Primeiro, Michael Carrick não podia resistir à goleada contra o Como na Liga dos Campeões. Mas resistiu. Depois, Michael Carrick não podia resistir à derrota contra o Bournemouth em Old Trafford. Mas resistiu. Este sábado, independentemente do resultado contra o Chelsea, a ideia generalizada no universo do Manchester United já era claramente só uma: Michael Carrick iria resistir. 

O fim de semana passado terminou com a sensação de que o treinador inglês tinha mesmo feito o último jogo ao comando dos red devils e existiam vários motivos para isso. Os oito jogos consecutivos sem ganhar entre Premier League, Liga dos Campeões e Taça da Liga, as críticas recentes e públicas de Lisandro Martínez e Bruno Fernandes à estrutura e à equipa técnica, o castigo a Bruno Fernandes na sequência dessas críticas que deixou o médio português no banco de suplentes contra o Bournemouth e a aparente despedida de Michael Carrick às bancadas de Old Trafford com uma volta inteira ao relvado entre aplausos e cânticos.

Está a tremer, mas ainda não caiu e tem o apoio dos adeptos: Manchester United segura Michael Carrick e dá mais tempo ao treinador

Logo no início da semana, porém, todas as dúvidas foram dissipadas. O The Athletic avançou rapidamente que Michael Carrick tinha estado em Carrington na segunda-feira, dia de folga para todo o plantel, e que a reunião de urgência com o coproprietário Jim Ratcliffe, o CEO Omar Berrada e o diretor desportivo Jason Wilcox tinha terminado com a certeza de que o treinador inglês iria continuar no cargo. Ou, pelo menos, que o treinador inglês iria continuar no cargo no próximo ciclo de três jogos, contra Chelsea, Roma e Aston Villa, antes da próxima paragem para os compromissos das seleções nacionais — ou seja, oferecendo ao Manchester United uma eventual janela temporária para também procurar um substituto a longo prazo.

Depois, surgiram as notícias que davam conta de uma conversa entre Michael Carrick e Bruno Fernandes, treinador e capitão, para resolver o diferendo criado pelas palavras do médio português depois da goleada contra o Como. Ou seja, no espaço de horas, a ideia da continuidade do inglês tinha passado de impossibilidade clara a probabilidade confirmada. E Carrick, na antecâmara da visita ao Chelsea, não escondia que a semana foi feita de conversas, reuniões e discussões.

“Nem sempre podemos ter só conversas agradáveis, seja entre mim e os jogadores, entre mim e o Jason, entre mim e o Omar ou os proprietários. É a verdade e a dura verdade, às vezes, é aquilo de que precisamos para avançar. Faremos o que for necessário para seguir em frente. Fazemos sempre o que achamos que vai tirar o melhor da equipa. Se isso significa falar com certos jogadores em determinados momentos, isso é normal. Se pedes líderes no balneário e queres opiniões sobre certas questões, haverá momentos em que isso vai acontecer e está tudo bem”, sublinhou o treinador.

Assim, em Stamford Bridge, Michael Carrick recuperava a titularidade de Bruno Fernandes, com Amad Diallo e Matheus Cunha a apoiarem Bryan Mbeumo e Carlos Baleba e Andrey Santos no meio-campo, sendo que Diogo Dalot aparecia naturalmente na esquerda da defesa, com Leny Yoro do lado contrário. No Chelsea, que vinha de uma derrota em casa contra o Tottenham e da eliminação na Taça da Liga frente ao Liverpool, Xabi Alonso surpreendia com Estêvão, que não tem sido utilizado e saltava para o onze inicial, e apostava também em Pedro Neto, com Geovany Quenda a começar no banco de suplentes.

Numa primeira parte que terminou sem golos, rapidamente se percebeu que o Chelsea ia procurar construir e desenhar, com jogadas organizadas e um futebol mais rendilhado, enquanto que o Manchester United queria essencialmente soltar a transição rápida e explorar as costas da defesa contrária. Ainda assim, o jogo acontecia essencialmente à boleia de erros, com as duas equipas a demonstrarem uma enorme fragilidade defensiva que abria a porta a passes mal medidos, perdas de bola em zonas proibidas ou posicionamentos equivocados.

Estêvão (8′) e Andrey Santos (9′) tiveram as primeiras situações de perigo ainda dentro dos 10 minutos iniciais, ambos com remates desenquadrados, e o brasileiro dos blues até acertou na baliza pouco depois, numa recarga a um pontapé de Pedro Neto que Senne Lammens defendeu para a frente, mas o lance foi anulado por fora de jogo (15′). Bruno Fernandes teve uma enorme oportunidade para marcar numa transição rápida, mas atirou por cima (19′), e Matheus Cunha ainda festejou depois de bater Mike Penders na sequência de um canto, mas o golo também foi invalidado por posição irregular (34′). Amad Diallo falhou uma última grande ocasião, ao atirar por cima quando só tinha o guarda-redes pela frente (43′), e Chelsea e Manchester United chegaram mesmo empatados ao intervalo.

Nenhum dos treinadores mexeu no início da segunda parte e o Chelsea nem sequer precisou de cinco minutos para abrir o marcador. Numa arrancada brutal pelo corredor central, sem qualquer tipo de oposição visível, Morgan Rogers pegou na bola e só parou quando apareceu na cara de Senne Lammens para picar e marcar (50′). Michael Carrick mexeu pela primeira vez ainda antes da hora de jogo, trocando Carlos Baleba por Kobbie Mainoo, mas tudo ficou pior ainda para o Manchester United quando o árbitro foi chamado ao VAR, assinalou grande penalidade de Lisandro Martínez sobre Wesley Fofana na sequência de um canto, expulsou o central com segundo cartão amarelo e Cole Palmer converteu o castigo máximo para aumentar a vantagem dos blues (64′).

Ayden Heaven e Mason Mount entraram logo a seguir e Estêvão voltou a colocar a bola no fundo da baliza, com um remate forte e cruzado na área, mas o lance foi novamente anulado por fora de jogo (71′). Pep Chavarría, Valentín Barco, Danny Welbeck, Malo Gusto e Geovany Quenda tiveram direito a alguns minutos, Joshua Zirkzee também entrou, Senne Lammens ainda negou mais um golo a Estêvão com uma defesa em voo (85′), Mbeumo acertou na trave (90+2′) e já nada mudou até ao fim.

O Manchester United perdeu com o Chelsea em Stamford Bridge, somou a terceira derrota consecutiva e o nono jogo sem ganhar, uma série negativa que não acontecia há 36 anos, desde 1988 — sendo que, aí e no início da dinastia de Alex Ferguson, foram sete empates e duas derrotas, enquanto que atualmente são seis derrotas e três empates. Ainda assim, à partida, Michael Carrick vai mesmo continuar a resistir.