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Tem como convidado o professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Senhor professor, boa tarde, bem-vindo. Começamos por um tema que tem dominado o espaço midiático esta quarta-feira: o avião da Flydubai, que seguia de Dubai para Tel Aviv, o copiloto esfaqueou o piloto, o avião foi obrigado a aterrar de emergência na Arábia Saudita. As autoridades israelitas, particularmente o ministro da Defesa, Israel Katz, já veio dizer que se trata de um ato terrorista, jihadista. Foi mesmo terrorismo, senhor professor?
Boa tarde, Miguel. Ainda temos muita coisa para esclarecer, naturalmente. Os sinais parecem indicar nessa direção, mas nós já tivemos, inclusivamente na Europa, com um piloto alemão, uma situação de despenhar uma aeronave e a motivação não era inexistente, era apenas uma depressão. Portanto, tudo pode acontecer. No entanto, parece haver aqui algum tipo de sinais que realmente possam apontar nessa direção. Isto vem um bocadinho ao encontro daquele risco que Israel, os judeus de uma forma mais lata, e até o Ocidente, de uma forma global, agora identificaram com uma situação muito particular a nível geopolítico e que acaba por dar campo fértil à radicalização e, portanto, com várias motivações, mas a verdade é que tudo isso pode acontecer. Israel tem estado atento, o Ocidente tem estado atento, os serviços de informações e de segurança têm estado atentos, mas a verdade é que as coisas podem acontecer e esta foi uma demonstração, ou eventualmente será uma demonstração disso mesmo. Mas, Miguel, há aqui uma repercussão que eu diria quase direta na situação política de Israel. Há um duplo impacto. Por um lado, Netanyahu demonstra um pouco de fraqueza na área da segurança, que é sempre uma das bandeiras que utiliza. Inclusivamente, era acusado de manipular o medo por Pappe Lapid, mas vai usar nitidamente, vai maximizar esta situação, quer ele, quer Katz, quer Smotrich, irão utilizar para legitimar a sua política de segurança, seja nacional, seja regional, e apontar que realmente o futuro de Israel necessita de um líder duro e não um líder moderado. Portanto, em última análise, esta situação vai ser nitidamente favorável a Netanyahu neste período, nesta fase pré-eleitoral, eventualmente até conseguindo mudar a maré das sondagens e das eleições.
Senhor professor, falemos também do fim da missão liderada pelos Estados Unidos no Iraque. Há pouco vi algumas imagens de alguns cidadãos iraquianos a festejarem esta saída dos militares norte-americanos. O que representa esta saída e que implicações, se é que tem algumas?
Tem várias, Miguel. É uma saída da coligação, a missão do "Inherent Resolve" estava perfeitamente identificada e terminada. Realmente, o Estado Islâmico foi derrotado. E há aqui, da parte do Iraque, uma preocupação de soberania e que o Iraque não se transforme num campo de batalha. Este segundo ponto é particularmente relevante e vai de encontro também ao interesse de retração estratégica dos Estados Unidos. Mas com isso, o Iraque acaba por perder o escudo internacional, o fim do recebimento de inteligência, de apoio logístico, de apoio de combate e apoio aéreo. Cria aqui um pouco uma situação de vazio de poder e de segurança, muito disponível para influências, quer internas, grupos internos. O próprio Estado Islâmico tem células adormecidas que poderão ser reavivadas neste momento. Os Hezbollah, há dois Hezbollah a funcionar e atuar no Iraque, poderão ser agora maximizadas as suas ações. Muita preocupação com o Curdistão, com os peshmergas. Há aqui, da parte do poder central, a tentativa de aproximação e colocar plataformas de entendimento, mesmo com brigadas, ou seja, unidades militares em colaboração conjunta. E depois há uma influência internacional, seja ela de uma Turquia, que controla parte do território, seja ela do Irão, que já ataca o sudeste do Iraque para evitar os santuários das forças curdas iranianas, que têm bases no Iraque e depois, eventualmente, talvez não tanto nesta fase, mas no futuro, poderá, com uma tentativa de reocupar a sua posição no mosaico regional, a própria Rússia voltar a tentar influenciar esta região na forma como fazia antigamente. Portanto, tudo isto vai ter consequências, essas consequências podem inclusivamente alimentar mais uma região instável e mais uma região que pode alimentar também ela a radicalização e o terrorismo noutros pontos do planeta.
Avervamos que consequências decorrem do fim desta missão internacional. Senhor professor, sugiro também que falemos sobre os Houthis, que alargaram a zona de influência, controlam uma parcela maior de território no Iémen. Uma ação isolada ou parte de um plano maior?
Há aqui dois vectores de análise. Há um primeiro que é os ganhos directos dos houthis, obviamente querem controlar o máximo território, é o seu objectivo, mas apesar da situação no terreno não estar esclarecida, eles demonstram imensa vontade de combater, que é o maximizador do potencial de combate, têm iniciativa e foram ocupando Mokha, Hudaydah, Taiz, em todo terreno e agora lutam por algo muito importante a nível estratégico, que é a montanha Jabal al-Qabub, que em boa verdade permite o que se designa ser o comandamento sobre o estreito de Bab-el-Mandeb, ou seja, ter o controlo, ter a capacidade de influenciar directamente aquela região. Isso obviamente acaba por fazer parte daquela política da mancha tinta, que já fomos falando aqui do eixo da resistência, que obviamente começa no Irão, mas passa no Iraque, no Líbano, no Iémen, e que pode, e esse ponto é particularmente relevante, vir a ser alargado para o Chifre da África, para o Sudão, para as Mali e também passa a Malilândia, que de certo modo tem uma ligação mais próxima com Israel e que naturalmente será sempre um alvo. Portanto, há aqui um risco directo de ações directas, há um risco híbrido com ações de alguma forma não convencionais e depois há o risco de pirataria que afetaria o comércio internacional e a navegação. Não podemos dizer que o Irão está a ganhar com este processo, é uma certa, mas a verdade é que com a saída dos Estados Unidos do Iraque, que eles estão a maximizar como uma grande vitória e de muitas bases na região por motivos diferentes, o Irão vai ganhando algumas armas para negociar. De certo modo, acaba por ter uma posição não tão negativa, ou seja, mais favorável para negociar com os Estados Unidos. E daí também termos visto que os Estados Unidos, por exemplo, não responderam afirmativamente ao pedido da Arábia Saudita para atacar os houthis, mantiveram-se um pouco afastados do conflito e naturalmente há aqui uma situação muito melindrosa de equilíbrio que se pretende manter a níveis controláveis.
Professor, ainda o leste da Europa, a Rússia não quer negociações sérias, diz o chanceler alemão Friedrich Merz. A intensidade dos ataques de Moscovo contra a Ucrânia, particularmente contra a capital Kiev, representa uma escalada? É nesse ponto em que estamos?
Eu não diria uma escalada. Portanto, há aqui uma grande guerra com o Ocidente que Putin assume é de longo prazo. Isto é basicamente uma crise mais que propriamente um conflito aberto, mas pode chegar lá. E Putin tem desenvolvido agora uma nova estratégia. Não assume a guerra híbrida, isso já vinha adiante, mas agora pressiona a Ucrânia de uma forma muito directa, seja através dos drones 5K5 com novas capacidades, seja com mobilização, recrutamento, com as forças da Coreia do Norte para algum esforço e ganho de iniciativa no terreno, que não tem conseguido. E depois, e principalmente, o tipo de alvos, seja para alvos civis e de infraestruturas de energia. O que é que se passa aqui? Até vi um artigo muito recente da Foreign Affairs que falava que há aqui uma mudança estratégica para a debilidade económica e moral da Ucrânia. Isso é muito relevante, principalmente neste contexto pré-inverno. E é exactamente isso que pretende, paralelamente, vai pressionando o Ocidente com essas tais ações da guerra híbrida e também como reacção às sanções, particularmente os Estados Unidos com o pacote de Grama. Portanto, não sendo uma escalada, há aqui um endurecimento e há uma nova definição estratégica para tentar pressionar os pontos fracos, quer da Ucrânia, quer da opinião pública e política do Ocidente.
E é com esta guerra no leste da Europa, ainda sem fim à vista, que fechamos esta edição de quarta-feira de Gabinete de Guerra, que contou com a preciosa colaboração do professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico do Porto Business School. Professor, obrigado e até breve.
Até breve.