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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis, em dia de visita do secretário de Estado norte-americano Marco Rubio a Portugal. Decorreu há pouco uma conferência de imprensa conjunta com o ministro dos Negócios Estrangeiros. Bruno Cardoso Reis, boa tarde, bem-vindo.

Boa tarde.

Foi uma visita pautada pela diplomacia econômica, foi isso que Marco Rubio veio fazer a Portugal?

Eu acho que sobretudo foi uma forma de agradecer publicamente e também de tentar reforçar esta opção do governo português em circunstâncias um pouco difíceis, num contexto em que na Europa Donald Trump é bastante impopular, em que a guerra contra o Irão é muito impopular, apesar de tudo, dar prioridade a manter a aliança. Acho que realmente o mínimo que se poderia esperar em retorno, como recompensa, era alguma manifestação de agradecimento por parte dos Estados Unidos e acho que foi sobretudo isso o sentido da viagem. Acho que o fato de Rubio também ter ido à Grécia tem exatamente o mesmo sentido. Ou seja, ao contrário, por exemplo, de Itália ou de Espanha, que até pela dimensão consideraram que podiam tomar uma posição de distanciamento em relação aos Estados Unidos, apesar da própria Itália, por exemplo, Meloni ideologicamente até ser próxima de Trump. Mas países mais pequenos, mais periféricos, mais expostos, como Portugal e como a Grécia, claramente entenderam que não se podiam dar a esses luxos e que era importante, apesar das divergências, manter uma cooperação com os Estados Unidos neste contexto. Acho que Rubio realmente é a face da administração Trump mais diplomática, a que mais valoriza as alianças, é um pouco ainda um herdeiro da tradição da política externa do Partido Republicano antes de Trump e é a pessoa ideal também para fazer este papel. E depois, obviamente, vai tentar promover os F-35, certamente, mas fê-lo de uma forma correta, deixando claro que os americanos acham que são o melhor avião, mas que vão fazer uma proposta que tem de ser competitiva, portanto, oferecer algumas contrapartidas e garantias, imagino eu, e que a decisão é portuguesa.

Há aqui algum risco de se criar um incômodo entre os dois países por força deste negócio de renovação da frota de caças por parte de Portugal, caso Portugal decida não comprar os F-35 aos Estados Unidos?

Sim, acho que isso não seria lá muito bem visto, apesar do que disse Marco Rubio, que é realmente o diplomata, mas alguém como Donald Trump provavelmente não reagiria muito bem. Isso se calhar também, a par da questão do custo financeiro significativo, do peso orçamental dessas opções, provavelmente também ajuda a explicar por que a decisão tem sido adiada e por que se continua a arrastar a decisão, assim não se desagrada a ninguém. E pelo contrário, temos a possibilidade de ter aqui vários atores importantes a procurarem conquistar as boas graças de Portugal. Mas a certa altura vai realmente ter de se tomar a decisão, até porque a frota dos F-16 está a ficar mais envelhecida e realmente a maior parte dos países que tinham F-16 já fizeram essa opção e a maior parte optou pelos F-35. Mas realmente, quando se trata de compras de armamento, as questões não são apenas técnicas, não são apenas da qualidade do equipamento, são também, por exemplo, do custo de manutenção e também da confiança que se tem no fornecedor, porque obviamente é uma relação por muitos anos e aí Donald Trump só tem de se queixar de ele próprio quando ameaça a Dinamarca ou quando ele próprio vai falar da questão dos F-35 poderem ser usados pelos Estados Unidos para eventualmente punir aliados que estejam menos alinhados, isso obviamente acaba por levantar aqui dúvidas que se calhar não existiam antes.

Bruno, desta quinta-feira também a notícia de um ataque russo que provocou, pelo menos à hora que falamos, o balanço ainda não está fechado, pelo menos 33 mortos, um ataque que atingiu uma paragem de autocarro em Kramatorsk. Está de fato a Rússia a endurecer as intervenções militares, o tipo de intervenção militar com uma menor preocupação com os civis?

Sim, acho que infelizmente esse tem sido sempre o perfil da escalada russa, que é pouca eficácia no campo de batalha, mas depois até como uma espécie de vingança por isso, apostar o mais possível em ataques indiscriminados, explorando esta enorme assimetria de poder militar entre a Ucrânia e a Rússia, não para atingir objetivos militares, mas para atingir civis de forma indiscriminada, centros populacionais. Enfim, isso para não falar de episódios do gênero que vimos, aliás, de vídeos de drones basicamente armados russos andarem a caçar civis, vendedores ambulantes, velhinhas que vão às compras, etc. Infelizmente, nada disto já é propriamente surpreendente. Temos, apesar de tudo, que tentar manter a nossa capacidade de nos chocarmos. Realmente, isto é um crime de guerra, é uma violação evidente das leis da guerra. É também uma tentativa desesperada da Rússia para, ao fim de quase cinco anos, quebrar a vontade de resistência dos ucranianos. Até agora não tem tido sucesso, devido à enorme determinação da Ucrânia se manter realmente livre e independente. Mas claramente é essa a estratégia russa. E já sabemos que na altura do inverno também, quando se vai aproximando o inverno em que as manobras no terreno são ainda mais difíceis, a estratégia russa tem sido sempre intensificar ainda mais os ataques contra a população civil e contra as infraestruturas civis que são indispensáveis para as pessoas conseguirem sobreviver na Ucrânia.

Sendo que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, já disse que esta intervenção militar não vai ficar sem resposta, não esclarecendo exatamente que tipo de resposta possa vir a ser essa. Bruno Cardoso Reis, obrigado pela tua presença em mais uma edição de Gabinete de Guerra.

Obrigado.