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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos as principais questões da geopolítica mundial. Hoje conto com o antigo professor na Academia Militar, António José Telo. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar sobre a situação na Ucrânia, até porque Sergei Lavrov acusa a União Europeia de estar a vender carga apreendida da frota fantasma da Rússia para transferir a receita para a Ucrânia. Não é a primeira referência recente da Federação Russa a esta frota fantasma e com uma certa ameaça ao que pode acontecer caso estes navios sejam interceptados. Pode haver aqui, António José Telo, algum tipo de narrativa russa a construir-se?
Boa tarde. Há uma narrativa russa a preparar o que aí vem e que, aliás, não é uma certa ameaça por parte da Rússia, é uma ameaça concreta, muito clara, que diz que irá proceder de igual modo, interceptando e apreendendo os navios. Inclusive, esclarece que são navios dos países que fazem isso, portanto, são países europeus que fazem isso em relação à frota fantasma russa. Há aqui, tudo indica, uma preparação do terreno para o que a Rússia julga que irá montar nas próximas semanas ou meses, que é, ao fim e ao cabo, um teste de força para testar justamente a determinação europeia, por um lado, e por outro lado, a ligação entre a Europa e os Estados Unidos. E um bom local para o fazer é justamente a navegação, é justamente os navios no alto-mar. A Rússia tem uma marinha significativa, não já tanto no Mar Negro, mas também não será no Mar Negro que irá fazer isto, mas tem uma marinha muito significativa no Báltico, no Ártico e no Atlântico, a partir do Ártico, e como tal é uma marinha que com relativa facilidade pode interceptar navios no alto-mar, apreendê-los e levá-los para portos russos, que é isso que ela ameaça expressamente com todas as letras fazer. Com a diferença que quando isso é feito por parte dos países europeus, é em relação a navios ilegais da frota fantasma russa. Se isto for feito em relação a um navio que tenha uma bandeira europeia ou que esteja ligado a países europeus, não são navios ilegais. É um teste de força que a Rússia está a preparar, sem dúvida acompanhado por outras medidas. Acredito que isto seja acompanhado por mais violações de espaço aéreo, que seja acompanhado por ataques cibernéticos a países europeus, eventualmente àqueles em que também serão interceptados os navios, e que seja acompanhado por, talvez não diretamente o presidente Putin, mas outras figuras de segundo e terceiro nível em termos da política russa, fazerem afirmações ameaçando com a utilização de armas nucleares, como é muito frequente por parte da Rússia, por pessoas de segundo plano fazerem essas ameaças, sem dúvida com coordenação com o presidente Putin e com os responsáveis do governo. Tudo isto se está a preparar e os sinais são muito claros. Há cada vez mais ataques cibernéticos em múltiplos países europeus. Há cada vez mais violações de espaço aéreo, quer por parte de drones, quer por parte de mísseis e até de aviões. Há aqui uma escalada que a Rússia prepara. A Rússia prepara-se para um teste de força com a Europa. Uma Europa que justamente está muito dividida. Está muito dividida, está muito enfraquecida, autoenfraquecida. Ao contrário da Ucrânia, que nestes anos de guerra, de facto, conseguiu erguer uma indústria de defesa perfeitamente eficaz e muito fora do normal e conseguiu criar um sistema que apoia a sua manobra político-militar com bastante eficácia, a Europa não conseguiu fazer isso. A Europa, no papel e nas declarações oficiais dos seus líderes, continua a apontar para tudo que é certo, mas depois na prática não faz, na prática não concretiza isso tudo que é certo. Os grandes projetos de defesa europeia ficaram em larga medida no papel ou pura e simplesmente desfizeram-se, não conseguiram avançar em termos de cooperação europeia. O financiamento e o aumento das despesas com a defesa vão para projetos que são, chamemos de clássicos, são projetos que os militares normalmente chamam de herança, ou seja, que vêm do passado, que foram herdados do passado. Foi isto que aprendemos a fazer, é isto que continuamos a fazer. Mas para projetos inovadores, de facto, muito pouco. E não tem avançado também, nomeadamente, em certos aspetos que se revelam absolutamente essenciais, um deles, dos mais significativos, é justamente as defesas antiaéreas e antimísseis. Há aqui uma Rússia que se prepara para lançar o luvo do desafio. Prepara-se para testar a determinação da Europa, dizer à Europa ao fim e ao cabo o seguinte: ou vocês param com o apoio à Ucrânia ou então aguentam a nossa escalada. É isto que se vê da escalada russa.
Escalada tem também acontecido do lado ucraniano, com o aumento e o reforço dos ataques a território russo. António José Telo, podemos já assumir que a guerra está finalmente a chegar à Rússia?
A guerra há bastante tempo que está a chegar à Rússia e até algumas vezes de uma maneira inesperada. Agora, infelizmente, não está a chegar à Rússia na dimensão que a Ucrânia gostaria e na dimensão que seria necessária Para a Rússia perder a capacidade de desenvolver a guerra em larga escala que continua a desenvolver. Diga-se que, de qualquer modo, com dificuldades evidentes, como é notório, quando precisa de recorrer a 50 mil voluntários da Coreia do Norte, pelo menos 50 mil, que se juntam aos anteriores para continuar a sua manobra militar na Ucrânia. Mas de facto, também aí neste campo, ou seja, no campo diretamente das operações militares no terreno, a Rússia parece estar a preparar alguma coisa de significativo para este outono e inverno. E mantém a pressão atualmente, principalmente em termos de ataques aéreos, mas também de uma ofensiva convencional no Alto Donbass e de uma ofensiva convencional em que sofre grandes baixas, mas vai registando também alguns avanços, por vezes alguns recuos, mas no essencial pequenos avanços. Portanto, sim, a Rússia está também a preparar nesse campo um aumento, uma escalada da sua atividade, possivelmente acompanhado, e faz todo o sentido que sejam as duas coisas ao mesmo tempo, da tal provocação que irá lançar à Europa, com ataques cyber, com ataques à navegação e até, admito essa hipótese perfeitamente, com atos unilaterais do género dizer: "A partir de agora, o comércio no Báltico e a navegação no Báltico obedecem a estas regras, que são as nossas regras". E seria uma maneira muito forte de atestar a determinação da Europa. E já agora, a Europa que infelizmente ainda não percebeu, ou pelo menos alguns dos seus dirigentes bastantes, que a única hipótese que tem de sair por cima desta grande crise que vivíamos há já vários anos, é aproximar-se dos Estados Unidos. E é restabelecer a relação com os Estados Unidos a todo o custo, porque sozinha não aguenta uma provocação de larga escala da Rússia.
António José Tella, temos ainda três minutos e meio para abordar a situação no Oriente, embora seja com uma notícia que envolve o Pentágono, que anunciou um acordo para aumentar a produção de intercetores de mísseis. Nas últimas semanas, vários meios de comunicação social, como a CNN Internacional, deram conta de que há falta de intercetores de mísseis por parte das forças norte-americanas. É possível, António José Tella, que os Estados Unidos estejam mesmo a ficar sem mísseis? Temos três minutos até ao final do programa.
Sem mísseis é talvez uma exagerado. Agora que tem um stock reduzido, sobretudo os Patriot PAC 3. Sim, isso é confirmado por fontes oficiais. Agora, também não é simples retomar a sua produção e penso que quando se fala de um aumento da produção a curto prazo, estamos a falar de um Patriot PAC 2, que são suficientes para 95% dos mísseis iranianos. Depois há um pequeno leque que de facto exige os PAC 3, que existem alguns, mas existem poucos. Isso eventualmente é um dos motivos, não é o único, porque os Estados Unidos estão dispostos neste momento, desculpe a expressão, mas a engolir sapos vivos para ganhar tempo, para ter um compasso de espera, também para tentar resolver a situação das eleições dentro de menos de três meses e também para tentar fazer a rotação de algumas unidades que estão no Oriente há já bastante tempo. E portanto, esse ganhar tempo para os Estados Unidos é importante. Do mesmo modo que é também importante para o Irão esse ganhar tempo. Portanto, não é de esperar operações de alta intensidade militares a curto prazo, mas é de esperar operações de alta intensidade militar dentro de alguns meses. Talvez depois do fim do ano ou à volta do fim do ano. Até lá, pelo menos durante este verão quente, não é previsível aquilo vir a acontecer.
António José Tella, um minuto para notas finais?
Um minuto para notas finais. Uma das coisas que a mim mais me custa nestas crises múltiplas que se passam, é a posição não só da Europa, como dos europeus. Os europeus têm uma grande tendência a confundir Trump com os Estados Unidos e têm uma grande dificuldade em entender que a Europa, se não aprofundar a sua ligação aos Estados Unidos e não reforçar a sua defesa e segurança nessa base, o melhor é começar a aprender a falar chinês, porque é isso que a espera. Vai ser engolida pela China dentro de algum tempo. E infelizmente, esta cegueira ideológica que nos mata faz com que se confunda Trump com os Estados Unidos e se assumam posições que são posições, de facto, ideologicamente radicais, não contra Trump, mas contra os Estados Unidos. Isto é uma coisa que tem de ser, porque a Europa não percebe que está a fazer um harakiri.
E é com essa ideia que encerramos o Gabinete de Guerra de hoje com a análise do antigo professor na Academia Militar, António José Tella, a quem agradeço se ter juntado a nós. Fica por aqui o Gabinete de Guerra.