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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Daniela Nunes, estamos no dia 600 da guerra na Ucrânia, dia em que o presidente russo chegou a Pequim. É a segunda viagem ao estrangeiro em duas semanas, desde que tem mandado de captura internacional emitido. Será mais uma viagem para fortalecer as relações econômicas com a China ou tendo em conta o plano de paz chinês, haverá alguma hipótese de vislumbrarmos uma intermediação em breve?
Eu gostava só de sublinhar também que esta não é só uma visita de Putin a Pequim, ela acontece depois da visita do Quirguistão e, além disso, durante a própria visita, Putin esteve reunido com o seu homólogo húngaro, o senhor Orbán. Portanto, o que vemos é uma concertação de interesses entre Putin e vários dos seus carrascos. No caso, por exemplo, do Quirguistão, sabemos que é um lugar seguro para Putin, é um daqueles poucos que restaram depois do colapso da União Soviética, onde o poderio russo ainda é mais ou menos bem-vindo, também por uma questão de necessidade, não só no Quirguistão, mas também em toda aquela zona do globo, Quirguistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Tajiquistão. Tudo isto são países ainda, de alguma maneira, dependentes de Moscovo e, portanto, são lugares seguros para Putin. Sobre o senhor Orbán, com quem a conversa também é bastante simpática com o presidente Putin, não há propriamente uma novidade sobre esta mancha no pano da unidade europeia e ocidental pró-ucraniana. E a mancha é, obviamente, esta Hungria "orbânizada". Sobre o senhor Xi Jinping, daria só uma curiosidade aos nossos ouvintes. Este é o 40º encontro entre Putin e Xi nos últimos 10 anos. Portanto, é particularmente simbólico para assinalar um sinal de uma espécie de amizade vitalícia entre estes dois líderes, e uma amizade com a qual vamos ter de lidar, provavelmente para sempre no Ocidente. Esta visita de Putin a Pequim acaba por unir os dois autocratas e quer a posição de Putin, quer uma posição de Xi acerca da condenação da resposta de Israel ao ataque do Hamas, como é óbvio, estranho seria ver qualquer um destes dois a apoiar o aliado, aliás, histórico dos Estados Unidos. Vê-los nesta concertação opinativa sobre o que se passa no Médio Oriente, também é um indicador mais ou menos preocupante, é mais um elo de ligação entre eles, é mais um elo a uni-los. Já não bastava o cenário ucraniano, agora também o cenário israelita acaba por fornecer mais cola ainda entre estes dois líderes. Depois, para além de uma demonstração clara de uma sintonia entre os dois relativamente à questão não só israelita, mas à questão também ucraniana e à sua posição homogênea contra o Ocidente. Destacaria também o elogio de Putin às novas estratégias delimitadas por Pequim no contexto desta iniciativa "One Belt, One Road", com a qual o presidente russo, obviamente inteligente, diz querer cooperar, uma vez que considera também que o seu sonho euro-asiático, eu não estou a citar, porque esta não é exatamente a frase que ele disse, mas algumas expressões são retiradas do discurso de Putin, o seu sonho euro-asiático, de alguma maneira, cruza-se com esta iniciativa de Pequim e com as ideias, as propostas e também as ambições chinesas. Que até ver não são tão bélicas quanto as putinistas, mas Taiwan, como temos visto nas últimas semanas e, sobretudo, agora com o rebentar da guerra também no Médio Oriente, Taiwan é cada vez mais um alvo próximo e temos de estar todos no Ocidente.
Preparados para isso.
Preparados para isso.
Esperemos que não. Deixe-me só fazer agora uma última pergunta, mas peço-lhe uma resposta muito breve, porque o nosso tempo está a chegar ao fim. Estes contactos que falávamos, estes contactos de Putin com vários líderes, podem ter alguma coisa a ver com o alerta feito hoje pelo Reino Unido de que Moscovo está a preparar uma ofensiva coordenada no leste da Ucrânia e pode ser a mais significativa deste ano? De novo, pedia-lhe uma resposta breve, Daniela. Obrigada.
Sim, de facto, a Rússia está há vários dias consecutivos a fazer uma investida feroz no leste da Ucrânia, em particular na cidade de Avdiivka. E esta investida, de facto, infelizmente, parece revelar um certo ressurgimento russo, que leva a crer que esta é uma nova fase da ofensiva russa. Portanto, podemos estar a assistir a um reerguer de um momento de maior intensidade e mais impiedoso, de momento de ataque por parte da Rússia. É evidente que estas aproximações a Pequim, à própria Coreia do Norte e depois também estas aproximações associadas à revogação da ratificação do tratado que proíbe ensaios nucleares, isto não augura nada de bom e faz-nos prever que alguma coisa de pior, um momento mais negro desta guerra poderá acontecer. Sobretudo por quê? Porque neste momento as atenções estão viradas para o Médio Oriente e Putin, de certeza absoluta, vai aproveitar isso, como aliás já está a aproveitar nesta cidade que eu mencionei, Avdiivka, que era uma cidade que antes da invasão russa tinha qualquer coisa como 32 mil habitantes e agora tem 1500. Portanto, isto acaba por ilustrar um pouco, e não querendo ser pessimista, que o gradualismo da contraofensiva ucraniana pode realmente estar a ser ultrapassado por esta velocidade da luz com que a ofensiva russa está neste momento a acontecer, com o presidente Putin a sublinhar a melhoria de praticamente todas as posições do exército russo na linha da frente.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.