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Gabinete de Guerra, na Rádio Observador. Fazemos um ponto de situação nos conflitos do Medio Oriente e também da Ucrânia, com Orlando Sá Mois, especialista em Relações Internacionais. Bem-vindo à Rádio Observador, obrigada por estar conosco.
Muito obrigado pelo convite e boa tarde.
Deixe-me começar por perguntar, até porque estamos neste contexto de guerra, de vários conflitos, e isto é algo que diz diretamente respeito a Portugal. O Serviço de Informações de Segurança alertou esta quarta-feira para uma campanha promovida por um Estado estrangeiro para ter acesso a dados de contas de WhatsApp e de Signal, de governantes, diplomatas e militares. O Observador provou, entretanto, que os hackers têm ligação à Rússia. Quão preocupados é que devemos ficar com esta revelação?
De facto, devemos ficar algo preocupados, mas também alerta. É natural, Portugal faz parte de um conjunto de alianças, nomeadamente da NATO, tem uma forma de estar no mundo em que pertence às organizações internacionais, não é totalmente neutro, por muito que tente alimentar boas relações com todos os países do mundo. E o que é facto é que acabamos, quer queiramos, quer não, de fazer parte de um conjunto de países, e neste caso, até, de países que investiram sobre o Irão. É claro que podemos discutir e criticar algumas das premissas, mas sabemos que havia, de facto, uma enorme tensão também para com um regime que todos criticamos, que é o do Irão, e que por isso nos deixa muitas vezes a ter que, ainda de forma condicionada, como foi explicado, permitir a utilização das nossas bases e se calhar até promover uma certa interajuda a nível de informações. Portanto, é natural que outras potências, mesmo por razões até meramente de tentar saber melhor o que se está a passar, procurem ter mais informações sobre Portugal e sobre todos os países. Provavelmente, fazem-no sobre todos os países. Temos é que estar mais alerta e o mais alerta possível. Se recordarmos e se voltarmos atrás na fita do tempo, creio que já estivemos bastante mais relaxados e em demasia com estes assuntos. Lembro-me daquela situação, e não estou aqui de facto a culpar ninguém, creio que era muito o ambiente e a cultura política que tínhamos na altura, que até promoveu a ideia de se dar à embaixada de um dos países, neste caso a Rússia, informações sobre manifestantes que poderiam ter manifestado contra ou a favor de determinada política ou política desse país.
Está a falar do caso da Câmara de Lisboa.
Pois, é de facto um caso bastante interessante e que nos deve apenas alarmar no sentido de que, por vezes, e num estado de demasiada paz, em que estamos muito acostumados a estar de bem com todos e que seria sempre esse o cenário que devíamos promover, a verdade é que em Portugal deve-se proteger todos os que se manifestam a favor ou contra esta ou aquela ideia, este ou aquele governo. E naturalmente não transmitir, não sugerir. Quer dizer, nós neste momento estamos preocupados com a proteção da informação. Devíamos estar sempre. Na altura fomos tão longe quanto promover, no fundo, uma libertação dessa informação, aliás, sem ter sido pedida. Agora, que outras potências estejam a tentar retirar informações sobre nós, é natural, porque também estão investidos nas suas guerras e as guerras estão todas muito interligadas e, portanto, temos é que nos restringir mais, seguir os alertas de segurança, porque naturalmente a cibersegurança é muito importante e é uma das facetas destas guerras híbridas, que muitas vezes não são muito declaradas, mas acabam por ter muita importância.
Mas é uma frente de guerra, de facto, com importância e pode haver aqui informações sensíveis no âmbito da NATO.
E por isso mesmo temos que ter cada vez mais cuidado, até para sermos um exemplo, mesmo junto dos países da NATO, não libertar informação e termos programas mais avançados que possam escudar melhor essas tentativas, porque essas tentativas são relativamente normais. Todos procuram saber sobre aquilo que se está a passar do outro lado da cortina, do outro lado da frente, e por isso mesmo todo o cuidado é pouco. E muitas vezes a atitude do Estado, ao contrário do que aconteceu com essa situação lamentável, deve é proteger sim a identidade, as inclinações políticas de todos, independentemente sejam a favor ou contra este ou aquele Estado. Na altura, foi uma manifestação, creio que contra, e o Estado, portanto, deixou escapar essa informação. Devo até dizer que vai contra a ideia principal de um Estado constitucional, que é que os direitos das pessoas e a proteção desses direitos é mais importante que a própria política, porque a política só existe para proteger esses direitos das pessoas, nomeadamente os da manifestação, e nunca andar a divulgar. Quanto muito, se essa potência pedisse informação, aí o que o Estado devia fazer era resistir e não a dar. E neste momento, penso que estamos um bocadinho mais nesta situação, em que devemos tentar resistir essas possibilidades de incursão sobre informações nossas.
Entretanto, e tendo em conta que será a Rússia a estar por trás deste ataque à escala global, essas contas do WhatsApp e Signal, a guerra na Ucrânia tem ficado um pouco arredada da atualidade, tendo em conta os desenvolvimentos no conflito no Irão e nos países do Golfo. Mas os Estados Unidos propuseram negociações entre Kiev e Moscovo na próxima semana. Acredita que podem acontecer?
Bom, está arredada, mas de facto continua e continua com bastante intensidade. A Ucrânia conseguiu atingir Bryansk, um conjunto de fábricas de componentes de equipamentos tecnológicos que alimentam o esforço de guerra da Rússia. A Rússia, por seu turno, está a atacar Sloviansk hoje e creio que também Kharkiv A Turquia tentar fazer o papel de mediador até se ofereceu para ser anfitriã desses encontros. É sempre bom que se fale. Falar é uma medida muitas vezes de respeito e de se ouvirem uns aos outros, por muito que, como sabemos, não há bem um acordo à vista. A Rússia continua com todas as suas exigências e não há reunião privada que as faça cair, por muito que muitas vezes nós tendemos, ou há pessoas que tendem a acreditar que a Rússia publicamente pode ter sempre uma posição muito intransigente e depois nestas reuniões deixar cair algumas das suas premissas. Não tem sido verdade. É bom que os Estados Unidos não se esqueçam também desta guerra e, neste caso, estão, de facto, a não esquecer completamente, muito embora, neste momento, a guerra no Médio Oriente tenha, de facto, arrebatado mais daquilo que é o tempo dos media. Mas não devíamos esquecer, de facto, a guerra na Ucrânia. Foi um momento de viragem nas relações internacionais, a invasão principalmente em larga escala de 2022, e que foi contra o direito internacional que tanto se tem falado. Muitas vezes quando este direito é flexibilizado uma vez ou duas, é aí que perde importância. E se calhar, hoje em dia, alguns Estados não seguem todas as suas ideias de direito internacional precisamente porque uma vez rompido, ele foi enfraquecido. E foi enfraquecido muito em fevereiro de 2022, quando a Rússia cruzou as fronteiras da Ucrânia.
Porque a atualidade assim o impõe, temos também de falar neste gabinete de guerra, Orlando Samões, precisamente do conflito no Médio Oriente. O FBI avisou, entretanto, a Califórnia sobre um potencial ataque iraniano com drones em território norte-americano, mas Donald Trump vem dizer, de acordo com a agência Reuters, que não está preocupado com eventuais ataques apoiados pelo Irão em solo americano. Vai também dizendo que a guerra acaba quando ele quiser. É mesmo assim ou este conflito está a tomar proporções que vão para lá dos mandos e desmandos dos Estados Unidos e que podem vir até a ter aqui um alargamento ao próprio território norte-americano?
Claro que Donald Trump não controla tudo. E tem dito que termina quando ele quiser, mas na realidade, muitas vezes as guerras têm uma dinâmica própria, na qual parece que cada vez são tomadas mais decisões de forma mais rápida e mais precipitada. E também por isso, naturalmente, se o Irão conseguir tentar atingir um dos seus inimigos principais, ou Israel ou os Estados Unidos, tentará fazê-lo. Para já, neste momento, olhando para os números de mísseis e drones, que até têm diminuído. Chegou-se a falar nos primeiros dias de 480, dependendo das fontes, alguns entre 200 a 300 mísseis. Neste momento, estamos abaixo de 40 por dia. Parece que o Irão está a perder alguma da força e volta a investir mais na possibilidade de criar danos de caráter econômico, ou seja, aumentar a incerteza e o risco dos negócios, nomeadamente fechando o Estreito de Ormuz. Joga com essa cartada, digamos assim, até pode estar em causa estarem a tentar espalhar minas precisamente para bloquear a entrada e saída de navios, no fundo, para prejudicar toda a economia mundial, que sabem que é algo que nos toca a todos e demonstram força dessa maneira. De resto, ataques de cariz mais militar têm sido, creio que sob sistemas de radares, e o alcance é muito os estados do Golfo, ou seja, são os estados que têm as bases militares norte-americanas que acabam aqui por, no fundo, por tabela, também ser alvo do Irão. E, enfim, de forma algo até estranha, já houve dois mísseis que podem ter entrado em espaço da Turquia e que foram interceptados, o que demonstra que há algum potencial de escalada. Claro que há. Se o Irão conseguisse chegar à Califórnia, se calhar poderiam tentar lá chegar. Em parte, esta guerra também foi feita precisamente para diminuir esta capacidade militar e os mísseis de longo alcance. Por muito que, por vezes, a administração americana fale em regime, fale nos mísseis, fale no programa nuclear, e isso tem sido dito como sendo: "Como se confundem muito na justificação, parecem não ter nenhuma". Eu diria que há algum exagero nesta crítica, porque não é pelo fato de eles não conseguirem sempre verbalizar com as mesmas palavras e utilizar exatamente as mesmas palavras no mesmo sentido, que não tenham um certo plano e uma finalidade. Que podem ter e, nomeadamente, por vezes, para que alguma da tática corra bem, também não tem que ser tudo revelado, porque ao revelarem se vão haver pessoas no solo, troops on the ground, saber-se exatamente o dia, saber-se exatamente qual é que é o plano, qual é que é o intuito, mudança de regime ou um ataque mais sobre os armazenamentos de mísseis, isso também deixaria o Irão a poder ter uma política defensiva em relação a essa mesma estratégia e a esse mesmo plano. Por isso mesmo, a crítica deve ser feita, mas também temos que ter a noção de que da administração dos Estados Unidos, eles vão dizendo, nem sempre com as mesmas palavras, nem sempre com o mesmo tom, mas também não é esperável que todos se lembrem exatamente de como dizer e da mesma forma. Há um plano geral e temos que tentar perceber melhor e que tem que ser acelerado. E aliás, neste momento, o grande problema de Trump é exatamente esse, porque ele quer que seja muito curto, porque ele é muito sensível ao comportamento dos mercados e os mercados não mentem, porque para os mercados contribuem as nossas decisões todas, enquanto consumidores, enquanto produtores. Eles vão ajustando em termos de equilíbrios que por vezes fazem subir os preços, por vezes fazem descer. Ora, a partir do momento em que se fica numa situação em que vemos a inflação poder subir por via do preço do crude, em que podemos ver mais incerteza nos mercados, porque há muita oscilação de certos preços, isso inibe os investimentos e até os consumos e pode levar a pequenas crises. Ora, para evitar isso, Trump já está aqui a tentar, de facto, pôr um fim para libertar a economia americana. Ele tem sublinhado muito a ideia de que são questões de curto prazo. É a dor de curto prazo, que ele utiliza mesmo a expressão pain no curto prazo, a dor, para depois o gain ou o ganho no longo prazo. Ora, ainda estamos muito nos primeiros dias e não podemos saber, e de facto Trump não controla tudo. Aliás, o Irão, apesar de muito mais fraco, tem conseguido resistir e a cada dia que passa, até perante a sua fraqueza relativa perante os Estados Unidos, é mais uma prova de que o regime vai sobrevivendo e está de facto a sobreviver.
E os tempos políticos e os tempos dos mercados e da economia não são necessariamente os mesmos. Muito obrigada, Orlando Samões, por esta análise no Gabinete de Guerra. Até à próxima.