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Este é o Som do Gabinete de Guerra, hoje com a análise de Jorge Rodrigues, coordenador do Observatório de Risco Geopolítico da Porto Business School. Jorge, bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Bom dia, Maria João.

Bom dia. Começamos pela visita de Zelensky à Alemanha, que autorizou o emprego de armas de longa distância na Ucrânia contra alvos russos. Que impacto pode isto ter na dinâmica do conflito?

Pode ter bastante. Não é o primeiro país a autorizar, já o Reino Unido e os Estados Unidos no final do ano passado autorizaram, mas acaba por ser bastante significativo por ser a Alemanha e por ser mais efetivo e pragmático. Há aqui uma mudança radical. Há três planos de análise, eu diria: o tático, o estratégico e o político, que acaba por englobar também a guerra da comunicação. Os mísseis Taurus, ao serem enviados, estado subjacente, apesar de não sabemos exatamente, nunca foi e nunca será dito exatamente se são enviados, mas têm umas capacidades operacionais e de alcance que vêm mudar um pouco. O alcance máximo passa para 500 km e até agora com a Storm Shadow era 250 km e com a Ata 300 km. Isso impõe que a nível tático, visto que as reservas, a logística, o apoio de combate, as bases aéreas passam a estar ao alcance do armamento disponível da Ucrânia. Isso retira flexibilidade e rapidez às forças russas. Por outro lado, no plano estratégico, perde a possibilidade de emprego de alguns vetores em profundidade, que vão ter que retirar, vão ter que se relocalizar e o balanço rápido de forças. Portanto, concluímos aqui que a nível militar vai haver, de facto, um impacto grande, mas o maior estará a nível político. É onde eu julgo que será o mais relevante, porque sinaliza empenhamento e sinaliza para a Rússia, mas também internamente no Ocidente, que há aqui um acompanhamento do reforço da defesa europeia, em que está preparado para um conflito de longo prazo e que não pretende demonstrar fraqueza, pelo contrário, pretende demonstrar uma capacidade de verdadeiramente atuar de igual para igual com a Rússia. Portanto, acho que essa é a maior sinalização que se faz, até porque se espera uma flexibilização de outros países, nomeadamente a França, que se juntará também ao Reino Unido e aos Estados Unidos.

Ainda sobre o terreno, segundo o governo ucraniano, a Rússia está a planear lançar uma grande ofensiva nos próximos dias, nas próximas semanas. O alvo seriam as regiões de Sumy e Kharkiv, com o propósito de criar a tal buffer zone que o Kremlin anunciou recentemente. Jorge, quer explicar-nos melhor esta ideia da zona tampão que engloba quase toda a Ucrânia?

Ora bem, nós estamos aqui numa fase em que o terreno começa a bater diferente na realidade, todas aquelas promessas começam a encontrar um terreno pragmático que é diferente do que ele se propôs e começa a perceber que Putin tem outros objetivos e que não irá com as tais conversas e negociações à la mundo comercial/business e, portanto, começa a perceber que temos aqui outras questões a considerar. Medvedev, de alguma forma, já nos habituou a apresentar as posições mais extremadas do regime. Até já fala agora numa terceira grande guerra, uma guerra mundial, portanto, é normal. Extremou o que Putin referiu, nomeadamente para falar da buffer zone, porque Putin falou do norte, algum território da Ucrânia, e na visão da Nova Rússia, que envolve o oeste e o sudoeste ucraniano. Esta ideia não é nova, a ideia de controle da situação na Ucrânia, de alguma forma afastando um pouco o mundo ocidental. Era uma ideia que inclusivamente chegou a ser assumida por Kissinger, com a expressão de não tocar na Ucrânia, mas que de alguma forma pretende aqui alargar a área de influência russa e deixar bem claro que pretende seguir os objetivos maximalistas que foram identificados desde o discurso de Munique em 2007. Nesse discurso, Putin, se bem nos lembramos, uma das coisas que pretende é exatamente criar um território que iria impedir o contato direto entre as forças do Pacto de Varsóvia com as forças da NATO e que, de alguma forma, criar uma zona tampão que impediria o movimento rápido ou mesmo a capacidade de atingir diretamente território russo. É isso que agora quero deixar claro e defende bem, e eu julgo que será a mensagem mais relevante, que é um objetivo político importante e pelo qual estará disponível para combater, ou seja, eleva o patamar de objetivos maximalistas que têm para defender, o que afasta, de alguma forma, as possibilidades de negociação a curto prazo e, por outro lado, vai criando condições para militarizar a sociedade russa contra o Ocidente e que, de alguma forma, apoie a Rússia numa guerra prolongada na Ucrânia e eventualmente num possível futuro conflito com a NATO. Portanto, há aqui estes dois vetores que são os mais relevantes na criação desta buffer zone.

Entretanto, começaram no Mar Báltico exercícios militares da Rússia que envolvem mais de 20 navios de guerra, 3 mil militares e também meios aéreos. Jorge Rodrigues, como é que devemos olhar para isto e como deve também aqui a NATO reagir?

Esses exercícios acabam por ser frequentes e até são sinalizados. Na semana passada falamos nisso, são sinalizados de parte a parte para evitar conflitos. O que esse tem de extraordinário? Aqui realmente nós vimos falando já há uma movimentação de tropas para a Finlândia, que a Finlândia e os Bálticos são prioridade futura. A NATO, de certo modo, também já marca posição, tem exercícios neste momento a decorrer também na Finlândia, desenvolve policiamento, vigilância e defesa. Aliás, Portugal tem grande responsabilidade nessa missão com os F-16, com o P-3 Orion, já tem uma fragata, já teve fuzileiros, portanto, de alguma forma estamos presentes também. E o que pretende aqui verdadeiramente de diferente neste caso? O Ministério da Defesa Nacional Russo salientou que pretendia sinalizar força que reagirá à defesa dos interesses russos. A presença militar russa na região sempre foi visível, portanto, não é uma novidade. No entanto, a novidade é que a Rússia está a proteger os petroleiros da sua frota sombra na passagem estreita do Golfo da Finlândia. Portanto, observa-se a escolta militar e a presença de forças armadas. Isto é uma coisa completamente nova. E particularmente preocupante é que extremou a resposta a um incidente com a Marinha Estónia, que tinha controlado um petroleiro dessa frota sombra. Isto, de alguma forma, a teoria de jogos pode apresentar uma série de cenários em que as coisas podem correr mal, mas verdadeiramente a Rússia está a desenvolver algum tipo de ações para sinalizar que vai reagir com maior força na defesa dos ditos interesses russos, nomeadamente na proteção dessa frota sombra que passa pela Finlândia.

Sobre o Médio Oriente, Jorge, depois da pressão da Europa, o governo israelita ameaça anexar partes da Cisjordânia, se países europeus como Espanha, Reino Unido, França e até Portugal reconhecerem o Estado da Palestina.

Há aqui duas ideias principais: uma visão da parte de Israel, que Israel procura definitivamente manter a sua autonomia estratégica, mesmo face aos Estados Unidos, mas vai sinalizando que pensa ser um ator mais fraco na Europa, e a Europa que procura finalmente um actorness na sociedade política internacional, ser efetiva na sua política externa. E neste momento a Europa definiu que é um período crítico em que Israel terá ido longe mais e que Trump não irá ser ele próprio um moderador como Biden foi. Portanto, Van der Leyen utiliza já uma linguagem muito forte, critica a escalada, o desproporcionar de força e a situação abominável, que é um termo já muito pesado. Os estados da União Europeia, muitos deles já pedem aqui uma revisão da relação com Israel. E a Alemanha surgiu com uma indicação de que já não é compreensível este tipo de ação. A Alemanha é particularmente importante, tem uma responsabilidade histórica e sempre veio apoiar, mesmo com armamento, Israel. Portanto, de alguma forma, a Europa está-se a colocar agora numa posição de maior intervenção na região. A solução dos dois Estados, que é exatamente o que motivou essa reação, parece ser a única viável e a única aceita a nível global. Tem algumas agruras pelo caminho, sem dúvida, ainda não corresponde à segurança de Israel, que é um dos pontos mais relevantes, mas tem que ser consequente e é esse talvez o ponto mais relevante. Reconhecer por reconhecer, como a Espanha fez, como a Noruega fez, poderia não ser consequente. Agora uma ação conjunta de vários países, como temos neste momento, a França, o Reino Unido, têm falado que na cimeira de Nova Iorque em 18 de junho poderá reconhecer o Estado Palestiniano, já é mais consequente, já impõe algum tipo de resultados no futuro. É isso que o Van der Mhe, ministro dos Assuntos Estratégicos, vem reagir com a anexação possível da Cisjordânia, mesmo achando que poderá ser eventualmente apenas um ato para criar algum tipo de instabilidade. Mas para a Europa é uma oportunidade de ser assertiva e ter alguma autonomia estratégica, de ser forte e conseguir de alguma forma efetiva exportar os seus valores e nomeadamente em algo que considera que está a atingir uma dimensão desproporcionada e preocupante a nível humanitário.

Jorge Rodrigues, muito obrigada por mais uma análise no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia, Jorge.

Obrigado. Bom dia, Maria João.