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Gabinete de Guerra, Rádio Observador, programa em que falamos os conflitos em curso, neste caso, conflitos na Ucrânia e também na Faixa de Gaza. Hoje converso com o Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas e coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito boa tarde, obrigado por estar conosco. Vamos começar pelo conflito em Gaza e com uma decisão do governo israelita vai aumentar o teto de reservistas que podem ser mobilizados. Passa de 300 mil para 350 mil. Até ao momento já tinham sido mobilizados 287 mil reservistas, já era o maior número de sempre, muitos dos quais já foram dispensados do serviço, mas era um número já elevado. Agora aumenta-se este número de reservistas. Que importância tem isto para Israel nesta altura?
Boa tarde, Miguel. Obrigado pelo convite mais uma vez. Eu julgo que é uma mensagem que está a ser procurada passar. Israel está pressionado neste momento, Netanyahu em particular, o governo está muito pressionado, seja a nível internacional, até pelo seu maior aliado, os Estados Unidos, um bocado desgastado pela sequência de, entre aspas, humilhações que têm recebido pelo não cumprimento por parte de Netanyahu das contrapartidas ao apoio norte-americano, como a nível interno por diversos setores da população israelita, como ainda de dentro do próprio governo. Portanto, há, de facto, uma pressão, mas Netanyahu quer deixar bem claro que não abdica dos grandes objetivos que tinha desde o início, naturalmente o Hamas, e já falaremos disso, mas também dar uma mensagem aos proxies do Irão e a todos os que vão atacando Israel. E isto está a ser uma realidade, Israel está a ser atacada por vários lados, ainda ontem mais uma vez, mísseis por parte dos Huti no Iémen, ataques do Hezbollah no Líbano, ataques vindos do Iraque e da Síria. Portanto, verdadeiramente existe uma ameaça constante que Netanyahu aproveita para referir como existencial na região norte para Israel, mas com origem também na região norte, com o Hezbollah, através de ações desenvolvidas a partir do Líbano. E é particularmente importante porque, aliás, Netanyahu dá referência a isso em declarações muito recentes em que, salvo erro, diz algo como: "Vai haver uma operação que será uma ação muito forte", e quer passar mesmo essa mensagem para ficar claro que não vai permitir este contínuo de intervenções e ações que colocam em causa a segurança de Israel. A UNIFIL não assegura a referida buffer zone desde o início do conflito, é uma peace keeping force, e a verdade é que não tem assegurado um terço da sua missão. Não que seja uma força de interposição, não é isso que eu me refiro, teria outras valências, mas verdadeiramente também tem a responsabilidade de assegurar que o Hezbollah não se instale a sul de uma determinada região, que é definida pelo rio. E que, portanto, não pode de alguma forma ser aceitável que por vezes esteja uma força de UNIFIL e a 200, 300 metros está uma força do Hezbollah a atacar Israel. E, portanto, Israel sente que tem uma necessidade de reagir. A mobilização que já foi falada é, de facto, uma forma de passar essa mensagem, no sentido de eventualmente estar preparado para uma escalada de elevada dimensão, em que teríamos um conflito, aí seria, na minha perspetiva, um pouco mais convencional, em que as forças de Israel iriam intervir com outra dimensão, mas naturalmente que será sempre colocado em causa a operacionalidade real dessas forças, visto que as melhores estão neste momento empenhadas a sul, ou pelo menos a grande parte das melhores, e os reservistas não são um garante de grande qualidade. No entanto, a mensagem, e é esse o ponto que é importante, a mensagem está a ser passada no sentido de colocar alguma contenção ao Hezbollah e a outros proxies do Irão.
E já vamos falar dessa região norte, até porque há algumas acusações contra Israel, mas ainda sobre estas mudanças, podemos dizer assim, naquilo que são as forças israelitas, há esta questão dos reservistas, mas há também o anúncio de que vai ser criada uma unidade antiterrorista na fronteira com Gaza, uma unidade israelita. O objetivo é evitar um cenário semelhante ao de 7 de outubro?
Naturalmente. Correu muito mal o 7 de outubro. E para além da situação militar, de segurança e informações, há aqui algo particularmente importante, que é a segurança é uma perceção, e os israelitas que se sentiam seguros, de repente, de um dia pro outro, deixaram de se sentir. Isso é uma realidade e aqui a razão está definitivamente toda do lado de quem tem uma preocupação existencial em relação a Israel, porque ela existe, de facto. Agora, não quero dizer com isto que de alguma forma sanciono a resposta, e eu deixo isso bem claro para não haver interpretações dúbias Que realmente houve ataques e pode haver continuidade de ataques a cidades e kibuts israelitas, isso é uma verdade. A missão em si, a unidade em si não terá tarefa fácil. Há uma grande dispersão, necessita de uma inteligência muito elevada, de meios concretos e orientados, portanto há uma redefinição do sistema de segurança de Israel. Precisa de uma Gaza que esteja minimamente controlada e aí, naturalmente, Netanyahu tem sempre a tendência de haver uma intervenção direta no futuro de Gaza por parte de Israel, o que não é aceitável para muitos outros atores, mas a verdade é que existirá sempre essa ameaça. Israel tende a acreditar em dois grandes vetores. Um primeiro é a criação de uma buffer zone, que já vem desenvolvendo há uns meses. E a segunda é, de facto, criar forças específicas e unidades e serviços de inteligência direcionados para isso. Ou seja, esta unidade antiterrorista não é novidade, já está a ser criado algo embrionário também para a zona do West Bank. E a verdade é que naturalmente será o caminho que irá seguir e que pelo menos numa primeira fase será uma grande prioridade para Israel.
Falávamos há pouco da questão a norte. A Human Rights Watch acusa Israel de estar a usar fósforo branco sobre a população do Líbano. Do que é que estamos aqui a falar? O que é fósforo branco, o que causa e quais os problemas de utilização de fósforo branco?
Nós temos aqui três grandes vertentes relativamente a esta questão. Uma primeira é realmente ir deixando bem claro a nível de direito internacional, e está inserido no protocolo terceiro em que Israel não é signatário, mas de qualquer maneira será sempre uma referência. O fósforo branco não está dentro dos meios incendiários como está, por exemplo, o napalm. Não há provas definitivas da sua utilização intencional relativamente direcionada a povoações e à população. Pode ser usada como meio de iluminação do campo de batalha e em algumas situações já não é tão comum, mas em algumas situações até para fumo de mascaramento. É uma verdade, tudo isso é uma realidade. Mas a verdade é que independentemente do resto, de não constar no direito internacional e no direito da guerra, é algo incorreto. É algo incorreto, porque nós estamos a falar de algo que em contacto com o oxigénio incendia e que além do mais deixa resíduos que afetam a qualidade de vida das populações. Seja mesmo que não afete as vias respiratórias ou atue sobre as vias respiratórias de alguém, poderá ficar no terreno e afeta a agricultura e as condições de vivência futura. E aqui é que está verdadeiramente o ponto em questão. Há pouco eu falava que a UNIFIL não assegura essa buffer zone relativamente ao Hezbollah, então Israel de uma forma expedita e incorreta, mas a verdade é que está a pensar na sua segurança, procura criar essa buffer zone evitando que a população libanesa tenha condições de vida exatamente nessa região. Aliás, se virmos as zonas em que supostamente poderá ter sido utilizado o fósforo branco, e como eu digo nem a Human Rights Watch tem absoluta certeza dessa utilização, mas de qualquer maneira os pontos que forem identificados como possíveis estão ao longo de toda a fronteira criando exatamente essa buffer zone. É nesse sentido que tem sido utilizado, basicamente para mover a população um pouco para cima, um pouco mais afastada e como há pouco dizia para Gaza, criar aqui também uma buffer zone que proteja e que dê alguma possibilidade e tempo de resposta às forças de segurança de Israel.
Para fechar, vamos falar aqui só um pouco da situação na Ucrânia, mais diplomática. Zelensky e Biden encontram-se em França, na Normandia, está a celebrar-se os 80 anos do Dia D. Está previsto também um encontro a acontecer no G7, em Itália. Sabemos, entretanto, nos últimos dias que Biden não vai estar na Suíça, na Cimeira de Paz, vai Kamala Harris, a vice-presidente norte-americana. Que importância pode ter este encontro entre Biden e Zelensky, estarem juntos também nesta altura?
Tem aqui, diria, dois vetores de importância maior. O momento em si logo é bastante significativo. O Dia D é o ideal para uma imagem comparativa de uma vitória sobre uma autocracia, portanto de alguma forma deixar bem claro de que lado é que estamos e que lado é que estamos a lutar e que valores é que estão inerentes ao esforço que está a ser desenvolvido pelo Ocidente. Os objetivos são genericamente comuns, mas na prática é muito diferente. Zelensky obviamente procura validar a sua imagem estando junto da pessoa mais importante do planeta, como já foi designado, com maior apoio de meios, tecnologia, tentar convencer, não será fácil, a utilização de meios ocidentais, e nomeadamente Estados Unidos, visto que a maioria dos países já foi aceitando, mas dos Estados Unidos para atacar alvos concretos na Rússia, no sentido de não haver o designado santuário em que há um ataque livre a território ucraniano. Por outro lado, adensar o processo de adesão à NATO e validar a sua posição na conferência da paz na Suíça. Esta conferência basicamente visa criar medidas de confiança, em teoria, mas na prática é uma validação da posição ucraniana. Por isso, mesmo que Biden não vá, é naturalmente importante que tenha uma posição forte. Do lado de Biden, e muito rapidamente, quer deixar claro que tem dois tipos de mensagens, uma interna, outra externa. A externa, uma vitória essencial sobre as autocracias, mas deixando uma visão estratégica de estabilidade para futuro. E, por outro lado, deixar bem claro que o isolationismo de Trump não é definitivamente o caminho e que os Estados Unidos precisam de parceiros para futuro. E o Dia D é o ideal para essa imagem, como disse.
Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas e coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito obrigado por ter estado conosco no Gabinete de Guerra.
Muito obrigado, Miguel. E até breve.