não sei se o facto dessa informação aparecer não tem a ver aqui com desviar, no fundo, responsabilidades do líder supremo. Portanto, isso tem mais uma dimensão política do que propriamente podermos dar grande credibilidade a isso, mas é verdade que houve aqui claramente uma falha de informações grave.

O ano passado muito falámos de uma contraofensiva de verão na Ucrânia para conquistar território perdido para a Rússia na Ucrânia. Agora isto é outro tipo de ação, é um tipo de ação ofensiva em território russo, fala-se muito de perdas já dos dois lados, na verdade, e estão a ser relatadas perdas dos dois lados. É de esperar que isto continue nos próximos dias, até porque há informações de que a Ucrânia está a atacar não só em Kursk, mas também em Belgorod e em Sebastopol.

Essa é a grande questão. No fundo, que tipo de operação é que temos aqui? É um raid, é uma operação de diversão, inclusive, ou seja, desviar atenções com uma ação rápida e desviar atenções para depois se concentrar as forças ofensivas noutras áreas ou até simplesmente para aliviar zonas da frente onde tem havido avanços russos. Ou se a ideia não é simplesmente um objetivo mais tático, operacional, mas há uma dimensão estratégica, que neste caso seria tentar manter pelo menos uma parte deste território sob controle ucraniano e no fundo usar isso até como arma negocial, porque como dizias, e isso obviamente também explica o falhanço de segurança do lado russo, das informações e da reação russa. Houve aqui algo que é uma surpresa, não é? E que mostra realmente como é preciso, num conflito prolongado, não pensar em termos lineares, não pensar que o que aconteceu é o que vai continuar a acontecer. Realmente nunca tinha acontecido a Ucrânia fazer uma ação ofensiva contra território russo, contra território ocupado pela Rússia, contra forças russas na Ucrânia, sim, mas não contra território russo. E portanto, foi isso que criou aqui também toda esta dificuldade russa de responder. Agora, há um elemento de risco, dificuldade, que é: isto vai alargar a frente. Se a Ucrânia quiser manter este território, vai ter de criar aqui estruturas defensivas, vai ter de criar uma estrutura logística de apoio para sustentar estas forças, vai ter de aguentar os contra-ataques russos quando eles começarem a estar mais organizados. E obviamente, isso também implica retirar forças, retirar homens de outras zonas. Agora, na medida em que a Ucrânia consiga manter este esforço, manter aqui alguma presença e para mais conseguir fazer ofensivas, mesmo que localizadas noutras zonas, isso significa que estamos numa fase em que a Ucrânia recuperou alguma iniciativa e em que estará a criar dificuldades à Rússia. Porque isso também dificulta à Rússia a resposta. Onde é que vai concentrar então os esforços? Pode-se concentrar apenas nesta zona, retirar tropas de outras zonas e concentrar-se aqui ou tem de manter-se atento a outras partes da frente onde poderá haver outras ações ucranianas.

Sendo que isto também representa um esforço de guerra para a Ucrânia, que está a responder ainda a ataques russos no território ucraniano e está agora a avançar na Rússia. Falar um pouco também do Médio Oriente, porque começam a surgir informações de uma tentativa de chegar a mais uma trégua ou a um cessar-fogo. Alemanha e França hoje dizem que apoiam a mediação dos Estados Unidos, Qatar e Egito para chegar a uma trégua em Gaza. Isto enquanto ainda temos essa situação da retaliação iraniana para Israel. É possível Estados Unidos, Qatar e Egito serem os países mais importantes para chegar aqui uma trégua em Gaza?

Têm sido países muito importantes, são eles os grandes interlocutores neste processo de mediação, que é sempre indireto, com os Estados Unidos a fazerem pressão sobre Israel para se tentar chegar a um compromisso e com, à partida, os Estados árabes mais moderados, o Qatar e o Egito, mas que têm contactos com a Hamas e, no caso do Egito, tem fronteira com Gaza, portanto a fazer alguma pressão, em princípio, sobre o Hamas. Agora o problema é sempre, mesmo nestes últimos desenvolvimentos, quais são as implicações? Se tivermos uma escalada, se tivermos uma resposta de grandes proporções do Irão, obviamente isso vai tornar muito difícil avançar com qualquer compromisso. Mesmo esta questão da eliminação do líder político do Hamas por Israel, do senhor Haniya, realmente foi uma grande demonstração de poder, foi uma grande demonstração de fraqueza da parte não só do Hamas, mas sobretudo do Irão, uma vez que teve lugar no próprio Irão, no centro da capital, numa zona altamente protegida, na altura da posse do presidente. Portanto, tudo isso foi um sinal de força de Israel, de fraqueza do Irão. Mas a questão é, o resultado de tudo isso é o mais falcão, o mais duro dos duros dentro do Hamas, aquele que é o grande responsável claramente pelo ataque de 7 de outubro, é que acaba o Sinwar. O Yahya Sinwar acaba por ser, como resultado disso, o líder máximo do Hamas. E portanto, será que com este dado novo, isto reforça ou complica o esforço de paz? À partida, a lógica mais simples seria complica, porque pelo que percebemos tem sido um dos grandes obstáculos, mas às vezes há aqui efeitos paradoxais. Até pode ser, Sinwar é alguém que é muito pragmático e muito eficaz, muito cruelmente eficaz. Pode ser que agora que ele atingiu o seu objetivo último, que é ser o líder do Hamas, agora queira aqui um período de alguma pausa e portanto até possa haver condições para avançar. Mas obviamente, aqui o grande problema depois é que é sempre preciso não só haver condições do lado do Hamas, haver aceitação, mas haver também do lado de Israel e quer de um lado quer do outro, as figuras claramente dominantes e que se têm tornado mais dominantes, aliás, no caso de Israel obviamente, a oposição moderada também já deixou o governo, são líderes que têm sido sempre líderes de uma linha mais dura e mais defensora de respostas militares, soluções militares.

Gabinete de Guerra com Bruno Cardoso Reis. Muito obrigado por mais uma participação. Estamos de regresso na próxima semana.

Obrigado