Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Está aberto o Gabinete de Guerra. Vamos falar dos conflitos em curso. Eu sou Miguel Cordeiro, vou estar à conversa com Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa. Muito obrigado por estar conosco aqui na Rádio Observador. Vamos começar pelo conflito na Ucrânia e com as preocupações da Polónia. A Polónia hoje diz que quer a ajuda do Reino Unido, da França e da NATO para garantir apoio à Ucrânia depois da eleição de Donald Trump e dos receios de que o apoio norte-americano possa reduzir-se na presidência de Donald Trump nos Estados Unidos da América. Como é que vê esta intenção da Polónia e este pedido de esclarecimento da Polónia quanto ao apoio à Ucrânia?

Muito mais obrigado pelo convite à Rádio Observador para participar neste Gabinete de Guerra. As preocupações são legítimas, não só da Polónia, mas como grande parte da política dos países que estão mais expostos a uma potencial invasão à Rússia irá mudar radicalmente e a política da União Europeia com esta eleição de Donald Trump também sofrerá, com certeza, algumas alterações, senão muitas. E Donald Tusk já deu um passo à frente e já solicitou reuniões de emergência aos principais parceiros que ele próprio acredita serem a sua melhor proteção e do seu país. Não nos podemos esquecer que Keir Starmer, por exemplo, primeiro-ministro do Reino Unido, disse em julho que era inabalável a ajuda que daria à Ucrânia, mas com os Estados Unidos a potencialmente saírem do teatro de operações, será muito complicado para estes países que colaboram e para estas organizações que colaboram para cobrarem com a paz naquela região.

Falava do Reino Unido, ainda hoje reafirmaram o apoio pela Ucrânia. O ministro da Defesa, John Healey, reiterou o compromisso britânico em prestar apoio militar à Ucrânia depois de acusações ucranianas de dissonância com o novo governo liderado por Keir Starmer. Quiseram reforçar esse apoio à Ucrânia.

Sim, nós sabemos que o Reino Unido, e isso é público, tem sido um dos grandes veículos de entrega de armamento, nomeadamente de drones, alguns deles até com chancela portuguesa, que são produzidos também em Portugal e que depois chegam à Ucrânia via Reino Unido. Portanto, o Reino Unido tem sido um parceiro essencial desta guerra na Ucrânia, mas também a França e também a NATO. Portanto, estes são os parceiros que Donald Tusk também naquela zona da Polónia pensa serem o seu salvo-conduto para continuar a garantir a proteção. Assim seja. Claro está, teremos que esperar para ver qual é a resolução que Donald Trump dizia ter para 24 horas depois de tomar posse.

Ainda sobre este conflito e sobre esta questão do que será Donald Trump, hoje o Kremlin quis negar que Donald Trump e Putin tenham falado numa chamada telefónica. Isso foi avançado pelo Washington Post. Ora, diz o Kremlin: "Este é um exemplo mais claro da qualidade de informação que por vezes é publicada, mesmo em publicações bastante conceituadas". Seria um problema Putin e Trump terem falado nos últimos dias e seria um problema também para toda esta questão em torno do conflito na Ucrânia?

Neste momento, não me parece que se tenham falado ou não. É informação jornalística, claro está, mas não me parece que seja o mais importante da questão. O mais importante da questão, na minha opinião, será percebermos todas as declarações que estão a ser veiculadas por pessoas próximas da administração Trump, inclusive as publicações nas redes sociais de membros da sua família sobre a resolução da guerra nos últimos dias, e perceber que essa informação tem sido coordenada para ser veiculada para redes sociais e para os órgãos de comunicação social, de forma a criar uma ideia de que Trump irá mesmo resolver, seja como for, custe o que custar, a guerra na Ucrânia. Isso é aquilo que está realmente a mudar na questão do apoio dos Estados Unidos, até à tomada de posse de Donald Trump, mas já está a haver essa pressão. Mais do que a própria chamada telefónica, é importante perceber, porque não falo só da família de Donald Trump, mas falo também de muitas pessoas da entourage de Donald Trump, que aconselharam Donald Trump em matérias de defesa durante a campanha e que têm publicado e dado algumas entrevistas nos Estados Unidos, já permitindo vislumbrar qual será a estratégia, que alguns dizem que poderá passar por uma zona desmilitarizada, outros dizem que poderá passar pela cedência da Crimeia e mais territórios à Rússia e a ceder algumas pretensões da Rússia, nomeadamente a não entrada na NATO, por exemplo. Portanto, esse tipo de informação já está a ser veiculada e, claro está, eu não acredito, e penso que também não será plausível de acreditar que esse tipo de informação está a ser veiculado sem o núcleo duro e mesmo Donald Trump saberem que esta a ser passada.

Entretanto, no conflito há uma questão relacionada com a Moldávia, que acusa a Rússia de invadir o espaço aéreo. Moscovo já desmentiu. Dois drones entraram no espaço aéreo da Moldávia e caíram em território moldavo durante este domingo. Isto foi o que disse o vice-primeiro-ministro da Moldávia, que acusa Moscovo de ter enviado esses drones. Temos aqui uma complicação entre a Moldávia, a Rússia a desmentir, como é que vê este caso? Neste caso são dois drones. Já tivemos situações com aviões também desde o início do conflito.

Eu penso que a Rússia não irá abrandar naquilo que tem feito em alguns pontos, provavelmente não propositados, mas muitos deles propositados, não irá abrandar até à resolução do conflito na Ucrânia. E este calendário que até à tomada de posse de Donald Trump e depois nas primeiras semanas da sua nova administração, será um continuar da pressão russa nos países fronteiriços e nos países que estão mais expostos. Temos que perceber também quem é que será o secretário de Estado da Defesa americano. Já foram avançados alguns nomes, mas ainda nenhum certo. Já sabemos de certeza que não será Mike Pompeo, Donald Trump já disse que não seria, mas temos que perceber quem será e qual é o tipo de instruções que tem para aquela região e o esforço que fará para estar com todos estes países e as primeiras visitas que fará àquela região. Isso é muito importante. Agora, não é de esperar que a Rússia abrande esta pressão. Nós sabemos por notícias de diversos meios de comunicação internacional e diversas agências noticiosas, que a Rússia tem aumentado o número de drones sobre as cidades ucranianas nos últimos dias. Não é porque Donald Trump ganhou que isso abrandou. Isso tem aumentado. Estamos aqui perante o próximo mês e meio decisivo para percebemos o que vai acontecer provavelmente nos próximos quatro anos, pelo menos durante a administração Trump.

Seguimos para o conflito do Medio Oriente e para negociações em curso, sendo que hoje o Hezbollah diz que não recebeu qualquer proposta de cessar-fogo. O governo israelita tinha dado nota de terem acontecido alguns progressos nas negociações de cessar-fogo com o Líbano. O Hezbollah diz que não sabe de nada. Como é que vê o estado destas negociações e se desta vez podemos, de facto, apontar para um cenário que esteja efetivamente em cima da mesa?

Eu penso que o Hezbollah já deu alguns sinais disso. E claro está, isto são notícias da imprensa internacional também e que julgamos credíveis. Tanto o Hezbollah como alguma parte da sociedade palestiniana, penso eu, neste momento já seria muito bom assinar um acordo de paz, até porque grande parte do dano que queriam causar em Israel já causaram. Seja como for, não haverá vencedores nem vencidos. Mas penso que neste momento, Benjamin Netanyahu, por parte do seu governo, não é essa a estratégia que quer adotar, muito menos agora com a eleição de Donald Trump. Sabemos que Benjamin Netanyahu parabenizou Donald Trump. Eles falam regularmente, se podemos utilizar essa expressão, e sabemos que nesta matéria, os Estados Unidos, com a nova administração, estarão muito mais alinhados com Benjamin Netanyahu do que estavam anteriormente com Donald Trump. Sabemos também que esta visão economicista ou econômica da política que os Estados Unidos têm tendo a área principal aquela região do globo e tendo uma área importante dos seus porta-aviões naquela região para controlar o canal do Suez, em que Israel também em termos de informações naquela região do Médio Oriente é um parceiro importante para os Estados Unidos. Na estratégia de Donald Trump, numa estratégia de tornar os Estados Unidos mais forte ainda economicamente e não dependendo de conflitos armados para as suas exportações na área do petróleo. Portanto, essa será uma estratégia basilar da política de Donald Trump, será manter aquela região do Médio Oriente controlada pelos Estados Unidos.

Há hoje declarações do príncipe herdeiro da Arábia Saudita a apelar a cessar-fogo na Faixa de Gaza. Diz que os atuais crimes israelitas contra civis inocentes e a contínua violação do local sagrado, a Mesquita de Al-Aqsa, minam todos os esforços destinados a restaurar os direitos legítimos do povo palestiniano, isto citado pela Al Jazeera, um discurso na abertura da cimeira em Riad com foco nos conflitos do Médio Oriente. Que papel a Arábia Saudita pode ter no meio de tudo isto e como é que vê também estas declarações?

A Arábia Saudita tem tentado ter um papel neutro, mas de apaziguador dos conflitos naquela região. Portanto, ao longo do canal do Suez, mas também este conflito do Médio Oriente entre Israel e a Palestina, sobretudo porque a Arábia Saudita tem feito um trabalho, os seus líderes e o seu regime, de catapultar o país para uma ocidentalização cada vez maior. E sabemos que os conflitos na região prejudicam esta visão que a Arábia Saudita tem para o futuro. E é por isso que o príncipe herdeiro tenta, pelo seu máximo esforço, conseguir uma resolução e conseguir que os conflitos terminem naquela região, porque essa é a estratégia da Arábia Saudita para os próximos 10, 20 anos, e é isso em que ele acredita e em que o regime está concentrado.

Entretanto, como última questão, falar aqui um pouco do Líbano, que pede que continue a ajuda internacional. Najib Mikati, o primeiro-ministro libanês, apela à comunidade internacional para continuar a enviar apoio, sabendo que as forças israelitas estão a avançar ainda com a ofensiva contra o Hezbollah. É importante para o Líbano esse apoio internacional, mesmo com todas as limitações e com todas as condicionantes que sabemos que as forças de Israel vão impondo à entrega desse apoio?

Sim, é claro que sim, é importante para o Líbano. Eu já tive a oportunidade de dizer isto aqui no Gabinete de Guerra. A questão do Líbano parece-me uma questão um bocadinho diferente de todas as outras, até porque há uma passagem da fronteira e há uma invasão terrestre Que foi precisamente aquilo que aconteceu na Ucrânia. E isso muda tudo naquela região. Tem havido e continua a haver bombardeamentos com projeções de longa distância, mas no Líbano houve realmente, por parte do exército israelita, incursão terrestre. Ou seja, ultrapassou a fronteira num primeiro momento e isso foi divulgado por Israel como sendo necessário para quebrar as primeiras bolsas de resistência em território libanês. Mas o que é certo, e como disse agora o Miguel, isso tem continuado, isso não acabou naquele momento. E quando assim é, trata-se de uma invasão que está para ficar. E será curioso perceber como é que os Estados Unidos naquela região, e por isso é que é importante perceber quem será o seu secretário da defesa, que será o enviado que terá que lá estar muitas vezes e que terá que negociar acordos de paz naquela região. Qual será a política dos Estados Unidos para esta incursão dentro do território libanês? É importante perceber. Sabíamos que Joe Biden e a administração Biden não estavam de acordo com aquilo que aconteceu. Vamos tentar perceber o que Donald Trump pensa relativamente a esta questão, que é uma questão que me parece fulcral, porque ultrapassa a linha vermelha da invasão territorial, mesmo que justificada ou não, isso depende da interpretação de cada analista. Mas é importante perceber esta questão dos Estados Unidos em termos de política internacional.

Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da CEDEZ Europa, muito obrigado por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra.

Obrigado.